O caso Guernica conheceu terça-feira novos desenvolvimentos com o ministro da Cultura espanhola, o catalão Ernest Urtasun, a negar taxativamente uma viagem da monumental pintura de Pablo Picasso até ao País Basco. “Fechou a porta”, escreve a imprensa espanhola, e tudo indica que este será um dos últimos capítulos desta querela em torno do desejo do Museu Guggenheim de Bilbau assinalar os 90 anos do bombardeamento de Gernika-Lumo (Guernica em português) que inspirou a obra de Picasso. “A celebração do 90.º aniversário do bombardeamento de Guernika deve garantir que [Guernica, a pintura] durará mais 90 anos”, justificou Urtasun no Senado espanhol.

Imanol Pradales, o lehendakari (chefe de Governo) do País Basco, pediu em Março ao Presidente do Governo espanhol, o socialista Pedro Sánchez, que autorize um empréstimo, por nove meses, da pintura ao Guggenheim de Bilbau, para uma exposição que irá decorrer entre Outubro de 2026 e Junho de 2027, e que assinala o bombardeamento da pequena cidade da província da Biscaia, a 26 de Abril de 1937, por aviões da Legião Condor, emprestada por Adolf Hitler para combater na Guerra Civil de Espanha (1936-1939) ao lado dos nacionalistas do general Francisco Franco. Nunca um pedido de empréstimo de Guernica foi aceite desde que se instalou no Rainha Sofia, em Madrid, depois de ter habitado o Museum of Modern Art (MoMA) de Nova Iorque desde 1939.

O pedido não foi logo recusado, como tem sido prática dos governos espanhóis. É que Pedro Sánchez é Presidente de um Governo minoritário, um socialista que depende do apoio do Partido Nacionalista Basco e da coligação EH Bildu (que tem laços históricos à ETA, a organização separatista e terrorista basca que se extinguiu em 2018). Por isso mesmo, Sánchez terá deixado o pedido em análise e delegado no seu ministro da Cultura e nos relatórios técnicos sobre o estado da tela a decisão sobre a saída ou não de Guernica para uma viagem dentro do país. O relatório do Museu Rainha Sofia desaconselha qualquer deslocação da pintura.


É assim que chegamos à sessão do Senado de terça-feira e é assim que as palavras do ministro Urtasun ganham particular força. “A Guernica de Pablo Picasso não é uma obra qualquer, [é] possivelmente um dos mais completos e frágeis objectos em conservação do século XX”, disse, “e dos mais difíceis de transportar”, apoiando-se com “total confiança” na posição técnica do museu nacional que a alberga.

Membros do grupo parlamentar do Partido Nacionalista Basco insistiram na importância simbólica deste empréstimo temporário, Ernest Urtasun disse compreender “a sensibilidade” do pedido. “Estamos a falar de uma obra vinculada à memória de Gernika e à dor que simboliza. A minha obrigação é garantir o acesso à cultura e também garantir o património. Em questões como esta há que ouvir os técnicos”, justificou. Reafirmando “uma política clara de coesão social através da cultura”, Urtasun aproveitou para atirar farpas à presidente da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, que esta semana qualificou o pedido basco como “provinciano”.

“Antes de qualificar esta petição como provinciana, como fez a presidente da Comunidade de Madrid, este ministério mostra lealdade institucional e empatia porque compreendemos que representa para Euskadi [País Basco, em basco] um pedido importante”, sublinhou o responsável da pasta da Cultura espanhola. A petição dos bascos teve já o apoio do governo regional catalão, que considerou que não só o pedido “faz sentido culturalmente, mas é também um dever democrático”.

O senador Igotz López, eleito precisamente por Biscaia e membro do Partido Nacional Basco, lamentou terça-feira o potencial desfecho deste caso. “Pedimos uma cedência temporal e excepcional”, frisou. E colocou em cima da mesa uma nova avaliação técnica. “Insistimos na criação de um grupo de trabalho técnico [conjunto] do Rainha Sofia, do Guggenheim e de especialistas internacionais que avaliem se é possível” pôr Guernica em viagem, disse. Acredita que “os avanços técnicos” poderiam tornar possível o empréstimo e que “a experiência do Guggenheim” devia ser tida em conta. “Só falta vontade política para esta análise.”

Antes do debate no Senado, a vice-chefe do governo basco e conselheira basca para a Cultura, Ibone Bengoetxea, tinha já dito que o que esperava era uma “resposta formal” por parte da equipa de Pedro Sánchez. “Os governos respondem uns aos outros”, disse sobre a tramitação esperada.