O Presidente dos EUA, Donald Trump, criticou veementemente o Papa Leão XIV na noite deste domingo, num ataque invulgar e directo ao líder da Igreja Católica, que conta com 1,4 mil milhões de fiéis, o que suscitou uma reacção imediata por parte dos crentes. O Presidente, numa aparente resposta às crescentes críticas do Papa à guerra dos EUA e de Israel contra o Irão e às duras políticas de imigração da Administração Trump, afirmou que Leão era “péssimo”.

“O Papa Leão é fraco em matéria de criminalidade e péssimo em política externa”, escreveu Trump numa publicação no Truth Social.

Os católicos nas redes sociais criticaram rapidamente Trump por atacar o líder da sua Igreja, que consideram ser o sucessor de São Pedro, um dos 12 apóstolos de Jesus.

“Não há ambiguidade quanto à situação actual”, disse Massimo Faggioli, especialista em assuntos do Vaticano, à Reuters, comparando os comentários deste domingo aos esforços dos líderes da Alemanha e da Itália durante a Segunda Guerra Mundial para atrair o falecido Papa Pio XII a apoiar as suas causas. “Nem mesmo Hitler ou Mussolini atacaram o Papa de forma tão directa e pública”, lembrou Faggioli.

O arcebispo Paul S. Coakley, presidente da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, disse estar desanimado com os comentários de Trump. “O Papa Leão não é seu rival; nem o Papa é um político. Ele é o vigário de Cristo, que fala a partir da verdade do evangelho e em prol do cuidado das almas”, afirmou num comunicado.

Leão XIV contra a “loucura da guerra”

Leão XIV, natural de Chicago, é o primeiro Papa norte-americano e é conhecido por escolher cuidadosamente as suas palavras. Mas, nas últimas semanas, tem-se revelado um crítico vocal da guerra no Irão e condenou a “loucura da guerra” num apelo à paz no sábado.

No ano passado, questionou se as políticas de imigração de linha dura da administração Trump estavam em consonância com os ensinamentos pró-vida da Igreja.

“Alguém que diz: ‘Sou contra o aborto, mas concordo com o tratamento desumano dos imigrantes nos Estados Unidos’, não sei se é pró-vida”, afirmou o pontífice em Setembro.

Trump escreveu numa publicação de domingo que “Leão devia comportar-se como Papa”, tendo posteriormente dito aos jornalistas que “não era grande fã” do pontífice.

O ataque de Trump contra Leão também o acusou de ser “fraco em relação às armas nucleares”, vários dias depois de o Papa ter afirmado que a ameaça do Presidente dos EUA de destruir a civilização iraniana era “verdadeiramente inaceitável”. Na homilia de domingo de Ramos, há duas semanas, na Praça de São Pedro, no Vaticano, o Papa afirmou que Deus rejeita as orações de líderes que iniciam guerras e têm as “mãos cheias de sangue”, classificando o conflito no Irão como “atroz”. Leão também apelou a Trump para que encontrasse uma “saída” para pôr fim ao conflito e “diminuir a violência”.

Na sua publicação, Trump sugeriu que Leão XIV só foi eleito para liderar a Igreja Católica no ano passado “porque era norte-americano, e eles acharam que essa seria a melhor maneira de lidar com o Presidente Donald J. Trump”.

O Vaticano não respondeu imediatamente a um pedido de comentário. O Papa, que começou nesta segunda-feira uma viagem de dez dias por quatro países africanos, tem apelado a uma “reflexão profunda” sobre a forma como os migrantes estão a ser tratados nos EUA.

O apelo do Papa a uma abordagem mais compassiva em relação à imigração — um sentimento expresso por vários dos seus antecessores — contrasta com a posição de Trump, que tem defendido que os EUA devem restringir a imigração proveniente de países em desenvolvimento para reduzir a criminalidade.

“Ele é uma pessoa muito liberal e é um homem que não acredita em combater o crime”, disse Trump aos jornalistas no domingo à noite.

Trump também teve uma relação conturbada com o antecessor de Leão XIV, o Papa Francisco, que criticou as propostas de política de imigração de Trump quando este se candidatou pela primeira vez à presidência e sugeriu que Trump “não era cristão”. O actual Presidente respondeu, em 2016, avaliando Francisco como “uma vergonha”.