A polémica já leva três semanas e para a historiadora de arte Genoveva Tusell devia ter sido logo cortada pela raiz: a pintura Guernica, de Pablo Picasso, não pode viajar. E se o Governo espanhol tivesse sido mais taxativo na recusa ao pedido basco e do Museu Guggenheim de Bilbau para um empréstimo para assinalar os 90 anos do bombardeamento de Guernika-Lumo, a mensagem de que a obra monumental não pode nunca mais ser requisitada teria passado e demoveria novas solicitações. Ouvida pelo diário El País, Tusell diz mesmo que lhe “prescreveria repouso absoluto”.
Numa entrevista publicada este domingo pelo jornal espanhol, Genoveva Tusell diz que ver a porta sequer entreaberta para a saída de Guernica lhe parece “uma loucura”. A historiadora de arte é filha do principal negociador que levou à sua devolução a Espanha por parte do Museum of Modern Art (MoMA) de Nova Iorque e autora de El Guernica recobrado. Picasso, el franquismo y la llegada de la obra a España (Ediciones Cátedra, 2017), obra definitiva sobre a história desta pintura de Picasso.
Ela é uma dos muitos especialistas que, diz, ficaram preocupados quando começou o debate recente. Em parte porque o procedimento normal é que se façam estes pedidos de empréstimo com larga antecedência e entre museus, para que depois os conservadores os avaliem. Neste caso, foi um pedido entre governos e não foi gerido devidamente, assegura. E, de qualquer forma, há décadas que a pintura não sai do passeio dos museus madrileno.
“Sofrimento e degradação”
A pintura está em Madrid, no Museu Rainha Sofia, desde 1992. Picasso depositou-a no MoMA até que a democracia voltasse a Espanha e, mesmo assim, autorizou a sua saída de Nova Iorque algumas vezes, embrulhada ou enrolada de várias formas e degradando-se a cada uma dessas viagens.
Quando o Guggenheim de Bilbau fez o pedido (já existiram vários desde a sua chegada a Madrid, em 1981, e depois ao Museu Rainha Sofia, em 1992), a resposta do Governo central não foi imediata, ao contrário de outras ocasiões. “Penso que a resposta [do Governo] deveria ter sido mais rápida e decisiva. Passaram-se vários dias de silêncio até que o ministro da Cultura finalmente se pronunciasse. Havia inquietação entre os historiadores de arte e muitas outras pessoas preocupadas com esta questão”, diz Genoveva Tusell.
As leituras para tal delonga foram políticas e personalizadas em Pedro Sánchez: a aliança do primeiro-ministro para governar com partidos bascos assim o teria obrigado. Mas na semana passada o seu ministro da Cultura, o catalão Ernest Urtasun, pôs de parte, no Senado, a saída de Guernica para parte alguma. “Felizmente, o ministro falou e espero que este capítulo esteja agora definitivamente encerrado”, afirma a historiadora de arte.
Entretanto, os argumentos de “reparação simbólica” por o propósito do empréstimo ser assinalar a data do bombardeamento à localidade basca que inspirou a obra sobrepuseram-se na imprensa espanhola aos considerandos técnicos dos peritos do Rainha Sofia, que invocavam que a obra é demasiado frágil para viajar. Tusell minora a questão simbólica dada a capacidade de Pablo Picasso retratar os horrores da guerra sem identificar evidentemente a localidade basca onde mais de 1500 pessoas, na sua maioria mulheres e crianças, morreram após um bombardeamento aéreo. Ressalva porém que o pedido é “legítimo”.
Quanto ao relatório, publicado a 25 de Março, dos peritos do Rainha Sofia, Tusell detalha que “se estima que a estrutura [moldura e suportes] tenha sido enrolada e desenrolada aproximadamente 80 vezes durante as suas várias viagens. Lembre-se que é enrolada num tubo e, de cada vez, precisa de ser pregada e despregada à estrutura, causando o respectivo sofrimento e deterioração”.
E resume, com grande detalhe, o que recomenda para manter a saúde de Guernica e como é complexa qualquer mudança para a tela.
“Eu recomendaria repouso absoluto. O perigo reside no movimento.” E detalha que os seus cerca de 7,8 metros de comprimento por 3,5 metros de altura “tornam qualquer mudança extremamente difícil, mesmo dentro do próprio museu”. A última vez em que se mexeu em Guernica foi em 1992, quando foi transferida do Casón del Buen Retiro para o Museu Rainha Sofia, separados por menos de um quilómetro. Mas para tal “foi necessário construir uma estrutura especial com quase quatro metros de altura para a transportar e evitar ter de a voltar a enrolar. Esta estrutura foi içada por uma grua, e uma parede teve de ser demolida para a remover e colocar num camião com chassis rebaixado e suspensão pneumática completa. O trânsito esteve interrompido em toda a zona, tendo sido removidos semáforos e outros possíveis obstáculos. Se isto foi feito para uma mudança de um quilómetro, o que seria necessário para a transportar até Bilbau?”, alerta a historiadora de arte.