Marcelo Bonfá foi um dos fundadores da Legião Urbana, ao lado de Renato Russo.Kzebre / Divulgação
Conhecido por seu trabalho como baterista da Legião Urbana, Marcelo Bonfá apresenta nesta quinta-feira (2), em Florianópolis (SC), o primeiro de uma série de shows para divulgar sua autobiografia em quadrinhos, Minha Banda Preferida de Todos os Tempos (Brasa, 224 páginas, R$ 164,90).
Em entrevista exclusiva a Zero Hora, por telefone, o músico e autor falou sobre polêmicas, incompatibilidades com Dado Villa-Lobos, a ideia de seu novo show e o momento do rock nacional.
Leia a entrevista com Marcelo Bonfá
Geralmente, uma autobiografia tem muitos filtros. Mas a tua traz momentos de tensão da banda, como a saída de Negrete (ex-baixista), e revela crises de pânico e divergências com Dado Villa-Lobos. Como foram essas escolhas?
Peguei bem leve em todas as questões que estão ali. Realmente, não quis tocar em certas coisas porque não ia ficar muito legal para as outras pessoas. Então, tive o devido cuidado de não me estender em certos temas.
Até porque certas coisas que você notou que estão ali, quem quiser saber de fato pode vir me perguntar que respondo. Então, deixei certas margens, mas quem sabe do que estou falando vai saber a minha visão e meu ponto de vista.
Claro que peguei leve. É a minha autobiografia, eu escrevo o que eu quiser, né? MARCELO BONFÁ
Músico
Foi uma forma de contar a tua versão das polêmicas?
Ouvi várias histórias sobre o Negrete (sobre a saída do músico da banda), por exemplo. E quando a mídia começou a querer desencavar essa história, na época (anos 1980) ninguém sabia o que significava direito autoral, direito de imagem, nem a gente nem os músicos tinham muita noção. Ao longo dos anos, fui deparando com várias questões, aprendendo. Porque a minha parte sempre foi artística.
A gente era uma banda muito coesa, tinha química muito legal, e esse negócio de ficar contando dinheiro, migalhas, nunca fez parte da minha personalidade.MARCELO BONFÁ
Músico
Mas começaram a querer fazer um circo em cima do negócio com o Negrete. E eu conto a história (no livro). Fui eu que coloquei ele na banda. Não fui eu que tirei, quem tirou foi o Renato (Russo), mas com a anuência de todos, entende? Mas quem saiu, na verdade, foi ele (como resultado de seu comportamento). Não fomos nós que tiramos. No livro eu deixo claro isso.
Você tem show programado em Floripa para divulgar o livro. Qual a ideia com a apresentação? Podemos esperar uma visita a Porto Alegre?
Espero que sim, claro. O que aconteceu foi que tenho uma casa na Bahia, onde passo os verões, e perto do meu aniversário fico meio agoniado. Em janeiro, começou a chover e peguei programações eletrônicas que fiz em shows, tocando bateria em cima delas.
Tive a ideia de ficar groovando com o baixo que eu mesmo toco. Aí peguei uma bateria emprestada, juntei um amigo e fui tocar num bar, de pé na areia. Que foi um barzinho, inclusive, onde levei o baterista do U2 para dançar forró quando recebi ele na minha casa (em 2006). Tem essa história no livro.
E nesse bar fiz um show (no início deste ano), que deu tudo certo, a galera se amarrou. É um show em que só tem eu e a bateria, e groovo com o meu som. É estrutura simples, mas não menos poderosa.
A bateria é um instrumento orgânico e é onde está a energia de uma banda. Uma coisa é você ver um guitarrista tocando com bateria eletrônica. Mas um baterista tocando com guitarras e teclados eletrônicos é inusitado. E canto um repertório maneiríssimo que tenho à disposição.
Essa história com o baterista do U2 é muito curiosa porque o Larry Mullen Jr. é um cara muito reservado. Há pouquíssimas histórias públicas sobre ele. Como foi levá-lo para dançar forró?
Sim, ele dançou forró e tudo. Foi uma história inusitada porque uma amiga é casada com um médico que atendia ele em Nova York.
Aí ela me ligou e falou: “Sabe aquela casa na Bahia? Posso levar um amigo? Ele quer muito ir lá”. Eu disse: “Claro, quem é?”. Ela respondeu: “Ah, não posso falar agora”. Mas depois me disse: “É o Larry, do U2”.
O cara (Larry Mullen Jr., do U2) é simplesmente um dos bateristas de referência da minha vida, um dos que mais moldaram meu estilo. ‘Boy’ e ‘October’ (primeiros álbuns da banda) saíram no momento em que a gente estava compondo também.MARCELO BONFÁ
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Havia uma sintonia entre U2 e Legião Urbana naquele momento, mesmo em um mundo sem internet, sem celular. Os jovens não vão entender o que estou falando. Aquele surdo do lado esquerdo (de Larry) era uma coisa nova para mim. Claro, não queria ficar igual, mas gostei.
E aí o Larry foi parar lá em casa. Tem a história dele acordar às 14h e a gente já ter tomado café. Tem história que eu não vou contar também, para não expor, mas a gente foi dançar na Cabana Corais (uma barraca da Praia da Concha, em Itacaré, na Bahia).
Você esteve com Dado Villa-Lobos e André Frateschi em turnê desde 2015, tocando discos da Legião. A última turnê foi “V Estações”. Mas faltou uma tour do disco “Descobrimento do Brasil”, não? Esse projeto de vocês acabou ou os fãs podem esperar algo no futuro?
Adoro tocar essa música (Descobrimento do Brasil), estou tocando ela nesse meu projeto (atual, nos shows de divulgação do livro). Canto com um arranjo bastante diferente e adoro.
Mas sobre o projeto, a gente foi revisitar os álbuns. O último foi V Estações, que provou-se instigante, inclusive na parte cenográfica, no setlist. Foi o melhor show de todas as turnês que a gente fez, desde 2015.
Mas cara, vou te falar, foram anos de convivência ali. Eu e o Dado e tudo mais, mas principalmente eu e Dado. E a gente descobriu algumas incompatibilidades. Aí a gente achou melhor acabar ali mesmo.
A gente até tinha planejado terminar antes, mas estendeu mais um ano, foi além do planejado. Estendeu por várias razões: era uma corporação, cheia de gente, equipe enorme. E culminou nessas incompatibilidades. Algumas incompatibilidades ideológicas e afins e várias coisas, sabe? E aí a gente meio que está afastado.
Há alguns meses, o Philippe Seabra, da Plebe Rude, em entrevista a Zero Hora, disse que “é difícil ver o legado do rock dos anos 1980 sendo jogado pelo ralo”. Como você vê a atual cena do rock no Brasil?
Acho que o mundo mudou completamente. A gente passou por várias revoluções, a digital… Isso muda tudo: como se faz música, como se ouve música.
Se essa pergunta tivesse sido feita há poucos anos, era outro tipo de resposta. Ou há poucos meses. Todo dia muda alguma coisa. Agora começou uma guerra louca. E na música há todo um paradoxo entre entretenimento, música de protesto, arte, é tudo misturado. É difícil falar sobre isso.
Eu me acho um popstar roqueiro, entendeu? Tenho uma personalidade diferente de outros. Mas não vou dizer que o rock morreu porque eu sou roqueiro e estou vivo, bem pra c******. O sistema realmente abocanhou tudo.MARCELO BONFÁ
Músico
Hoje, você liga um carro com o celular. Imagina o que isso significa na cabeça da criançada. Só que são fases. A gente está passando por um momento de transição.
E o uso de tecnologia nos shows?
Olha, o grande motivo do sucesso da nossa turnê recente pelo Brasil é que no palco não tinha computador. Tudo andava e desandava. Eu dava o meu próprio tempo, respirava, de propósito saía do ritmo. Pra provocar mesmo.
Na visão geral, podia ser falta de técnica, mas eu dizia: “F***-se, quero provocar”. E todo mundo saía extasiado. Era uma coisa totalmente orgânica. Não tinha nada mecânico. As pessoas viam vida onde estavam acostumadas a ver algoritmo. O show era uma catarse.