
O envelhecimento dos baby boomers está a levar à libertação de muitas propriedades através das heranças, o que pode levar a que muitos jovens não precisem de comprar casa, especialmente por terem menos irmãos.
Pergunte a muitos millennials – a geração que se encontra atualmente entre o final dos 20 e o início dos 40 anos – sobre a possibilidade de comprar uma casa e provavelmente eles vão rir-se da sua cara. A ideia de obter um crédito à habitação apenas com o seu próprio rendimento é muitas vezes impensável, e aqueles que possuem um imóvel devem-no geralmente a uma herança recebida precocemente.
Enquanto a crise imobiliária assola a Europa, muitos membros da Geração Z – os que nasceram após o ano 2000 – poderão em breve descobrir que a situação se inverteu. Analisando as tendências de financiamento imobiliário e outros dados, o professor de Economia Geoffrey Ditta prevê uma mudança gradual, com esta geração a abandonar os compromissos de longo prazo com o financiamento.
As heranças desempenharão um papel fundamental nesta mudança. O crescimento populacional mais lento, as famílias mais pequenas e a concentração da propriedade imobiliária na geração dos Baby Boomers (nascidos entre 1946 e 1964), que está a envelhecer, significam que as taxas de herança têm aumentado ano após ano.
Por conseguinte, a Geração Z tende a beneficiar da queda da taxa de natalidade da Europa, uma das mais baixas do mundo, com 1,53 filhos por mulher. Em termos simples, haverá menos jovens para herdar casas e mais casas para eles herdarem.
Crédito: uma perspetiva cada vez menos atrativa
Obter um crédito é assustador mesmo nas melhores circunstâncias, uma vez que os bancos exigem poupanças, rendimentos, emprego estável e uma entrada considerável. Se cumprir estes critérios, estará, em média, comprometido durante 25 anos.
Num mercado de trabalho caracterizado por empregos temporários e salários baixos e estagnados, muitas pessoas terão dificuldades em sequer assinar um crédito, quanto mais para o liquidar. A perspetiva de obter um é especialmente pouco atrativa numa altura em que o aumento das taxas de juro está a aumentar o custo de vida na Europa e noutros países. Este cenário já está a afetar a atitude da Geração Z em relação a marcos de longo prazo, como a compra de uma casa.
O facto de estarem a ser contraídos menos créditos em todo o continente, portanto, não é surpreendente, especialmente tendo em conta o aumento acentuado das taxas de juro e a escalada dos preços dos imóveis. Esta queda parece destinada a continuar no longo prazo, por uma série de razões.
A propriedade de imóveis na Europa hoje
Na União Europeia, a idade média em que as pessoas adquirem o seu primeiro imóvel é de 34 anos. A duração média de um financiamento imobiliário é de 25 anos, o que significa que os pagamentos são geralmente concluídos aos 59 anos, pouco antes da idade da reforma (65 anos na maioria dos Estados-membros da UE).
Em 2022, 69,1% dos europeus possuíam casa própria, mas apenas 24,7% tinham financiamento imobiliário. Esta percentagem varia bastante em todo o continente, existindo pouca correlação entre as taxas de propriedade e o número de financiamentos imobiliários ativos.
Em alguns países do norte da Europa, o número de financiamentos imobiliários está, na realidade, a aumentar. Nos Países Baixos, por exemplo, 61% dos proprietários de imóveis têm um crédito habitação.
Em contrapartida, esta percentagem é muito mais baixa em países como a Itália, onde apenas 14,6% dos proprietários de imóveis têm um crédito à habitação. Esta disparidade pode ser atribuída à utilização mais comum de recursos líquidos ou a tradições mais fortes e antigas de herança de imóveis em determinados países.
Espanha: um exemplo a seguir
Podemos tomar a Espanha como exemplo das mudanças que já estão em curso. O país apresenta uma esperança de vida e taxas de propriedade de imóveis acima da média (especialmente entre as gerações mais velhas): o espanhol médio compra o seu primeiro imóvel aos 41 anos e recebe uma herança aos 51.
O número de heranças, no entanto, está a atingir novos patamares ano após ano. De 2021 a 2022, o número de imóveis herdados em Espanha aumentou 3,7%, com mais de 17 800 imóveis herdados por mês dentro das suas fronteiras.
Com um intervalo médio de apenas 10 anos entre a assinatura de um crédito habitação e o recebimento de uma herança, o espanhol médio pode ver poucos benefícios em ligar-se a um empréstimo variável e potencialmente volátil a 25 anos.
Deixar a casa da família
O aumento contínuo de heranças de imóveis não mostra sinais de abrandamento e é suficientemente grande para diminuir potencialmente a procura de financiamento imobiliário a longo prazo. No entanto, o valor das heranças varia muito entre os diferentes países e distribuições de riqueza, sendo difícil fazer previsões para toda a Europa.
Existe também uma enorme variação em fatores como a idade em que os jovens saem de casa. O sul da Europa apresenta, em geral, taxas mais elevadas neste aspeto, permanecendo os adultos normalmente com os pais até aos 30,3 anos em Espanha, 30,7 na Grécia e 30 em Itália.
Na Finlândia, por outro lado, as pessoas saem normalmente de casa aos 21,4 anos, com números semelhantes e baixos em toda a Escandinávia. Em França, os adultos saem de casa aos 23,4 anos e na Alemanha aos 23,8. De acordo com os dados do Eurostat, muitas destas médias de idades apresentaram aumentos a longo prazo entre 2012 e 2022.
Contudo, uma maior independência dos jovens não se correlaciona diretamente com um maior número de créditos à habitação. A impressionante queda de 62,54% nos novos contratos de crédito à habitação em Espanha, entre 2007 e 2023, reflete-se em dados de toda a Europa. De 2022 a 2023, a Bélgica registou uma quebra de 33,8%, e entre 2021 e 2022 a França apresentou uma quebra de aproximadamente 47,49%.
Os dados anuais do Banco Central Europeu, divulgados em novembro de 2023, mostram também quebras anuais de 61% na Eslováquia, 57% na Áustria, 40% no Luxemburgo e 23% na Estónia. Em toda a Europa, o número de novos empréstimos imobiliários caiu 32% no ano passado.
Impactos na Geração Z
Embora enfrentem muitos outros problemas, como a obtenção de contratos de trabalho estáveis, a habitação pode não ser a principal preocupação para grande parte da Geração Z no futuro.
O envelhecimento da geração baby boomer significa que grandes quantidades de propriedades já estão a ser transmitidas entre as famílias mais ricas: já em 2015, as heranças correspondiam, em média, a 196 247 dólares por pessoa nos 20% mais ricos dos países da OCDE. Este valor já tinha aumentado 50% em menos de uma década.
Isto beneficiará os Millennials até certo ponto, mas, com menos irmãos, muitos membros mais ricos da Geração Z podem não precisar de dividir as heranças dos pais, que geralmente possuem várias propriedades. Esta perspetiva, aliada às condições de acesso a um crédito à habitação num mercado de trabalho desfavorável, levanta uma questão simples para grande parte da Geração Z: porquê assumir o risco, o compromisso a longo prazo e o custo extra de um crédito à habitação se não preciso dele?