A China está a planear a construção de uma base robótica e humana na Lua – deve estar pronta até 2035. A missão Artemis II, da NASA, parte esta quarta-feira para a Lua para bater os prazos chineses. Quem chegar primeiro garante os melhores recursos: o Tratado do Espaço Exterior das Nações Unidas afirma que nenhum país pode ser dono da Lua, mas não existem tantas certezas sobre a exploração daquilo que possa ser lá encontrado

A NASA planeia voltar a levar humanos até à Lua, mais de 50 anos depois. A primeira missão tripulada a orbitar a Lua em mais de 50 anos deve iniciar-se esta quarta-feira com o lançamento da missão Artemis II, no Centro Espacial Kennedy da agência espacial norte-americana, em Cabo Canaveral, na Florida. A tripulação do Artemis II orbitará a Lua e o voo de 10 dias terminará com uma amerissagem no Oceano Pacífico.

“Esta viagem acontece agora porque a China também está a preparar a sua estação lunar. Os EUA querem antecipar-se e chegar lá primeiro”, explica à CNN Portugal Hugo André Costa, diretor-executivo da Agência Espacial Portuguesa (AEP). “Existe uma corrida geopolítica entre as duas nações. Há uma exportação da Terra para a Lua da disputa geopolítica.”

A China, em parceria com a Rússia, tem avançado a passos largos no projeto ILRS (International Lunar Research Station), já aterrou com sucesso robôs e veículos exploradores na Lua e está a planear uma base robótica e humana que deve estar construída até 2035.

E é preciso não descartar a importância da índia. “Estão a crescer a passos largos, foram os primeiros a aterrar no polo sul da Lua, com missões robóticas, e também querem avançar para as missões tripuladas”, explica Hugo André Costa.

“Há uma grande diferença entre as missões Apollo dos anos 60 e 70 e a Artemis. Naquela altura, os EUA e a União Soviética estavam numa disputa, ambos queriam demonstrar o seu poder no espaço. Em comparação com o que temos hoje, a tecnologia era muito mais rudimentar, eram viagens bastante complexas, mas foi conseguido”, diz Hugo André Costa. No entanto, essas viagens, apesar de importantes em termos científicos e tecnológicos, eram viagens de exploração e que apenas traziam um domínio simbólico. “As viagens chegaram a um patamar em que já não traziam nada de novo. Não valia a pena continuar.”

Mas, tantos anos depois, com tudo o que já evoluímos a nível científico e tecnológico, voltar à Lua ganha uma nova importância.

“A grande diferença é que desta vez se quer ir para ficar”, diz o diretor-executivo da AEP. “O objetivo é construir uma base lunar e manter uma presença permanente. Isto pode acontecer agora porque houve um grande desenvolvimento tecnológico.”

A última viagem tripulada à Lua foi a missão Apollo 17, lançada pela NASA em 7 de dezembro de 1972. Foi a sexta e última missão tripulada Apollo. Os astronautas Eugene Cernan e Harrison Schmitt permaneceram 75 horas na Lua e foram os últimos seres humanos a pisar a superfície lunar. 

Desta vez, nenhum dos quatro astronautas que vai na Artemis II vai pisar a superfície lunar. Mas a NASA planeia fazê-lo até 2028, realizar alunagens tripuladas a cada seis meses e construir uma base lunar permanente nos próximos sete anos. Um plano ambicioso e avaliado em mais de 17,2 mil milhões de euros

De acordo com o plano, a base lunar incluirá habitats modulares – estruturas pressurizadas que permitirão estadas de 30 a 60 dias, equipadas com laboratórios de geologia e biologia; microrreatores de fissão nuclear, para garantir energia ininterrupta, mesmo durante a noite lunar de 14 dias terrestres, quando os painéis solares são insuficientes para manter o aquecimento; e o desenvolvimento de dois veículos, o LTV (aberto, para missões curtas) e o LPR (uma “autocaravana” pressurizada que permitirá aos astronautas explorarem centenas de quilómetros sem necessidade de usarem fatos espaciais constantemente).


Os astronautas da Artemis II: Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch  e Jeremy Hansen (Foto: Bill Ingalls/NASA/Getty Images)

Chegar primeiro para garantir os melhores recursos

Ainda existe prestígio em ser o primeiro a espetar a bandeira na poeira lunar. Mas, agora, o local onde essa bandeira é espetada pode fazer a diferença. O Tratado do Espaço Exterior das Nações Unidas de 1967 afirma que nenhum país pode ser dono da Lua, mas não existem tantas certezas sobre a exploração daquilo que possa ser lá encontrado.

Tanto os EUA como a China querem ter acesso às áreas com os recursos mais abundantes. Por isso, os EUA não querem apenas “chegar primeiro”, querem ocupar os locais estratégicos no Polo Sul lunar, onde crateras em sombra perpétua escondem depósitos de gelo de água.

Ter acesso a água é vital para quem quer viver na Lua. Não só fornece água potável como também pode ser decomposta em hidrogénio e oxigénio para fornecer ar para os astronautas respirarem e até combustível para as naves espaciais.

O potencial económico da Lua

E se falamos de recursos temos de falar de minérios. O que está em causa agora é algo que pode motivar mais os governantes e também as empresas: a exploração económica do espaço.

“É preciso investigar todo o material que existe na Lua que possa servir para benefício económico. Sobretudo os minerais que existem nos corpos celestes e que possam ser capitalizados pela indústria”, explica Hugo André Costa. A mineração lunar e dos asteróides pode ser um recurso importante no futuro.

Já sabemos que nos asteroides existem platina, cobalto e níquel. Na Lua existe hélio-3 (combustível para fusão nuclear) e metais como titânio, alumínio e metais de terras raras, importantes para a indústria tecnológica. O regolito lunar também abriga minerais únicos, como a armalcolita e a xanguezita, além de platina proveniente de impactos de asteroides.

Primeiro a Lua, depois Marte

“Além disso, os países estão já a pensar numa futura viagem para Marte. A Lua pode servir como uma base para essa viagem”, explica o diretor da Agência Espacial Portugal.

A NASA quer enviar pessoas para Marte até à década de 2030. Ir à Lua é mais seguro e mais barato e pode servir, antes de mais, como campo de testes para aprender a viver num outro planeta. Numa base lunar, a NASA pode aperfeiçoar a tecnologia para fornecer o ar e a água de que os astronautas necessitam. Terão de descobrir como gerar energia e construir habitats para proteger as pessoas das temperaturas extremas, bem como da perigosa radiação espacial.

Os mistérios da Terra estão guardados na Lua

Como a Lua já fez parte da Terra, guarda um registo de 4,5 mil milhões de anos da história do nosso planeta. E sem placas tectónicas, vento ou chuva para apagar este registo, a Lua é uma cápsula do tempo perfeita.

“Do ponto de vista geológico, é muito importante recolher amostras porque o solo da Lua está desde a sua formação sem atmosfera e está praticamente intacto, com exceção dos locais onde estiveram os astronautas”, explica Hugo André Costa. “Portanto, é uma história do passado que está intacta. Isso é fantástico. Continuar o estudo da Lua vai permitir saber mais sobre a Lua, mas também sobre a própria formação da Terra e sobre todo o Espaço.”

O princípio de uma grande aventura

A missão Artemis II serve para testar vários sistemas, como os suportes de vida dos astronautas, tanto em órbita da Terra como da Lua. 

Como todas as viagens no espaço, esta também enfrentas vários riscos. “Os seres humanos vão estar totalmente fora do campo magnético da Terra e muito expostos à radiação do universo, nomeadamente a radiação solar”, explica Hugo André Costa. “Existe também o risco de choques com pequenos meteoritos e o outros objetos, sobretudo na saída da órbita. E depois os riscos de estarem 10 dias confinados num espaços tão pequeno, pode haver uma doença ou qualquer outro problema.” 

Para se ter uma noção do desafio que é esta viagem, Hugo André Costa faz uma comparação: “A Estação Espacial Europeia está a 400 quilómetros de distância da Terra, é um bocadinho mais do que a viagem de Lisboa ao Porto. Estes astronautas vão estar a mais de 7 mil quilómetros. É muito diferente.” Mas os quatro astronautas que integram a missão estiveram de quarententa antes da viagem e estão muito preparados. Além disso, “já trabalham há muito tempo juntos, são uma equipa muito coesa, quase uma família”, explica. 

Para os cientistas e para todos os que se interessam pelos mistérios do espaço, esta será uma época de ouro. “Vamos ver muitas viagens nos próximos tempos e em breve, se tudo correr bem, teremos uma base lunar”, antevê, entusiasmado, o diretor da AEP. 

Em meados de 2027, a Artemis III vai testar as manobras de acoplamento em órbita baixa da Terra com os veículos da SpaceX e da Blue Origin, assim como o novo fato espacial para saídas da nave espacial. A quarta missão Artemis, programada para o início de 2028, será o regresso da Humanidade à superfície lunar desde dezembro de 1972. A missão seguinte, Artemis V, está planeada para o fim de 2028 e deverá servir para começar a construção da base lunar da NASA.