A presidente da comunidade autónoma de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, juntou-se às vozes que se opõem ao empréstimo de Guernica, de Pablo Picasso, ao Museu Guggenheim de Bilbau, envolvendo-se numa guerra de palavras com Aitor Esteban, líder do Partido Nacionalista Basco, em que ambos chamaram o outro de “provinciano”. A monumental pintura de Picasso está depositada no Museu Rainha Sofia, em Madrid, desde 1981.
“Em Madrid, o que queremos é que todos cresçamos juntos; o que não faz sentido é ir à origem das coisas conforme nos convém, porque, nesse caso, levaríamos toda a obra de Picasso para Málaga [a cidade onde nasceu o pintor e onde fica o Museu Picasso]. Parece-me provinciano e penso que a cultura é universal. Além disso, sabem que [a pintura] não pode sair ou, se sair, fazer-se-á colocando em risco a integridade da obra”, afirmou Ayuso durante a inauguração de um centro de saúde mental em Parla. Quando fala de origens, Ayuso refere-se à argumentação de que o empréstimo, já muitas vezes pedido e sempre negado desde que Guernica se fixou em Madrid em 1981, foi feito com os líderes bascos a falar de “reparação histórica”.
Recorde-se que Imanol Pradales, o lehendakari (chefe de Governo) do País Basco, pediu ao presidente do Governo espanhol, o socialista Pedro Sánchez, que autorize um empréstimo por nove meses da pintura de Picasso ao Museu Guggenheim de Bilbau, para uma exposição a decorrer entre Outubro de 2026 e Junho de 2027 e que assinala o 90.º aniversário do bombardeamento de Gernika-Lumo. A pequena cidade da província da Biscaia, no País Basco, foi bombardeada a 26 de Abril de 1937 por aviões da Legião Condor, emprestada por Adolf Hitler para combater na Guerra Civil de Espanha (1936-1939) do lado dos nacionalistas do general Francisco Franco. Quatro horas de bombas ficaram na história, e na memória colectiva dos bascos, causando a morte de mais de 1500 pessoas.
https://elpais.com/espana/madrid/2026-04-06/ayuso-insiste-en-no-trasladar-el-guernica-a-bilbao-me-parece-que-es-cateto-la-cultura-es-universal.html
Esteban, por seu turno, considerou que o “provincianismo” está na forma como é encarada a narrativa histórica por Ayuso. “O património dos espanhóis pertence a todos os espanhóis; o que não se pode fazer é dividi-lo por 17 estados, nações e, desta forma, continuar a alimentar esse sentimento”, mantém Ayuso.
O Rainha Sofía considera que “o grande ícone” do museu “deve permanecer, sem excepções, à margem da política de empréstimos da instituição”, segundo um relatório museológico em que se argumenta que qualquer destabilização da pintura pode resultar na sua deterioração.
O contexto político desta contenda em torno de Guernica justifica quase a existência da contenda. Se até aqui quaisquer pedidos de empréstimo são imediatamente recusados, este continua em análise pelo Governo central espanhol. É que Pedro Sánchez é presidente de um Governo minoritário, um socialista que depende do apoio do Partido Nacionalista Basco e da coligação EH Bildu — esta última com laços históricos à ETA, a organização separatista e terrorista que se bateu pela independência do País Basco e que se extinguiu em 2018. A decisão deve ser tomada agora, terminada a Semana Santa observada pelos católicos espanhóis.