Num mercado que parece ter-se apaixonado perdidamente pelos SUV, a chegada de uma berlina desportiva com linhas fluidas e um perfil aerodinâmico é, por si só, uma lufada de ar fresco. Mas o Xpeng P7+ não é apenas mais um rosto bonito na multidão eléctrica; é a materialização de uma filosofia que inverte a ordem lógica da indústria automóvel tradicional. Como referiu o director de marketing da marca para a Europa durante a apresentação internacional em Barcelona, os fabricantes históricos começaram por construir carros e depois acrescentaram-lhe tecnologia, enquanto a Xpeng começou pela tecnologia e construiu o carro em volta desta. Esta premissa sente-se assim que entramos no habitáculo e, mais importante ainda, quando o conduzimos durante cerca de 200 quilómetros pelas estradas sinuosas da Catalunha.
Uma das primeiras surpresas surge na habitabilidade. É comum que os carros com tejadilhos panorâmicos em vidro sacrifiquem o espaço para a cabeça, mas o P7+ consegue contrariar esta tendência. O interior é amplo, os bancos são de elevada qualidade e os passageiros que viajam atrás têm uma liberdade de movimentos para as pernas que é pouco habitual neste segmento. E há luxos como massagens, ventilação e aquecimento nos bancos. A bagageira segue o mesmo caminho de generosidade, apresentando dimensões que se tornam verdadeiramente colossais se optarmos por rebater os bancos traseiros. É uma prova de que a eficiência aerodinâmica não tem de ser inimiga do conforto familiar.
Carregamento de alta velocidade
A estratégia da Xpeng para lidar com a ansiedade da autonomia é inteligente. Em vez de equipar o carro com baterias gigantescas que acrescentam peso e custo desnecessário, a marca optou por optimizar a eficiência e a velocidade de carregamento. O modelo que testámos, a versão Long Range, utiliza uma bateria de fosfato de ferro e lítio (LFP) com 73 kWh de capacidade útil (74,9 kWh totais). À primeira vista, pode parecer pouco para uma berlina deste tamanho, mas a aerodinâmica apurada permite consumos reais surpreendentes. Pelas nossas contas, após o trajecto de ensaio, a autonomia real em auto-estrada deverá situar-se nos 425 quilómetros, subindo para mais de 500 quilómetros num ciclo misto.
Onde o P7+ realmente brilha é no posto de carregamento. Num teste realizado numa estação Fastned equipada com carregadores de 400 kW, conseguimos passar dos 45 por cento para os 70 por cento de carga em apenas cinco minutos. A potência máxima suportada pela versão ensaiada é de 446 kW, ou seja, acima da potência disponibilizada pelo posto. Mas, ainda assim, recuperámos mais de 120 km de autonomia nesses 5 minutos. Ou seja, em 10 minutos, em condições ideias, seria possível recuperar uns 250 ou mesmo 300km de autonomia.
Confirmámos que é possível transportar todas aquelas malas (32) dentro do Xpeng P7+
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Para quem optar pela versão com baterias de menor capacidade (60 kWh úteis), o pico de potência de carregamento baixa para 350kW, ainda assim um valor recorde para a capacidade da bateria. O P7+ entra no topo da tabela no que diz respeito à velocidade de carregamento.
Quanto a prestações, a versão de bateria mais pequena tem um motor de 180 kW (245cv), que permite acelerar dos 0 aos 100 km/h em 6,9 segundos; a versão Long Range aumenta a potência para 230 kW (313cv) e desce o tempo dos 0 aos 100 para 6,2 segundos; e, finalmente, a versão Performance acrescenta um motor no eixo da frente, passando a disponibilizar tracção integral e 503 cavalos, com uma aceleração dos 0 aos 100 em pouco mais de quatro segundos.
Inteligência artificial ao comando
O coração tecnológico deste veículo é o chip Turing AI, desenvolvido internamente pela marca, com uma capacidade de processamento de 350 teraflops, ao nível de supercomputadores. Este cérebro electrónico gere a informação recolhida por 28 sensores e alimenta um sistema de apoio à condução que, em muitos aspectos, nos deixou impressionados. Ao activar o Xpilot Assist 2.5, notámos uma suavidade de reacções muito próxima da condução humana. O sistema não se limita a manter o veículo rigidamente no centro da faixa de rodagem; pelo contrário, aproxima-se dos limites da via em curva de forma natural e progressiva.
Houve, contudo, vários comportamentos que exigem correcção e que a marca atribui ao facto de termos conduzido unidades de pré-produção com software ainda não finalizado. Durante o ensaio, o sistema permitiu que circulássemos mais de 10 minutos sem as mãos no volante sem emitir qualquer alerta, o que não deveria ser possível. Por outro lado, em certas situações de auto-estrada, o sistema revelou-se demasiado intrusivo, emitindo avisos de desatenção mesmo quando o olhar estava fixo na estrada. É fundamental que estas arestas sejam limadas antes da chegada das unidades de produção ao mercado português. Por enquanto, neste aspecto, a inteligência artificial da Xpeng não nos convenceu.
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No que toca à interacção, o enorme Head-Up Display (HUD) merece destaque pela forma como apresenta uma representação gráfica em 3D do que o carro está a ver: peões, veículos e obstáculos aparecem em tempo real. Existe um modo que projecta imagens de vídeo das câmaras laterais no HUD quando se liga o pisca, mas parece-nos uma funcionalidade que pode distrair mais do que ajudar. No interior, os passageiros traseiros não foram esquecidos, dispondo de um ecrã próprio para entretenimento e controlo de funções.
Primeira opinião
Nas estradas de montanha nos arredores de Barcelona, o P7+ revelou-se um automóvel equilibrado. A suspensão é claramente orientada para o conforto, sendo muito suave na absorção de irregularidades. Embora se note algum rolamento da carroçaria em curvas feitas a velocidades mais elevadas, o carro sente-se sempre seguro e com boa aderência. O sistema de estacionamento automático, que pode ser operado através da aplicação no telemóvel com o condutor fora do veículo, funcionou com uma precisão assinalável.
O Xpeng P7+ chega ao mercado nacional em Junho de 2026 com um preço de entrada de 46 mil euros. Olhando para a concorrência directa, este valor é extremamente competitivo. Um modelo europeu que ofereça o mesmo nível de habitabilidade, tecnologia e, sobretudo, a sofisticação da arquitectura de 800 volts para carregamentos ultra-rápidos, custaria facilmente mais 15 ou 20 mil euros. Se as questões de software relativas aos alertas de condução forem resolvidas, o P7+ tem argumentos mais do que suficientes para se tornar um caso de sucesso e uma ameaça real ao domínio das marcas premium tradicionais.