Yuri Gripas / EPA

O secretário-geral da NATO Mark Rutte e o presidente dos EUA Donald Trump, na Sala Oval da Casa Branca

Desde a popularidade da NATO entre os americanos à necessidade de aliados num eventual conflito com a China, há várias razões que tornam uma possível saída dos Estados Unidos uma decisão arriscada por parte de Trump.

O presidente Donald Trump reuniu-se com o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, no dia 8 de abril, para o que Rutte descreveu como uma conversa “muito franca e muito aberta”. Segundo os relatos, os dois discutiram a guerra EUA-Israel contra o Irão, na qual, de acordo com a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, Trump acredita que a NATO foi “testada e falhou”.

Mais tarde, o presidente publicou na sua plataforma Truth Social que “A NATO NÃO ESTAVA LÁ QUANDO PRECISAMOS DELA, E NÃO ESTARÁ LÁ SE PRECISARMOS DELA NOVAMENTE”.

O encontro do presidente norte-americano com Rutte ocorreu uma semana depois de este ter declarado à agência noticiosa Reuters que estava “absolutamente” a considerar a retirada dos EUA da NATO, depois de os aliados norte-americanos se terem recusado a participar na campanha EUA-Israel contra o Irão. Mas isso é muito improvável por três razões.

Primeiro, em 2023, o Congresso promulgou uma lei que proíbe o presidente de “suspender, rescindir, denunciar ou retirar os Estados Unidos do Tratado do Atlântico Norte” — que estabeleceu a Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO) — sem o parecer favorável do Senado ou uma lei do Congresso. É extremamente improvável que isto seja alterado antes das eleições intercalares em Novembro e impossível mais tarde, caso os Democratas acabem por controlar a Câmara dos Representantes.

A segunda razão é que a participação na NATO é popular entre os americanos. Uma sondagem do Pew Research Center realizada em 2025 mostrou que 66% dos inquiridos nos EUA acreditavam que os Estados Unidos beneficiavam da participação na NATO, enquanto 32% pensavam o contrário. Embora, como em muitas coisas, os EUA estejam divididos — com mais eleitores democratas (77%) a apoiar a participação na NATO do que republicanos (45%) —, é evidente que, no geral, os americanos aprovam a participação na NATO.

A terceira razão é que a saída da NATO enfraqueceria significativamente as forças armadas dos EUA. Mais de meio século de investigação realizada por historiadores e especialistas em relações internacionais concluiu que a saída da NATO também enfraqueceria significativamente os Estados Unidos.

Em 1989, o estudo detalhado do historiador Paul Kennedy sobre as guerras ao longo de um período de 500 anos, “Ascensão e Queda das Grandes Potências”, constatou que uma característica decisiva para o sucesso numa guerra são os recursos que as partes envolvidas no conflito conseguem mobilizar. Kennedy cita os exemplos das duas guerras mundiais e demonstra que uma das principais razões para a derrota da Alemanha foi a capacidade dos Aliados em mobilizar muito mais recursos em termos de mão-de-obra, produção de armamento e ativos económicos do que a Alemanha e os seus aliados. Tal revelou-se decisivo em ambos os conflitos.

As pesquisas sobre a quantificação da capacidade militar das nações têm vindo a ser realizadas há mais de meio século no âmbito do projecto “Correlatos da Guerra”, fundado em 1963 pelo politólogo norte-americano J. David Singer. O projeto visa recolher sistematicamente dados sobre as causas e consequências das guerras.

Um dos conjuntos de dados recolhidos no projeto é o Índice Composto de Capacidade Nacional. Este índice combina dados sobre as capacidades demográficas, industriais, económicas e militares das nações, incluindo os EUA e a China. Quanto maior for a pontuação do índice, mais recursos um país possui para travar guerras.

O gráfico mostra a magnitude do índice para os principais países na base de dados. A China é a nação mais poderosa no gráfico, com uma pontuação de 23 no índice. Os EUA surgem num distante segundo lugar, com uma pontuação de 13.

Além dos EUA, há cinco nações da NATO no gráfico: Alemanha, Turquia, Reino Unido, França e Itália. A pontuação total de todos os seis membros da NATO é de 20 – muito mais próxima da pontuação total da China.

O gráfico não inclui as pontuações dos restantes membros da NATO, mas quando adicionadas ao total, a pontuação da NATO está muito acima da pontuação da China. Portanto, a suposição de que os EUA podem travar uma guerra sozinhos contra a China é duvidosa.

Como funciona o artigo 5.º

O artigo 5.º da Carta da NATO estipula que um ataque armado contra um Estado-Membro é considerado um ataque contra todos, desencadeando a defesa coletiva por parte de todos os Estados-Membros. Um relatório recente do Colégio de Guerra Naval dos EUA concluiu que: “Um conjunto alargado e crescente de provas sugere que o Exército de Libertação Popular (ELP) está a preparar capacidades credíveis para invadir Taiwan”. O relatório defende que a China utilizará uma extensa estratégia de engano para confundir os seus adversários quando a guerra for iniciada, com uma acção rápida das suas forças armadas para criar um facto consumado. Observa-se que este tipo de ataque relâmpago costuma ser bem-sucedido.

Caso isto ocorra, e considerando que os EUA têm conselheiros militares em Taiwan e recursos militares na região que necessitariam de ser neutralizados na primeira fase da guerra, se a invasão for bem-sucedida, isto desencadearia o artigo 5.º da Carta da NATO. Neste caso, a China ver-se-ia em guerra com 32 países da NATO – para não falar dos países do Extremo Oriente, como o Japão, a Indonésia e o Vietname, que têm sérias preocupações com a agressão chinesa, mas não são membros da aliança.

Portanto, independentemente da ambivalência do Presidente dos EUA em relação à NATO, o facto é que, sem o seu apoio, os EUA poderiam enfrentar uma derrota humilhante com a China num futuro confronto sobre Taiwan. Os Estados Unidos são muito mais fortes como parte da NATO – e os conselheiros de Trump deveriam reforçar esta mensagem com veemência.


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