“A partir daí, a relação começou”, revelou muitos meses mais tarde ao psicólogo americano Jeffrey Singer, um dos entrevistados de “Os Ficheiros do Caso Carlos Castro” e um dos peritos ouvidos durante o julgamento de 2012 no Supremo Tribunal de Manhattan. “Eu sabia que ele era gay. Era a minha oportunidade para alcançar coisas melhores no mundo da moda. Sou um homem feito de vinte anos, tomei uma decisão. Continuámos. Trocámos contactos. E ele convidou-me para ir a Lisboa, à casa dele, uma ou duas semanas depois”.

Apesar de não terem estado juntos durante três meses completos sequer, Carlos Castro e Renato Seabra fizeram três viagens. A primeira a Londres, nos últimos dias de outubro de 2010. A segunda a Madrid, no primeiro fim de semana de dezembro. E a última a Nova Iorque, a seguir ao Natal.

Inicialmente, o plano era passarem onze dias na cidade, mas uma tempestade de neve no destino, que por duas vezes obrigou a adiar a partida de Lisboa, levou Carlos Castro a alterar a data de regresso — e a aumentar para 18 os dias nos Estados Unidos. Ao décimo dia de férias, o cronista social foi assassinado.

O caso foi um escândalo instantâneo. “Todos os dias há crime em Nova Iorque, todos os dias há mortes em Nova Iorque, mas não acontecem numa área restrita como Times Square, que é uma área segura, que é uma área onde tudo acontece, mas nada dessa magnitude acontece”, explica o jornalista Ricky Durães, na altura um dos primeiros repórteres a fazer a cobertura da notícia, para o Luso-Americano, o principal jornal da comunidade portuguesa no país.

Os tablóides americanos assumiram desde as primeiras horas que o morto — Carlos Castro — e o presumível assassino — Renato Seabra — mantinham uma relação. E descreveram imediatamente o cronista social como um “sugar daddy”, expressão que serve para identificar um homem mais velho, com dinheiro e poder, que mantém uma relação com um parceiro substancialmente mais novo — e paga todas as despesas dessa mesma relação.

Quando a notícia da morte violenta de Carlos Castro foi conhecida em Portugal, a família de Renato Seabra recusou-se terminantemente a aceitar que ele pudesse ter tido alguma coisa a ver com o caso.

Em choque, a mãe e a irmã do jovem de Cantanhede deram entrevistas em que garantiram repetidamenten que Renato não era namorado de Carlos Castro e aquela não era uma viagem de férias. “Ele tinha ido a Nova Iorque com o senhor Carlos Castro, por trabalho. O senhor Carlos Castro estava a ajudá-lo neste mundo da moda. Ia ser apresentado a algumas agências e era isso que estava a passar-se”, explicou Joana Seabra às televisões um dia depois do crime, já a mãe ia a caminho dos Estados Unidos, para estar com o irmão, seis anos mais novo.

De facto, foi essa a versão que manteve sempre à família e aos amigos, viria a revelar o próprio Renato Seabra e confirmou a polícia de Nova Iorque através do registo de várias conversas dele via Facebook. Se viajou para Londres, para Madrid e, depois, para Nova Iorque na companhia do cronista social, contou Renato a inúmeras pessoas, foi apenas para estabelecer contactos com agências e para participar em desfiles.