J.D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos e um católico convertido, defendeu Donald Trump das críticas que o chefe de Estado norte-americano está a receber por causa das acusações que fez ao Papa Leão XIV e da publicação nas redes sociais de uma imagem de inteligência artificial, entretanto apagada, em que surge retratado como Jesus Cristo.

Num evento organizado pelo grupo conservador Turning Point USA, em Athens, na Universidade da Georgia, na terça-feira, Vance disse à audiência que, “da mesma forma que é importante que o vice-presidente dos EUA tenha cuidado quando fala sobre questões de políticas públicas”, é “muito, muito importante que o Papa tenha cuidado quando fala sobre questões de teologia”.

Divergindo do entendimento do chefe da Igreja Católica, o norte-americano Robert Prevost, de que “um discípulo de Cristo nunca está do lado de quem empunha a espada ou, hoje em dia, de quem lança bombas”, Vance ripostou: “Deus não esteve do lado dos norte-americanos que libertaram França dos nazis?”


“[Quando o Papa fala de questões de teologia] é preciso garantir que está tudo ancorado na verdade”, acrescentou, citado pelo New York Times.

Na véspera, numa entrevista com a Fox News, o vice-presidente norte-americano já tinha afirmado que “seria melhor que o Vaticano se limitasse a questões de moralidade, a questões relacionadas com o que se passa na Igreja Católica, e que deixasse o Presidente dos Estados Unidos ditar as políticas públicas norte-americanas”.

Não obstante, Vance procurou uma abordagem mais diplomática do que a que tem sido assumida por Trump, que voltou a recorrer na terça-feira às redes sociais para pedir, “por favor, que alguém informe o Papa Leão que o Irão matou pelo menos 42 mil manifestantes inocentes e completamente desarmados nos últimos dois meses e que é absolutamente inaceitável que obtenha uma bomba nuclear”.

“Tenho muito respeito pelo Papa. Gosto dele. Admiro-o. Já o pude conhecer um pouco. Não me incomoda quando se pronuncia sobre assuntos da actualidade, sinceramente, mesmo quando discordo da forma como ele aplica um determinado princípio”, disse J.D. Vance. “Por vezes, vamos ter divergências em questões de políticas públicas.”

“Péssimo” e “fraco”

Depois de Leão XIV ter denunciado o “delírio de omnipotência” que alimenta a guerra dos EUA e de Israel contra o Irão, confrontando a visão belicista de Deus promovida por vários membros da Administração norte-americana, nomeadamente pelo secretário da Defesa, Pete Hegseth — que pediu a Deus “uma violência esmagadora contra aqueles que não merecem misericórdia” —, Trump acusou, no domingo, o líder da Igreja Católica de ser “péssimo em política externa” e “fraco em matéria de criminalidade”.

Nesse mesmo dia, o Presidente dos EUA partilhou na sua rede social, a Truth Social, uma imagem gerada por inteligência artificial, em que ele próprio surgia retratado como Jesus, com a luz numa mão e a outra sobre a testa de um homem deitado, num cenário que também incluía soldados, águias e a bandeira do país.

As acusações de “blasfémia” e as muitas críticas feitas por muitos eleitores MAGA ou figuras dos movimentos conservadores, católicos e evangélicos norte-americanos à publicação da imagem levaram Trump a apagá-la, horas depois, justificando a partilha com o argumento de que ela o retratava como um médico e não como uma personagem bíblica.


Também neste caso foi defendido por J.D. Vance. “O Presidente publicou uma piada e, claro, retirou-a porque percebeu que muitas pessoas não estavam a compreender o seu humor”, explicou. “[Trump] gosta de se divertir nas redes sociais. Uma das coisas boas deste Presidente é que ele não tem filtros, não passa tudo por um profissional de comunicação. Ele chega, de facto, directamente às pessoas.”

Os ataques de Trump ao Papa foram denunciados por diversos líderes religiosos e políticos, incluindo pela primeira-ministra de Itália, Giorgia Meloni, uma das principais aliadas europeias de Trump dentro do movimento populista e de direita radical internacional.

Garantindo, na segunda-feira, que “não tem medo” da Administração Trump e que vai continuar a “falar veementemente contra a guerra, a defender a paz, a promover o diálogo e as relações multilaterais entre os Estados que procurem uma solução para os problemas”, Leão XIV voltou a denunciar quem “abusa” da “mensagem cristã”.

Na terça-feira, no segundo dia de uma visita à Argélia, o sumo pontífice voltou a criticar os “prepotentes do mundo que decidem as guerras”. Depois, numa publicação das redes sociais, manteve a toada: “O coração de Deus está despedaçado pelas guerras, pela violência, pela injustiça e pelas mentiras. Mas o coração do nosso Pai não está com os ímpios, os arrogantes ou os orgulhosos.”