Dirigia, desde 2016, a Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica da Polícia Judiciária. Com 59 anos, Carlos Cabreiro é o novo director nacional da Polícia Judiciária nos próximos três anos.
Natural de uma aldeia de Miranda do Douro, Picote, está na Polícia Judiciária desde 1991. É licenciado em Direito pela Universidade Autónoma de Lisboa e com pós-graduação em guerra de informação pela Academia Militar. Teve um papel fulcral na localização e detenção do pirata informático Rui Pinto em Budapeste, em 2019: foi a unidade de cibercrime que dirigiu até agora que identificou quem andava a espiar o sistema informático do Benfica, a tentar chantagear o fundo de investimento desportivo Doyen, sob o nome falso de Artem Lobuzov, e que descobriu de onde enviava o hacker as suas mensagens. Mais recentemente, em Dezembro passado, a unidade de Carlos Cabreiro investigou e deteve um ex-adjunto da anterior ministra da Justiça, o advogado Paulo Abreu dos Santos, por suspeitas de abuso sexual e pornografia de menores. E também marcou pontos no desmantelamento das burlas tipo “Olá pai, olá mãe.”
Embora tenha dedicado grande parte da sua carreira às novas tecnologias, tendo representado o Ministério da Justiça na comissão instaladora do Centro Nacional de Cibersegurança, em 2012, Carlos Cabreiro também já actuou na área dos crimes de colarinho branco: entre 2005 e 2009 foi subdirector nacional-adjunto na Direcção Central de Investigação da Corrupção e Criminalidade Económica e Financeira. Foi de resto aqui que iniciou o seu percurso na Judiciária, tendo, em 1995, assumido a coordenação da Brigada de Investigação da Criminalidade Informática, e da Unidade Nacional de Informação sobre Crime Económico Organizado.
Um colega de profissão destaca a forma como conseguiu criar quase de raiz a unidade de combate ao cibercrime, baptizada como UNC3T, apesar da falta de recursos materiais e humanos que teve de enfrentar. “É conceituado junto das grandes empresas e serviços públicos devido aos ataques informáticos, cada vez mais frequentes”, descreve a mesma fonte de informação, que fala num perfil “discreto, quase cinzento.”
Outro inspector que trabalhou directamente com o novo director da Judiciária fala do seu carácter “muito cauteloso”, em especial “quando tem de tomar decisões estratégicas”, e também “conciliador por natureza”, seja no relacionamento com colegas ou com juízes e procuradores. E apesar de fazer questão de se manter actualizado na sua área de especialidade não esqueceu o apego à terra próprio de quem vem de Trás-os-Montes: “Interessa-se pela agricultura. É uma pessoa séria e trabalhadora que mantém ligações às suas origens.” Apesar de o considerar muito diferente do seu antecessor, este antigo colega tem uma certeza: “Tal como Luís Neves também tem noção da importância da Polícia Judiciária para o Estado de direito democrático.”
O presidente da Associação Sindical dos Funcionários de Investigação Criminal da Polícia Judiciária, Nuno Domingos, admite que os polícias que o conhecem pior lhe possam estranhar o feitio reservado, por oposição ao expansivo Luís Neves. “Mas se calhar é disso que a PJ precisa”, equaciona, fazendo votos para que o novo líder desta polícia resolva questões como a regulamentação do estatuto profissional do pessoal ou o acesso dos inspectores à plataforma informática dos tribunais, o chamado Citius, em vez de trabalharem só com papel e mais papel. “É uma boa escolha, de continuidade”, avalia o dirigente sindical.
Numa entrevista que deu à Rádio Renascença no final de 2024, Carlos Cabreiro assinalava o imenso número de vítimas que podem ser atingidas com grande rapidez na criminalidade praticada com recurso a meios informáticos: “A prática criminal utilizando as novas tecnologias tem uma particularidade, que é a de, ao mesmo tempo, e durante um período de tempo relativamente curto, poder produzir um número infindável de vítimas. Porque a mensagem que é transmitida na internet, nos grupos de discussão, é dirigida não só a uma vítima em concreto, mas a centenas, milhares, quiçá milhões de pessoas.”
Feita por despacho conjunto do primeiro-ministro e da ministra da Justiça, esta nomeação põe fim a um impasse de mais de um mês, depois da saída do anterior líder desta polícia para o cargo de ministro da Administração Interna. A escolha não traz grandes surpresas: o dirigente integrava a shortlist de candidatos a director nacional. E antes de se saber que Luís Neves ia para o Governo falava-se no seu nome para substituir uma directora nacional-adjunta que se reformou recentemente.