Um avanço raro na luta contra o HIV reacendeu o debate científico sobre a possibilidade de cura da doença: médicos do Hospital Universitário de Oslo relataram que um paciente de 63 anos, diagnosticado há quase duas décadas com o vírus, está livre da infecção após um transplante de células-tronco considerado inédito.

O caso envolve um homem norueguês que convivia com o HIV-1, subtipo B, o mais comum nas Américas e na Europa, e que passou mais de 10 anos sob tratamento com antirretrovirais. Em 2018, no entanto, ele foi diagnosticado com síndrome mielodisplásica, um tipo raro de câncer do sangue, o que levou os médicos a indicarem um transplante de medula óssea.

A estratégia seguiu uma linha já explorada em poucos casos no mundo: encontrar um doador com uma mutação específica no gene CCR5 mutation, capaz de impedir a entrada do HIV nas células. Inicialmente, a equipe médica não encontrou um doador compatível com essa característica. A solução veio de forma inesperada: o irmão do paciente, escolhido apenas pela compatibilidade para o tratamento do câncer, também possuía a mutação — presente em cerca de 1% da população europeia.

O transplante foi realizado em 2020. Dois anos depois, o paciente conseguiu interromper o tratamento antirretroviral e, desde então, não apresenta qualquer vestígio detectável do vírus no organismo. Segundo os médicos, seu sistema imunológico foi completamente substituído pelas células do doador, tornando-se resistente ao HIV.

“Para todos os efeitos práticos, estamos bastante certos de que ele está curado”, afirmou o médico Anders Eivind Myhre, que acompanhou o caso. Ele descreveu o resultado como “ganhar na loteria duas vezes”, já que o paciente também ficou livre do câncer.

O episódio reforça uma linha de evidências construída ao longo de mais de uma década. Em 2008, o americano Timothy Ray Brown, conhecido como “paciente de Berlim”, tornou-se o primeiro a ser considerado curado do HIV após procedimento semelhante. Outros casos, como o “paciente de Düsseldorf” e o “paciente de Genebra”, também demonstraram remissão do vírus, embora com variações no método e nos resultados.

O diferencial do caso norueguês está no fato de o transplante ter sido feito com um doador da própria família, algo inédito até então. O estudo foi publicado na revista Nature Microbiology e, segundo os autores, amplia o entendimento sobre possíveis caminhos para a cura funcional do HIV.

Apesar do avanço, especialistas fazem uma ressalva importante: o procedimento não é aplicável à maioria das pessoas que vivem com o vírus. O transplante de células-tronco é altamente complexo, envolve riscos significativos, como infecções, rejeição e falência de órgãos, e só é indicado em casos em que o paciente já necessita do procedimento para tratar doenças graves, como cânceres hematológicos.

Ainda assim, cada novo caso funciona como peça de um quebra-cabeça científico. E, pouco a pouco, aquilo que por décadas foi tratado apenas como controle crônico da doença começa a flertar, com cautela, com a palavra mais aguardada pela medicina: cura.