A menos de duas horas do fim de um prazo que, segundo Donald Trump, iria abrir caminho à “morte” de uma “civilização inteira” numa só noite, Washington e Teerão acordaram um cessar-fogo de duas semanas, que inclui a reabertura temporária do estreito de Ormuz, com o Presidente dos Estados Unidos a admitir que uma proposta iraniana de dez pontos, mediada pelo Paquistão, era “uma base viável de negociação”.

Do lado iraniano, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, afirmou que o Governo da República Islâmica vai ter em consideração o plano de 15 pontos apresentado pelos EUA tendo em vista o fim definitivo das hostilidades na região.

Através do gabinete do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, o executivo israelita declarou, por sua vez, o seu apoio à decisão de Trump de suspender os ataques contra o Irão durante duas semanas, mas esclareceu que, do ponto de vista de Israel, o cessar-fogo não inclui o Líbano.


O Presidente dos EUA declarou “um grande dia para a paz mundial” e anunciou uma “era dourada” para o Médio Oriente, e o guia supremo do Irão, Mojtaba Khamenei, declarou a “vitória” do seu país ao fim de cinco semanas de guerra.

Mas os detalhes das duas propostas em cima da mesa não são totalmente conhecidos, e, de acordo com o que foi sendo noticiado nas últimas semanas pela imprensa iraniana e internacional, os planos de Teerão e da Casa Branca são, em grande medida, incompatíveis.

Plano de dez pontos do Irão

Entre os dez pontos propostos pelo Governo do Irão para reabrir o estreito de Ormuz e parar de atacar alvos estratégicos dos EUA, de Israel e de vários outros países da região estão várias exigências que já tinham sido rejeitadas pela Casa Branca.

Segundo a imprensa estatal iraniana, a República Islâmica exige o controlo do estreito pelas autoridades iranianas; o levantamento de todas as sanções económicas ao país; o descongelamento dos seus activos financeiros; a retirada das Forças Armadas norte-americanas no Médio Oriente; e a aprovação de uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas que garanta que o acordo é vinculativo.

O plano não é claro sobre a posição do Irão em relação ao controlo do estreito de Ormuz. Araghchi garantiu a passagem segura de navios de carga através da via marítima, mas há notícias, citadas pelo Guardian, de que os Governos do Irão e de Omã querem que as embarcações lhes paguem uma taxa para poderem atravessar o estreito, e usar esses fundos para reconstruções pós-guerra.

O jornal britânico nota ainda que a versão da proposta iraniana, em farsi (idioma oficial do Irão e falado por mais de 110 milhões de pessoas), inclui a aceitação, por Washington, do direito do Estado iraniano de continuar a “enriquecer” urânio para o seu programa nuclear — que assegura ser para fins civis e não militares —, mas a versão em língua inglesa partilhada por diplomatas iranianos a jornalistas ocidentais omite essa parte.

Plano de 15 pontos dos EUA

A proposta de 15 pontos da Administração Trump para o fim da guerra, cujos detalhes foram partilhados com o New York Times e com o Washington Post por fontes diplomáticas norte-americanas, inclui, precisamente, uma imposição ao Irão para entregar todas as suas reservas de urânio enriquecido e renunciar ao seu programa nuclear.


A Casa Branca também exige a limitação do programa balístico do Irão, o fim do apoio do regime aos seus proxies na região (incluindo o Hezbollah no Líbano; o Hamas em Gaza; e os houthis no Iémen) e a reabertura do estreito de Ormuz.

Ainda na segunda-feira, e já depois de Trump ter dito várias vezes que Teerão estava a aceitar “quase todas” as exigências norte-americanas, as autoridades iranianas reiteraram a rejeição deste plano, descrevendo as propostas como “excessivas, irrealistas e pouco razoáveis”.

“Temos um acordo de 15 pontos, dos quais a maioria já foi aceite. Vamos ver o que acontece, vamos ver se se concretiza”, disse o Presidente dos Estados Unidos à Agência France-Presse nesta quarta-feira.

Próximos passos

Com Israel a manter os ataques no Sul do Líbano e a acusar o Irão de continuar a bombardear o seu território nesta quarta-feira — perante o risco de novos ataques iranianos, as defesas aéreas de países como a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein e o Kuwait também foram activadas —, o pontapé de saída a nova fase das negociações está marcado para sexta-feira.

Shehbaz Sharif, primeiro-ministro do Paquistão, que mediou um cessar-fogo que terá contado com a pressão da China sobre o seu aliado iraniano, revelou na rede social X que convidou delegações dos EUA e do Irão a reunirem-se nesse dia em Islamabad para acordar os termos de um fim definitivo das hostilidades.

Sharif também disse que o acordo de cessar-fogo de duas semanas é para ser aplicado “em todo o lado, incluindo no Líbano”.