Tem três linhas à escolha e cada uma delas tem uma cor. Se optar pela amarela vai encontrar galerias de arte dedicadas a Cildo Meireles ou Rivane Neuenschwander, obras de Olafur Eliasson ou Zhang Huan, rodeadas de ciprestes-do-brejo ou palmeiras-juçaras.

Se a escolha for a linha laranja, pode alternar entre galerias com obras de Adriana Varejão, Lygia Pape ou Yayoi Kusama, e uma série de instalações entre jacarandás-pretos ou filodendros.

Por fim, se percorrer a linha rosa, pode ir até ao fim e ouvir os sons das entranhas da terra, numa instalação sonora de Doug Aitken, as metáforas da destruição da Amazónia por Matthew Barney ou as magníficas fotografias de Claudia Andujar sobre o povo yanomamis. Quais são os destaques botânicos desta linha? Tatarés, paixiúbas ou costelas-de-adão, entre outras espécies.

Inhotim é uma combinação perfeita entre museu de arte contemporânea e jardim botânico, a 60 quilómetros de Belo Horizonte, no estado de Minas Gerais. Não é possível dizer que é apenas uma coisa ou outra.

Inhotim tem uma vocação muito interessante para a educação ambiental e preservação de diversidade genética de plantas, elementos essenciais que dialogam com os desafios transnacionais que vivemos na actualidade.



Lucas Mourão



O que se pode dizer de Inhotim é que é um gigante e diversificado jardim, com espécies raras de todos os continentes, e que é considerado o maior centro de arte contemporânea do mundo. Só há um problema: não há tempo para ver tudo num só dia só.




São 97 hectares entranhados entre a Mata Atlântica e o cerrado (uma savana rica em biodiversidade), numa explosiva exuberância botânica e artística.
Paulo Pimenta

“Inhotim é um espaço único no Brasil e no mundo onde arte e natureza se conectam de forma brilhante, permitindo a nós, mineiros, e turistas de todas as partes, vivenciar o turismo para além da admiração e contemplação: é um convite a experimentar cultura e meio ambiente através dos sentidos, seja em galerias e obras de arte contemporâneas interactivas ou em jardins sensoriais e temáticos”, diz Lucas Mourão, professor, guia turístico, apaixonado por Belo Horizonte e Minas Gerais.

Lucas Mourão, igualmente apaixonado pela botânica, consultor de plantas alimentícias, e visita frequente, afirma que “Inhotim tem uma vocação muito interessante para a educação ambiental e preservação de diversidade genética de plantas, elementos essenciais que dialogam com os desafios transnacionais que vivemos na actualidade”.

Esta é uma construção com algo de utópico, pensada por um empresário da mineração e da siderurgia. Aqueles 97 hectares, que equivalem, já agora, a 97 campos de futebol, estão entranhados entre a Mata Atlântica e o cerrado (uma savana rica em biodiversidade), numa explosiva exuberância botânica e artística.

Na década de 1980, o empresário Bernardo Paz começou a transformar uma grande propriedade sua, em Brumadinho, num grande espaço botânico, para acolher a colecção de arte particular. Inspirados por Burle Marx, o grande urbanista que trabalhou com Oscar Niemeyer no conjunto arquitectónico da Pampulha, em Belo Horizonte, Pedro Nehring e, mais tarde, Luiz Carlos Orsini, concebeu um jardim, com os seus lagos, jardins temáticos, e os edifícios que o pontuam; galerias de arte ou pequenos museus consoante a preferência.

Bernardo Paz teve problemas com a justiça. Foi condenado em primeira instância a mais de nove anos de prisão por branqueamento de dinheiro, mas acabou absolvido mais tarde. Neste momento, o empresário está a planear um novo museu a céu aberto, também em Brumadinho, centrado em temas de sustentabilidade.

Brumadinho foi alvo de uma tragédia, em 2019, quando o colapso de uma barragem libertou 12 milhões de litros de lama de minério, que tornaram a água do rio Paraopeba imprópria para consumo, pesca ou banho, durante centenas de quilómetros ao longo do seu curso. A barragem pertence à Vale S.A., uma das maiores empresas de mineração do mundo, e principal patrocinador de Inhotim.