A Galp é a única produtora de jet em Portugal cuja produção está concentrada na refinaria de Sines. O norte do país é abastecido por barco que vai de Sines até ao parque logístico que sobrou da antiga refinaria de Matosinhos, encerrada em 2020. Segundo a consultora Argus, que cita dados do Eurostat, Portugal é um dos países europeus em risco de ficar sem produto dentro de quatro meses. A refinaria de Sines esteve parada no final do ano passado para manutenção, o que pode ter afetado a quantidade de produto armazenado. Poderá recorrer a Espanha que também exporta algum jet.
Numa reunião realizada com Governo há dois ou três dias, a Galp afirmou que ” aguenta perfeitamente até ao pico do verão”, ou seja “princípio, meio de agosto” o fornecimento do combustível ao mercado nacional. A informação foi avançada pela ministra do Ambiente e Energia esta sexta-feira. Citada pela Lusa, Maria da Graça Carvalho, refere que a empresa tem “uma grande produção, a matéria-prima que recebem vem essencialmente do Atlântico e, do ponto de vista da Galp, temos ainda para vários meses”. O Governo também reuniu com a Repsol, principal empresa espanhola, tendo ficado com a indicação de que “a situação da Península Ibérica é bem mais confortável do que no resto da Europa e que muitas zonas do mundo”.
Em resposta ao Observador, fonte oficial da Galp confirma que Portugal “tem uma dependência parcial do exterior para fazer face às suas necessidades deste combustível, sendo que uma parte importante das cargas têm origem na região do Golfo Pérsico”. No entanto, acrescenta que neste momento, “não se antecipam disrupções nos próximos meses, período em que o consumo está coberto pela produção própria da Galp, disponibilidades de stock e importações.” A petrolífera monitoriza a disponibilidade de inventários deste combustível e “está a adotar medidas operacionais que reforcem a segurança de abastecimento de Jet e a avaliar soluções que contribuam para aumento de armazenagem”.
O ministro da Presidência, Leitão Amaro, indicou que o Governo está a acompanhar o tema com outros países e a analisar as medidas que possam ser mais adequadas e eficazes. A informação sobre o abastecimento de jet é relevante para um país com muito turismo e grande conetividade internacional, o que o torna dependente da aviação. Indicou também que há um campo de discussão a nível europeu sobre este tema.
As regras europeias exigem que sejam mantidas reservas estratégicas para 90 dias de consumo de produtos petrolíferos, mas não fixam um valor para cada um desses produtos. Em Portugal, o jet não é um dos combustíveis incluídos na obrigação de constituição de reservas estratégicas. As reservas que existem são comerciais e estão controladas pelas empresas fornecedoras e compradores. Essas reservas estão distribuídas pela refinaria de Sines e pelo parque de CLC (Companhia Logística de Combustíveis) em Aveiras, mas também pelos aeroportos, e pelo já referido parque da antiga refinaria de Matosinhos.
Quando um fornecedor de um produto essencial falha ou não pode fazer entregas, a solução é procurar fornecedores alternativos. Foi o que a Europa fez quando quis cortar com o gás russo em 2022. Mas esta é uma crise global e há muitos países e empresas à procura dessas alternativas. Mesmo países que são produtores, estão a limitar as exportações para terceiros de forma a assegurar a resposta às necessidades internas.
A Europa tem recorrido aos Estados Unidos e à Nigéria, mas a avaliar pela declaração do diretor da Agência de Energia, isso não é suficiente.
A União Europeia está a preparar um plano para lidar com a crise no abastecimento de jet e maximizar a produção nas refinarias. Segundo um esboço do plano consultado pela agência Reuters, a Comissão Europeia vai mapear a capacidade de refinação de produtos petrolíferos em toda a UE e lançar medidas para assegurar que toda a capacidade de refinação existente está a ser utilizada e alvo de manutenção. Estão também em preparação medidas dirigidas ao abastecimento de jet, mas ainda não se conhecem os detalhes.
Para já os cancelamentos são “pontuais”, e as agências de viagens estão, desde 28 de fevereiro, a “viver o dia a dia”, diz o presidente da Associação Nacional das Agências de Viagens (ANAV) ao Observador. Miguel Quintas rejeita “alarmismos” nesta fase mas admite que tudo pode acontecer, incluindo mais aumentos de preços.
“Neste momento não temos registo nem avisos de aumento de preços face a esta possível escassez dentro de um mês e meio. Temos noção de que, pontualmente, tem havido cancelamentos mas não têm expressão, muito menos no mercado português. Estamos a informar os clientes e as agências estão cá para precaver futuras disrupções ou acompanhar os clientes nas remarcações e nas devoluções de dinheiro caso seja necessário. Mas é prematuro entrar em alarmismos”, diz Miguel Quintas.
“É claro que pode haver aumento de preços”, ainda que nos pacotes não se esteja a sentir, garante. “Nos voos simples há um aumento generalizado de 6% a 7% na Europa e entre 12% e 20% nos voos de médio e longo curso. Até a situação estabilizar é normal que se mantenha”, constata.
O tema do jet fuel “já vinha a ser falado ‘à boca pequena’ e agora tornou-se oficial” com os avisos da AIE. “Tem-se assistido a muito poucos cancelamentos. Com a escassez de jet fuel, a necessidade de repor os stocks pode levar a uma crise, mas estamos a falar de uma distância de um mês ou mês e meio. Mas esta guerra tem tido tanta volatilidade que estas declarações têm de ser avaliadas com cautela”, pede o presidente da ANAV.
Nas agências de viagens as reservas não diminuíram, garante, mas tem havido “muitas dúvidas” no momento de fazer a reserva, nomeadamente a Este da zona do conflito. “Para a zona da guerra as reservas de turismo caíram para zero. Para lá do Médio Oriente, para a Ásia, tem-se assistido a uma deslocação das reservas para o final do ano”. O que se nota, acima de tudo, é uma substituição por destinos “com maior segurança” como República Dominicana, México ou Brasil.
Atualizado às 21h30 com resposta da Galp.
[Depois de assassinar Carlos Castro, Renato Seabra vai passar 95 dias numa ala psiquiátrica. É lá que diz ter agido como um instrumento de Deus e ser “Jesus Cristo”. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir aqui o segundo episódio, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir aqui o primeiro episódio]

Miguel Feraso Cabral