Veneza, tal como a conhecemos, pode provavelmente ser protegida durante muito tempo, mas não indefinidamente. É o que sugere um estudo publicado nesta quinta-feira na revista científica Scientific Reports que analisa, pela primeira vez de forma sistemática, as grandes estratégias de adaptação disponíveis para a cidade e a lagoa adjacente face à subida do nível médio do mar nos próximos 300 anos.

Liderado pelo climatólogo Piero Lionello, compara quatro caminhos possíveis: manter a lagoa aberta com as actuais barreiras móveis, construir diques circulares, fechar a lagoa com barreiras permanentes ou, no limite, relocalizar a cidade. Cada um preserva alguns valores, mas sacrifica outros. Veneza não pode ter tudo — pelo menos não em tempos de crise climática.

“A verdadeira mensagem do artigo não é a existência de uma solução ideal, mas sim que a subida do nível do mar impõe uma série de escolhas cada vez mais difíceis e que adiar essas decisões reduzirá as opções disponíveis”, afirma Piero Lionello em resposta ao Azul.

Classificada como Património Mundial da UNESCO, Veneza tem sido afectada por inundações cada vez mais frequentes nos últimos 150 anos. Das 28 cheias extremas registadas desde o século XIX, 18 ocorreram apenas nos últimos 23 anos. A causa é a subida relativa do nível médio do mar, resultante em partes aproximadamente iguais do aumento global do nível médio dos oceanos e do afundamento progressivo do solo.

Desde 2022, um sistema de barreiras móveis (chamado MoSE) tem conseguido evitar cheias extensas, fechando temporariamente as três entradas da lagoa durante as tempestades.

O estudo reconhece que o MoSE “demonstrou a sua capacidade de proteger a cidade”, mas sublinha que a sua eficácia diminui à medida que o nível do mar sobe. Quanto mais frequentes e prolongados forem os encerramentos, maiores serão os impactos na navegação, no porto veneziano e nos ecossistemas lagunares, além de aumentarem o risco de falhas técnicas.

Com base nas projecções do 6.º Relatório de Avaliação do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), adaptadas à escala local, os investigadores estimam que, mesmo com medidas adicionais, as barreiras móveis dificilmente serão eficazes para aumentos superiores a 1,25 metros do nível do mar.

Este valor poderá ser ultrapassado até 2300, mesmo num cenário de baixas emissões globais de gases com efeito de estufa, devido à inércia do sistema climático e à subsidência do terreno. Já num quadro de emissões muito elevadas, os autores estimam que aumentos do nível médio do mar superiores a meio metro poderão ocorrer antes de 2100. Neste caso, outras soluções terão de ser equacionadas.

Construir diques circulares

Perante estes limites, o estudo analisa alternativas mais transformadoras. Uma delas é a construção de diques circulares que isolariam o centro histórico e outras ilhas venezianas do resto da lagoa, mantendo este corpo de água aberto ao mar. Esta opção preservaria monumentos, áreas residenciais e grande parte da actividade económica, mas alteraria profundamente a paisagem e enfraqueceria a ligação física e cultural entre a cidade e a lagoa.

“Os diques exigiriam uma reorganização completa do funcionamento da cidade”, explicou Piero Lionello numa resposta por escrito. O investigador italiano sublinha que seria necessário manter as áreas protegidas a um nível mais baixo do que a água exterior, com sistemas permanentes de bombagem, saneamento e eclusas.

Veneza pode provavelmente ser protegida por muito tempo, mas não indefinidamente na sua forma actual. Cada opção futura salva algumas coisas e sacrifica outras



Piero Lionello, climtólogo



O risco associado a esta estratégia é um dos pontos mais sensíveis. “Como os diques ficariam imediatamente junto da cidade histórica, uma falha localizada durante níveis elevados do mar poderia provocar uma inundação rápida, com muito pouco tempo para a resposta de emergência”, afirmou o investigador.

Transportes públicos, mobilidade, organização do porto e circulação de mercadorias teriam de ser redesenhados de raiz, com impactos difíceis de prever na vida quotidiana e no turismo. Actualmente, Veneza recebe em média cerca de 22 milhões de turistas por ano.

Fechar a lagoa

Outra opção é fechar a lagoa com barreiras permanentes, transformando-a num lago costeiro, à semelhança do que acontece em Marina Bay, em Singapura, ou no lago Issel, nos Países Baixos. Esta estratégia protegeria o tecido urbano e permitiria manter a cidade no mesmo lugar, mas à custa da perda irreversível do ecossistema lagunar.

“É a solução que melhor preserva os edifícios e a vida urbana, mas sacrifica o ambiente natural que moldou a identidade de Veneza ao longo de séculos”, resumiu Piero Lionello, que é professor na Universidade de Salento, em Lecce, Itália.

O encerramento da lagoa, que hoje está ligada ao mar Adriático, interromperia a circulação natural de água, tendo como consequência alterações na temperatura e salinidade. A fauna e a flora actual seriam substituídas por um sistema ecológico completamente diferente, dependente de gestão artificial da qualidade da água, refere o estudo.

Transferir a cidade

A solução mais exigente é a relocalização, que implicaria desmontar e reconstruir monumentos seleccionados em áreas interiores e abandonar progressivamente a cidade actual. Os autores reconhecem que se trata de uma opção sem precedentes à escala de Veneza e que não evitaria a perda da maior parte do património cultural, social e económico associado ao local original.

“Não é uma questão de um problema técnico do sistema MoSE”, escreve Piero Lionello. “A partir de certo ponto, a pergunta deixa de ser como operar melhor as barreiras e passa a ser que tipo de Veneza a sociedade quer preservar.”

O estudo evita deliberadamente uma análise clássica de custo-benefício, argumentando que valores como o património cultural, a memória colectiva e as tradições ligadas à lagoa não podem ser adequadamente traduzidos em termos monetários. Ainda assim, o artigo publicado na Scientific Reports apresenta estimativas indicativas para ilustrar ordens de grandeza.




O investigador Piero Lionello é professor na Universidade de Salento, na Itália
Universidade de Salento/DR

A construção do sistema MoSE custou cerca de seis mil milhões de euros, os diques circulares poderão custar entre 500 milhões e 4,5 mil milhões, o encerramento da lagoa ultrapassaria os 30 mil milhões e, por fim, em caso extremo, a relocalização da cidade poderia chegar aos 100 mil milhões de euros.

O estudo não diz qual é a melhor solução, mas deixa claro que adiar decisões reduz opções e aumenta perdas. “A questão não é apenas quanto custa adaptar”, escreve a equipa no estudo, “mas o que cada caminho permite efectivamente salvar”.

A lição de Veneza

A principal lição de Veneza em tempos de crise climática é que a subida do nível do mar estreita progressivamente o espaço de soluções disponíveis. “A adaptação não é uma solução única e definitiva”, explicou Piero Lionello. “As cidades passam de medidas incrementais para medidas transformadoras, e cada transição envolve escolhas difíceis.”

Outra mensagem central do estudo científico é a importância do tempo. Grandes intervenções de engenharia podem demorar entre 30 e 50 anos a planear e construir, o que significa que não se pode esperar até que o sistema actual esteja perto do colapso para tomar a decisão do que será feito a seguir. “Pode já ser tarde de mais”.

Embora centrado em Veneza, o trabalho tem implicações globais. Muitas cidades costeiras baixas enfrentam dilemas semelhantes, ainda que sem o peso simbólico e cultural da cidade italiana. Para Piero Lionello, Veneza mostra que a adaptação pode gerir a mudança, mas apenas dentro de certos limites. “Se a subida do nível do mar ultrapassar determinados limiares, deixamos de estar a preservar o presente e passamos a desenhar um futuro fundamentalmente diferente.”

O estudo introduz ainda o conceito de “pontos de viragem de adaptação”, momentos em que uma estratégia deixa de cumprir os seus objectivos e obriga a uma mudança de rumo. Segundo os autores, Veneza encontra-se actualmente numa fase de adaptação incremental, mas poderá ser forçada a uma transição transformadora ainda neste século, sobretudo se continuarem elevadas as emissões globais resultantes da queima de combustíveis fósseis.

“Veneza pode provavelmente ser protegida por muito tempo, mas não indefinidamente na sua forma actual”, insiste Lionello. “Cada opção futura salva algumas coisas e sacrifica outras.”