Uma traficante de droga apelidada de “Rainha da Cetamina” foi condenada na quarta-feira a 15 anos de prisão por estar ligada à morte da estrela de Friends, Matthew Perry, em 2023, incluindo o seu papel no fornecimento da dose do potente anestésico que matou o actor. Jasveen Sangha, que admitiu gerir um “esconderijo” de narcóticos ilegais na sua casa no bairro de North Hollywood, em Los Angeles, declarou-se culpada em Setembro de cinco acusações de crimes relacionados com drogas decorrentes da morte de Perry aos 54 anos.

Sangha, vestida com o uniforme prisional bege para a audiência no tribunal federal de Los Angeles, expressou remorso pelo seu papel na morte de Perry numa declaração que proferiu antes de ser condenada. “Assumo total responsabilidade pelas minhas acções. Foram escolhas horríveis que, em última análise, se revelaram trágicas”, declarou Sangha, de 42 anos, à juíza federal Sherilyn Garnett.

A juíza condenou-a a uma pena de 15 anos, o tempo recomendado pelos procuradores federais. A cidadã com dupla nacionalidade americana e britânica enfrentava uma possível pena de até 65 anos. A sentença de Sangha foi mais severa do que as aplicadas aos dois médicos já condenados neste caso. Há ainda dois co-arguidos — outro traficante de drogas e o antigo assistente pessoal de Perry — que ainda não foram julgados.


A defesa tinha instado Garnett a limitar a pena de Sangha ao tempo já cumprido desde a sua detenção em 2024, cerca de um ano e oito meses.

Rejeitado argumento de clemência

O advogado de Sangha argumentou que ela sofria de problemas de abuso de substâncias, mas que se mantinha sóbria desde a sua detenção e demonstrava vontade de melhorar a sua vida e a vida dos outros, incluindo a organização e liderança de reuniões semanais dos Narcóticos Anónimos.




Mark Geragos, advogado de defesa de Jasveen Sangha, ladeado por elementos da sua equipa, à saída do tribunal
TED SOQUI/Reuters

A juíza afirmou ter tido em conta o facto de Sangha ter continuado a vender drogas ilegais durante seis meses após a morte de Perry, demonstrando falta de remorso na altura.

Perry foi encontrado pelo seu assistente pessoal, que vivia com ele, a flutuar de bruços e sem vida numa banheira de hidromassagem na sua casa em Los Angeles, a 28 de Outubro de 2023.

O relatório da autópsia concluiu que Perry morreu devido aos “efeitos agudos da cetamina”, que, combinados com outros factores, levaram-no a perder a consciência e a afogar-se. A cetamina, um anestésico de acção curta mas potente com propriedades alucinogénias, é por vezes prescrita para tratar a depressão e outras perturbações psicológicas, mas ganhou popularidade como droga ilícita.

Décadas de abuso de substâncias

Perry tinha reconhecido décadas de abuso de substâncias que coincidiram com o auge da sua fama ao interpretar o sarcástico mas charmoso Chandler Bing na série de comédia de sucesso da NBC dos anos 1990, Friends.

A sua morte ocorreu um ano após a publicação das memórias de Perry, Friends, Lovers, and the Big Terrible Thing, que narravam episódios de dependência de analgésicos prescritos e álcool que estiveram prestes a acabar com a sua vida mais de uma vez.

Nos meses que antecederam a sua morte, Perry tinha afirmado ter recuperado a sobriedade. Mas, de acordo com autoridades federais, Perry tinha estado a receber infusões de cetamina sob supervisão médica para tratar a depressão e a ansiedade numa clínica onde se tornou dependente da substância.


Quando os médicos dessa clínica se recusaram a aumentar a sua dosagem, segundo as autoridades, Perry recorreu a fornecedores ilegais dispostos a explorar o seu vício para seu próprio benefício financeiro.

Em poucas semanas, morreu de uma overdose de cetamina fornecida por Sangha, conhecida pelos seus clientes como a “Rainha da Cetamina”. Sangha reconheceu ter vendido 51 frascos de cetamina a um traficante intermediário, Erik Fleming, que depois vendeu as doses a Perry através do assistente pessoal do actor, Kenneth Iwamasa.

Os procuradores afirmaram que Iwamasa injectou posteriormente em Perry pelo menos três doses de cetamina provenientes desses frascos, o que resultou na sua morte. Como parte do seu acordo com os procuradores, Sangha declarou-se culpada de uma acusação de manter um local envolvido no tráfico de drogas, além de três acusações de distribuição ilegal de cetamina e uma acusação de distribuição de cetamina que resultou em morte.

Sangha admitiu que sabia que os frascos que vendeu a Fleming se destinavam a Perry. Também admitiu ter vendido cetamina a uma pessoa em 2019 que morreu horas depois de uma overdose.

Antes da sentença, o padrasto de Perry, o jornalista Keith Morrison, recordou como o actor trazia alegria à sua família, escreveu um livro best-seller e uma peça de teatro, apesar de estar a lutar contra a dependência. “Todas essas possibilidades morreram com ele. Ele deveria ter tido mais um acto, mais dois actos”, afirmou Morrison.




Keith Morrison e Suzanne Perry Morrison, o padrasto e a mãe do actor, à chegada ao tribunal
TED SOQUI/Reuters

Fleming, Iwamasa e os médicos Mark Chavez e Salvador Plasencia confessaram a culpa por crimes relacionados com drogas. Plasencia foi condenado a dois anos e meio de prisão. Chavez recebeu oito meses de prisão domiciliária.

O advogado de defesa de Sangha, Mark Geragos, contestou a disparidade entre as acusações e as sentenças proferidas até ao momento. “Não há como Jasveen ser cinco vezes mais culpada do que a pessoa que injectou a droga em Matthew Perry, ou do que o médico que obteve a droga”, contestou Geragos junto dos jornalistas após a audiência. Iwamasa ainda não foi julgado. A pena máxima a que se expõe pela única acusação de que se declarou culpado é de 15 anos.