Sheldrick Wildlife Trust

Daphne Sheldrick (1934-2018)

Daphne Sheldrick descobriu algo que tinha escapado a todos os conservacionistas: como manter os elefantes órfãos vivos.

Durante os primeiros dois anos de vida, tal como os humanos, uma cria de elefante depende do leite materno para sobreviver. Para os órfãos que perdem a mãe devido à caça furtiva, seca ou por outro motivo qualquer, essa necessidade torna-se uma questão de vida ou morte.

Hoje, os zoologistas sabem o que fazer para salvar as crias, mas antes de Daphne Sheldrick resolver o problema, os pequenos elefantes órfãos morriam praticamente todos.

A conservacionista queniana ficaria conhecida como “Mama Elephant” (Mamã Elefante) pelo seu trabalho de investigação de 28 anos. A partir de ingredientes simples, como leite artificial para bebés e leite de coco, conseguiu (após inúmeras tentativas) desenvolver uma fórmula que imitava o leite de uma elefanta, tornando-se a primeira pessoa no mundo a criar, com sucesso, elefantes órfãos recém-nascidos.

A descoberta de Sheldrick melhorou drasticamente as hipóteses de sobrevivência destes elefantes e abriu caminho a novos métodos de reabilitação que viriam a influenciar projetos de conservação em várias partes do mundo. Ao longo da vida, a Mamã Elefante resgatou e reabilitou mais de 230 crias de elefante órfãs.

Nascida em 1934 numa quinta do Quénia, Daphne estudou em Nairobi, na Kenya High School for Girls, onde concluiu a formação como uma das melhores alunas da sua turma, relatava a CNN em 2018.

Apesar de lhe ter sido oferecida uma bolsa para estudar Medicina, optou por deixar os estudos para casar, uma escolha que a conduziria ao Parque Nacional de Tsavo, onde o seu primeiro marido trabalhava como guarda. Foi também ali que conheceu David Sheldrick, fundador e primeiro diretor do parque, com quem também casou em 1960. Daphne e David Sheldrick ajudaram a construir Tsavo: transformaram 22 mil quilómetros quadrados de território selvagem naquela que continua a ser atualmente a maior área protegida do Quénia.

Quando David morreu, em 1977, com 57 anos, Daphne decidiu continuar a fazer o trabalho de dois, enquanto criava as duas filhas, Angela e Jill. Fundou nessa altura o David Sheldrick Wildlife Trust, em homenagem ao marido, e dedicou-se continuamente à proteção de elefantes órfãos.

Cada animal resgatado em Tsavo (que conta hoje com cerca de 17 mil elefantes) recebe cerca de cinco litros de leite de três em três horas, de dia e de noite. Parte do trabalho é esse, mas é igualmente importante garantir que, quando regressarem à natureza, encontrarão um habitat seguro. Por esse motivo, a organização mantém equipas anti-caça furtiva e unidades veterinárias que patrulham o enorme parque queniano e outras áreas protegidas.

A influência de Daphne Sheldrick estende-se a outras iniciativas, como o Reteti Elephant Sanctuary Community United for Elephants, no norte remoto do Quénia, apontado como o primeiro centro de resgate de elefantes detido pela própria comunidade local.

A União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) explica que o declínio dos elefantes africanos foi impulsionado principalmente não pela morte dos elefantes órfãos, mas pela caça ilegal, juntamente com a perda e fragmentação do habitat. Mas o trabalho de Daphne Sheldrick foi absolutamente fundamental para a sobrevivência de muitos elefantes e revolucionário pelos ensinamentos que trouxe aos esforços de conservação.

Daphne Sheldrick morreu há oito anos, neste mês de abril, vítima de cancro da mama, contra o qual terá lutado durante muito tempo.


Tomás Guimarães, ZAP //


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