A Arábia Saudita tentou contornar o bloqueio do Estreito de Ormuz desviando exportações de petróleo para o Mar Vermelho, mas a entrada dos Houthis na guerra ameaça também essa rota. Com ataques no Estreito de Bab el-Mandeb, cresce o risco de interrupção do fornecimento global, podendo fazer disparar os preços do petróleo e agravar a escassez, sobretudo na Ásia
O mundo, ávido por petróleo, teve um alívio modesto no início deste mês, quando a Arábia Saudita começou a desviar milhões de barris de crude — normalmente destinados a navios que transitam pelo bloqueado Estreito de Ormuz — para o seu porto no Mar Vermelho, Yanbu.
Mas, ao longo do fim de semana, os militantes Houthis apoiados pelo Irão entraram na guerra, numa escalada que ameaça cortar até essa linha de abastecimento.
Qualquer fator que comprometa os fluxos de petróleo saudita a partir do Mar Vermelho irá aumentar ainda mais a pressão sobre os preços globais do petróleo, afirmou Richard Bronze, cofundador e responsável de geopolítica da empresa de análise Energy Aspects.
Até 4,6 milhões de barris por dia foram carregados em navios em Yanbu nas últimas duas semanas — mais do triplo da média de 2025, segundo a empresa de dados de transporte marítimo Vortexa.
Isto é uma compensação pequena face aos 15 milhões de barris que o mundo deixa de receber diariamente enquanto o Estreito de Ormuz permanece fechado. Mas esses 4,6 milhões de barris são suficientes para abalar a oferta e, num mercado petrolífero global extremamente sensível, estrangular outra rota comercial crítica faria subir ainda mais os preços do petróleo e desencadear ou agravar escassez local de combustível.
No final de 2023, militantes Houthis baseados no Iémen começaram a atacar navios comerciais que passavam pelo Estreito de Bab el-Mandeb — localizado na extremidade sul do Mar Vermelho e cujo nome significa “Porta das Lágrimas” em árabe — em retaliação pela guerra de Israel em Gaza. Os ataques levaram as companhias marítimas a utilizarem uma rota mais longa, acrescentando semanas às viagens e obrigando a maiores gastos com combustível, seguros e salários das tripulações.
Oleodutos terrestres contornam Ormuz
Dois oleodutos na Arábia Saudita e nos Emirados Árabes Unidos oferecem alternativas para contornar o Estreito de Ormuz, atualmente inseguro para navios devido à guerra EUA-Israel com o Irão.
Nota: O tráfego típico de petroleiros é uma estimativa baseada em dados de densidade de transporte de setembro de 2024.
Fonte: Global Energy Monitor (Global Oil Infrastructure Tracker), Global Maritime Traffic
Gráfico: Amy O’Kruk, CNN
Imagem refeita com legendas em português com recurso a inteligência artificial
Nos primeiros 28 dias de março, a quantidade de petróleo bruto a atravessar o Estreito de Bab el-Mandeb aumentou 21% face a fevereiro, segundo a Vortexa. Esses carregamentos são agora potenciais alvos de novos ataques dos Houthis.
O preço do Brent, referência global do petróleo, disparou cerca de 50% desde o início da guerra com o Irão, a 28 de fevereiro, negociando-se em torno dos 110 dólares por barril na segunda-feira.
Se o Estreito de Bab el-Mandeb também se tornar demasiado perigoso para a passagem de petroleiros, o Brent “muito provavelmente” ultrapassará os 150 dólares por barril nos próximos meses, mais cedo do que o atualmente previsto, segundo Artem Abramov, responsável pela investigação de petróleo e gás natural da consultora Rystad Energy.
O fecho desta via marítima “vai simplesmente quebrar o sistema muito mais rapidamente”, referiu Abramov à CNN na segunda-feira. “Mesmo a simples ameaça de encerramento do Mar Vermelho deverá impor uma pressão contínua em alta sobre seguros, fretes e, em última análise, sobre a maioria dos preços de referência do petróleo nos próximos dias.”
Mais um golpe para a Ásia
Os Houthis entraram oficialmente na guerra no sábado, quando dispararam dois mísseis em direção a Israel. No dia anterior, Mohammed Mansour, vice-ministro da Informação no governo Houthi, disse à CNN que fechar o Estreito de Bab el-Mandeb “é uma opção viável, e as consequências serão suportadas pelos agressores americanos e israelitas”.
Os Houthis dispõem de uma variedade de armas, incluindo drones e mísseis antinavio, representando um enorme risco para os navios que atravessam o estreito.
Um míssil lançado do Iémen em direção a Israel visto no céu sobre Hebron, Cisjordânia, a 28 de março de 2026. Wisam Hashlamoun/Anadolu/Getty Images
Para evitar esta via marítima, os petroleiros que saem de Yanbu — com a grande maioria destinada à Ásia — teriam de seguir uma rota muito mais longa e indireta, passando pelo Canal de Suez, na extremidade norte do Mar Vermelho, seguindo para oeste pelo Mar Mediterrâneo, descendo depois pela costa ocidental de África e atravessando o Oceano Índico.
“Se os Houthis começarem a ameaçar navios, isso acrescentará, no mínimo, várias semanas aos tempos de viagem para a Ásia”, disse Bronze, da Energy Aspects, à CNN. “Isso agravaria a escassez de crude na Ásia.”
A Ásia está a suportar o impacto mais pesado do choque na oferta global de petróleo. A região depende do Médio Oriente para cerca de 60% do seu petróleo, e os governos têm tomado medidas para poupar energia durante a crise.
As Filipinas, por exemplo, declararam estado de emergência energética e reduziram a semana de trabalho de alguns funcionários públicos para quatro dias, enquanto a Coreia do Sul aconselhou os cidadãos a tomarem duches mais curtos.
Até agora este mês, todo o petróleo que saiu de Yanbu e atravessou o Estreito de Bab el-Mandeb teve como destino a Ásia, segundo Muyu Xu, analista sénior de petróleo bruto na Kpler, uma empresa de dados e análise de comércio.
Se ataques dos Houthis bloquearem efetivamente o estreito, explicou Xu à CNN, os sauditas poderão passar a dar prioridade ao envio de crude para a Europa — prejudicando a Ásia — ou redirecionar os petroleiros para a Ásia através do Canal de Suez.
Xu afirmou que várias regiões da Ásia começarão a enfrentar escassez de crude em abril à medida que esgotam as reservas existentes. “Se não conseguirem receber o crude saudita a tempo, isso agravará ainda mais a escassez de curto prazo”, acrescentou.
Os preços elevados do petróleo são “um problema, mas o mais importante é que simplesmente não conseguem obter petróleo suficiente”, disse.
Tim Lister, em Albi, França, e Nadeen Ebrahim, em Abu Dhabi, contribuíram para esta reportagem.