Uma nova ferramenta de pesquisa lançada na Alemanha permite que qualquer pessoa procure respostas a uma pergunta potencialmente desconfortável: “O seu pai, avó ou bisavô eram membros do Partido Nazi?”. O projeto, desenvolvido a partir de um vasto arquivo histórico pelo jornal alemão Die Zeit, reúne quase 13 milhões de fichas de filiação, agora pesquisáveis por nome e local de nascimento.

Segundo o Die Zeit, citado pela BBC, a adesão ao novo sistema tem sido “esmagadora”. Desde o seu lançamento, no início de abril, o motor de busca já terá sido consultado milhões de vezes. Após registo, basta introduzir nome e apelido para verificar se a pessoa consta na base de dados — embora o acesso completo exija subscrição do jornal.

Até há pouco tempo, o acesso a esta informação exigia contacto com o Arquivo Federal Alemão ou pesquisas em bases de dados do Arquivo Nacional dos Estados Unidos (que digitalizou cópias dos registos de filiação ao partido). Ainda assim, os nomes individuais nem sempre eram facilmente localizáveis e o sistema chegou a ficar repetidamente sobrecarregado devido ao aumento súbito de consultas após a divulgação pública dos arquivos.

Marcados pelo contexto da guerra, estes documentos têm uma trajetória longa e complexa. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, os registos estiveram prestes a ser destruídos, alegadamente por ordem das autoridades nazis, mas foram salvos por Hanns Huber, diretor de uma fábrica de papel nas imediações, que acabou por os entregar às forças norte-americanas. Durante décadas, assim permaneceram, sob custódia dos Estados Unidos no Centro de Documentação de Berlim, tendo apenas sido transferidos para os Arquivos Federais alemães em 1994 (com cópias guardadas nos Arquivos Nacionais em Washington).

Para além da curiosidade familiar, a ferramenta pode também servir a investigação académica. O perfil típico do membro do partido, apurado pelo Die Zeit, era em grande parte masculino e relativamente jovem, com uma concentração significativa de nascidos entre 1900 e 1915 — uma geração marcada pela Primeira Guerra Mundial, pela crise económica e pela instabilidade política, fatores que facilitaram a radicalização. Entre 1925 e 1945, cerca de 10,2 milhões de alemães filiaram-se no Partido Nazi.

O objetivo não é apurar apenas questões individuais. Até porque saber se alguém terá sido membro do partido, explica o jornal, é diferente de uma eventual participação ativa na perseguição de judeus, denúncias ou outras formas de colaboração. Essas informações adicionais exigem uma investigação biográfica aprofundada — um trabalho que, mais de 80 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, continua a ser lento e, por vezes, inconclusivo. Além de nem sempre serem definitivos, em alguns casos a ausência de resultados também não será reconfortante, já que existem lacunas nos ficheiros.

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Miguel Feraso Cabral