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Valor guardado em ouro no Fed será equivalente a 4% do PIB dos EUA. “Dada a atual situação geopolítica, parece arriscado manter tanto ouro nos Estados Unidos” — mas nem todos pensam o mesmo.

A 25 metros abaixo do solo, na Liberty Street, em Nova Iorque, a Reserva Federal dos Estados Unidos (Fed) guarda mais de meio milhão de barras de ouro de bancos centrais, governos e instituições de todo o mundo.

A câmara-forte é protegida por um cilindro de aço de 90 toneladas e, uma vez fechada, a sua gigantesca fechadura só pode ser aberta no dia seguinte. É o Cofre de Ouro da Fed, o maior depósito de ouro conhecido do mundo, que alberga cerca de 6,3 mil toneladas em pilhas de barras cujo valor, aos preços atuais é de  aproximadamente 4% do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos.

O cofre desempenha um papel crítico na estabilidade do sistema financeiro global, uma vez que muitos países mantêm ali as suas reservas de ouro — o ativo de refúgio por excelência, usado para respaldar as suas moedas e enfrentar contingências em cenários de crise.

O ouro foi sempre visto como um porto seguro em momentos de turbulência financeira, volatilidade geopolítica e perda de valor causada pela inflação. Por isso, o metal precioso representa uma parte significativa das reservas dos bancos centrais em todo o mundo, especialmente na Europa.

“É um dos seus ativos mais importantes porque, perante acontecimentos geopolíticos adversos, permite atuar como emprestadores de última instância a bancos e empresas e intervir nos mercados cambiais”, disse à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, Barry Eichengreen, especialista em sistema monetário internacional da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos.

Durante décadas, os Estados Unidos e o seu banco central, a Fed, foram vistos como os guardiões mais fiáveis de um ativo tão essencial — especialmente por muitos países europeus que se sentiam ameaçados pelo poder da União Soviética e passaram a acumular ali grandes quantidades de ouro. Mas desde o regresso de Donald Trump ao poder, políticos e especialistas europeus começaram a questionar a conveniência de repatriar o ouro armazenado no país.

O distanciamento do presidente em relação aos compromissos internacionais e as suas divergências com aliados europeus dos Estados Unidos — sobre temas como as tarifas comerciais, a soberania dinamarquesa da Gronelândia ou, mais recentemente, a guerra contra o Irão — têm gerado preocupação quanto à segurança do ouro europeu guardado pela Fed.

Como o ouro europeu chegou aos Estados Unidos

Ao contrário da Rússia, cujo banco central mantém as suas reservas de ouro no seu próprio território — o que as protege de possíveis sanções ocidentais — vários países europeus continuam a guardar as suas reservas no estrangeiro, muitas delas no Cofre de Ouro de Nova Iorque.

Também Portugal já teve ouro na Fed, mas terá deixado de ter em 2021, ano em que esse ouro “foi deslocalizado para o Banco de França”, segundo o Relatório do Conselho de Administração do Banco de Portugal.

O ouro europeu começou a acumular-se ali a partir da década de 1950. Segundo Barry Eichengreen, “a Alemanha e outros países europeus, cujas economias estavam a recuperar e exportavam cada vez mais para os Estados Unidos, recebiam os pagamentos numa combinação de ouro e dólares”.

“Transportar ouro em navios ou aviões e contratar seguros para o proteger é caro, por isso pareceu uma boa ideia armazená-lo no cofre da Reserva Federal — que, além disso, não cobra pela custódia”, explicou Eichengreen.

O sistema criado em Bretton Woods, em 1944, estabeleceu um regime de câmbios fixos com o dólar indexado ao ouro. Com isso, ouro e dólar passaram a ser os ativos mais fiáveis — e, para as enfraquecidas potências europeias do pós-guerra, era vantajoso acumulá-los sem custos sob a custódia da Reserva Federal dos Estados Unidos.

Perante a ameaça soviética do outro lado da Cortina de Ferro, a guarda norte-americana era vista como a melhor garantia. Mas a União Soviética já não existe, e o regresso de Donald Trump à Casa Branca alterou a sintonia de décadas entre Washington e os seus aliados europeus.

Na Alemanha, várias vozes têm feito soar o alarme. O país possui as segundas maiores reservas de ouro do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, e, por isso, é um dos países mais expostos a eventuais riscos.

O economista Emanuel Mönch, que foi o principal investigador do Bundesbank, o banco central alemão, defendeu a repatriação do ouro que o banco central alemão mantém em Nova Iorque — cerca de 1,2 mil toneladas, segundo estimativas da imprensa alemã, com um valor aproximado de 200 mil milhões de dólares.

“Dada a atual situação geopolítica, parece arriscado manter tanto ouro nos Estados Unidos”, afirmou Mönch, que acredita que trazê-lo de volta contribuiria para uma “maior independência estratégica” do país.

Na mesma linha, Michael Jäger, presidente da Associação Alemã de Contribuintes, disse que “Trump é imprevisível e é capaz de tudo para gerar receitas. Por isso, o nosso ouro já não está seguro no cofre da Fed.”

“O que aconteceria se a provocação em torno da Gronelândia continuasse? Aumenta o risco de o Bundesbank não conseguir aceder ao seu ouro, por isso deveria repatriar as suas reservas”, acrescentou Jäger.

Esta preocupação foi também manifestada por deputados da CDU, o partido do chanceler Friedrich Merz, além de outras forças políticas. O presidente do Bundesbank, Joachim Nagel, tentou dissipar os receios.

“Não há motivo para preocupação”, disse Nagel em Outubro passado, durante uma reunião do Fundo Monetário Internacional, em Washington. Em fevereiro, voltou a comentar o tema numa conferência de imprensa: “Isso não me tira o sono. Tenho total confiança nos nossos colegas do banco central dos Estados Unidos.”

Mas, do outro lado do Atlântico, nem a Reserva Federal nem o governo de Trump reafirmaram essa confiança. “Não ouvi nenhuma palavra tranquilizadora e acho que isso seria oportuno”, disse o analista Barry Eichengreen.

A BBC Mundo entrou em contacto com a Reserva Federal, mas não obteve resposta. O silêncio da instituição ocorre num momento de tensão nas relações entre o seu presidente, Jerome Powell, e o governo.

Trump criticou-o repetidamente por se recusar a reduzir as taxas de juro, e o Departamento de Justiça chegou a abrir uma investigação criminal contra Powell — que denunciou a iniciativa como parte de “ameaças e pressões” do executivo para enfraquecer a independência da Fed e forçá-la a “seguir as preferências do presidente”.

A vaga de repatriação

A Alemanha não é o único país europeu com ouro em Nova Iorque. Itália e Suíça são frequentemente apontadas entre os países que mais mantêm reservas ali. E alguns países já iniciaram processos de repatriação no passado.

Os Países Baixos fizeram-no a partir de 2014, quando reduziu de 51% para 31% a parcela das suas reservas depositadas na Reserva Federal. A Alemanha também repatriou parte das suas barras nesse período, mas uma grande quantidade permaneceu no Cofre de Ouro.

“Era a época da crise da dívida grega e do euro, e os europeus queriam ter a segurança de que a sua moeda e os seus depósitos bancários estavam respaldados por algo tangível”, explica Eichengreen.

Muitos anos antes, na década de 1960, o presidente Charles de Gaulle decidiu trazer de volta para França as barras de ouro que o país mantinha na Fed — segundo diversos autores, por recear uma desvalorização repentina do dólar, cujo valor estava indexado ao ouro no sistema de Bretton Woods. O tempo deu-lhe razão.

Em 1971, o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, pôs fim à convertibilidade do dólar em ouro, desmantelando o sistema monetário internacional criado após a Segunda Guerra Mundial. França, que já tinha repatriado as suas reservas, ficou em melhor posição do que os países que viram as suas barras guardadas em Nova Iorque perder grande parte do seu valor em dólares de um dia para o outro.

Uma repatriação dispendiosa

O Cofre de Ouro alberga hoje menos ouro do que no passado. Segundo dados da Reserva Federal, o volume de reservas internacionais de ouro depositadas no cofre de Nova Iorque tem vindo a registar uma queda contínua desde 1973, quando chegou a ultrapassar as 12 mil toneladas do metal. Ainda assim, a ideia de manter ali o ouro europeu continua a ter defensores.

Clemens Fuest, do Instituto IFO de Pesquisa Económica da Alemanha, disse ao The Guardian que repatriar o ouro “apenas colocaria mais lenha na fogueira da situação atual” e poderia trazer consequências indesejadas.

Alguns especialistas sublinham que a independência da Reserva Federal em relação ao governo de Trump impede que este tome medidas unilaterais sobre o ouro — e destacam os custos, além dos desafios logísticos e de segurança envolvidos no transporte de uma carga tão valiosa.

Por outro lado, as dúvidas sobre a fiabilidade da Reserva Federal como guardiã do ouro europeu ameaçam abrir mais uma fissura na ordem mundial vigente há décadas.

Segundo Eichengreen, “embora a retirada não tivesse impactos financeiros particularmente significativos para os Estados Unidos, a custódia do ouro é um bem global que o país tem oferecido gratuitamente — tal como o guarda-chuva de segurança da NATO ou o dólar como moeda global — em troca de construir relações de amizade e parcerias comerciais”.

“Este governo não acredita que os Estados Unidos devam prestar serviços gratuitamente — e tudo o que alimenta dúvidas entre aliados sobre a segurança dos seus depósitos no país corrói ainda mais essa boa vontade, algo essencial quando se precisa do seu apoio, por exemplo, numa guerra no Médio Oriente.”

Não há registo de que algum país europeu tenha decidido, até agora, repatriar o seu ouro durante o segundo mandato de Trump. Mas talvez, na mente de alguns governantes, ecoem as palavras de Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, num discurso do ano passado: “Na história do sistema monetário internacional, há momentos em que os alicerces que pareciam inabaláveis começam a tremer.”


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