À entrada um grande mural de Vihls a retratar Cosme Damião, figura mítica encarnada. O fundador está ainda presente num dos corredores do hotel: exposto está o bilhete de identidade do antigo jogador do clube, num nicho ao lado de uma camisola assinada por outra lenda do Benfica, Eusébio. Estes são os dois únicos nichos que devem permanecer inalterados — há mais 57 espalhados pelos corredores do hotel que homenageiam outros nomes importantes para a história do clube. A ideia de transformar as paredes do hotel numa espécie de galeria (apesar do sócio do grupo FLH destacar que este “não é um museu”), transporta-se para as escadas de serviço, onde estão expostas fotografias dos trabalhadores pelas lentes do engenheiro Gonçalo Barros. Foram mais de 400 pessoas a trabalharem durante 18 meses para transformar o edifício, composto por três prédios de estilo pombalino do século XIX. Da construção original foram preservadas as escadarias e algumas madeiras, além das duas esculturas de Leopoldo Almeida, que enfeitam o salão onde está o novo Café de São Bento. As peças datam da altura em que o prédio foi sede do Bristol Club, entre 1919 e 1929, um ponto de encontro para a elite lisboeta, e que ao seu tempo abrigou murais de Almada Negreiros, agora abrigados no Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian. Do outro lado das escadas está o bar, com paredes tomadas por fotografias que contam a história do Benfica, com curadoria do museu do clube.

No andar de cima o antigo salão de baile do Bristol, com um pé direito alto e que ocupa um andar e meio do prédio — uma arquitetura vanguardista para a época, especialmente num edifício com as cruzes de Santo André, um elemento estrutural das gaiolas pombalinas — é agora a Sala Eusébio, e pode ser usada para convívios, reuniões ou para o conforto dos hóspedes, sem faltar, é claro, uma televisão oculta num dos painéis de madeira. No teto, um candeeiro vermelho chama a atenção. É uma criação de Maria Tavares de Almeida, mulher de um dos sócios do grupo hoteleiro. O encarnado ainda está nos azulejos das casas de banho,  mas os 56 quartos adotam um estilo mais minimalista, e com peças portuguesas. Dos móveis aos têxteis, passando pelas amenities Oliófora, a ideia foi privilegiar o mercado nacional.

A descer até a Rua do Ouro, o edifício do antigo BCP na Baixa também mantém a fachada pombalina, mas ganhou ares de alto luxo. O Mythic Sana Downtown Suites, que abriu portas em dezembro, inaugura um novo conceito no grupo com mordomos certificados disponíveis 24 horas por dia. “Temos uma marca registada, são Golden Sleeve Floor Butlers, os primeiros butlers certificados pelo Turismo de Portugal e um conceito único aqui em Portugal, em que cada piso tem um serviço de butlers para apoiar os hóspedes durante toda a estadia”, explica ao Observador a diretora do hotel, Marie-Hélène Moreira. É, aliás, um dos mordomos que nos leva a uma visita pelos corredores que dão acesso às 40 suítes e oito quartos premium. Atualmente são cinco os butlers certificados através de um curso lançado pela Escola de Turismo do Algarve, mas mais profissionais do hotel devem passar pela formação nos próximos meses. O serviço inclui um formulário enviado previamente para ajudar a entender as necessidades de cada hóspede, com detalhes como a forma como os clientes costumam organizar as roupas em casa, para que os mordomos possam desfazer as malas de acordo com gostos específicos. “Todos os clientes que nós temos recebido estão espantados pela qualidade do serviço e o detalhe que nós fornecemos. Temos experiências básicas do serviço de mordomo, como abrir e fechar as malas, mas igualmente temos experiências dentro dos quartos, como o ritual de banho de banheira, e todos ficam surpreendidos de encontrar isso em Lisboa. E são clientes que estão habituados a este tipo de conforto”, diz a diretora do hotel.