Em Lisboa, no 4B da Rua Josefa Maria, na Graça, abre neste sábado o Café Central. Entra-se num edifício pintado de rosa para sermos engolidos por um azul forte que pinta as paredes da escadaria e as que levam à cozinha e à casa de banho, cor que é apenas interrompido pelas figuras de anjos pintados de branco e alguns pormenores dourados.

No café em si, uma sala longitudinal, o azul passa para as mesas e cadeiras, deixando as paredes como já estavam: metade brancas, metade cortiça. Mas logo à entrada destaca-se o balcão de inox, como acontece em quase todos os cafés centrais por este país fora, a grande fonte de inspiração de Joana Mortágua para este espaço situado num antigo bairro operário.

O novo Café Central já teve várias vidas, foi sede do Clube Recreativo do Bairro Estrela D’Ouro, um casino clandestino e, mais recentemente, foi casa do Camones, um bar com música ao vivo que vivia muito do improviso, as chamadas sessões de open mic. “Este espaço sempre teve uma onda muito cultural e de convívio, de chegar e participar e é isso que queremos que continue a acontecer”, explica à Fugas Joana Mortágua, que estamos mais habituados a ver nas lides políticas, mas que assume agora a gestão deste espaço. A acompanhá-la estão Victor Ribeiro e Sam Santos, os outros dois rostos do projecto.

Nem Joana Mortágua nem Victor Ribeiro vivem na Graça, mas vivem perto e, quando perceberam que este espaço ia ficar vazio, não hesitaram. “Nem o senhorio nem os antigos gerentes queriam que isto se transformasse num sítio gentrificado, por isso, acolheram bem a nossa ideia”, diz a nova proprietária. “Todos os sítios tradicionais e espaços culturais estão a fechar e queremos contrariar isso. Queremos acrescentar alguma coisa dentro da comunidade”, acrescenta Victor Ribeiro.




O balcão é de inox, traço comum a muitos cafés centrais do país
Daniel Rocha

Na Graça, há muita curiosidade sobre o Café Central. “Quando ando aqui pelo bairro, as pessoas perguntam-me, ‘quando é que abre?’, há um burburinho muito positivo”, conta a ex-deputada do Bloco de Esquerda. Os vizinhos foram todos convidados para a inauguração, que acontece neste fim-de-semana, e no convite que receberam ficou a promessa: “Em breve saberemos como gosta do café.”

Neste sábado, o DJ set vai ficar a cargo de caras conhecidas, os músicos Benjamim e Samuel Úria. No domingo, salta, para o pequeno palco, que está sempre montado, o Jam do Pika. “Convidámos amigos para fazer a festa de inauguração”, partilha Joana Mortágua. No entanto, a animação fará parte do quotidiano do Café Central. “Queremos ter alguma programação especial ao fim-de-semana. Para o 25 de Abril, estamos a a preparar uma oficina de cante com uma cantadeira vinda do Alentejo. Durante a semana queremos ter algumas noites temáticas. O Victor é DJ e produtor cultural, está muito por dentro da cena cultural”, congratula-se Joana Mortágua, que adianta que querem ter noites de fado, forró, poesia, quizzes, e até bailes e matinés.

“A nossa ideia é que o pessoal possa estar aqui a beber um copo e salte de uma mesa para o palco para cantar um fado ou um samba”, imagina Joana Mortágua, salvaguardando que o Café Central não é uma sala de espectáculos. “Mas pode movimentar a cena cultural”, aspira Victor Ribeiro, que promete dar algumas aulas de forró e garante que o espaço está aberto a outras propostas. “Queremos também ouvir a comunidade e perceber o que a move.”

Se há pergunta que quem se sentar à mesa nunca vai ouvir é “já conhece o nosso conceito?”, garantem. “Queremos ser o mais familiar possível e não é preciso muita explicação para isso”, defendem.

Petiscos, sandes e pizzas

Quanto ao menu, foi feito com a colaboração de Leonor Godinho, da Bibs e da Vida de Tasca, em Lisboa. “O que ela faz encaixa perfeitamente aqui, pois queríamos algo despretensioso, comida de conforto. O Café Central foi pensado para ser um sítio para beber um copo ao final do dia e petiscar qualquer coisa”, diz Joana Mortágua. “Queríamos um menu simples e acessível, mas ao mesmo tempo ter uma diversidade grande de coisas”, acrescenta Victor Ribeiro.




O azul é a cor dominante do Café Central
Daniel Rocha

Tanto Joana como Victor já têm preferidos: “Nos petiscos, são os dadinhos de tapioca com goiabada picante [5€], o pica-pau de língua de vaca grelhada e milho frito [12€]”, referem. Já nas sandes, a escolha diverge: Joana prefere a de cachaço, maçã, picles de mostarda e manteiga de cor (12€); enquanto Victor elege a Sloppy Joe, “um hambúrguer desajeitado servido em pão-de-leite com queijo por cima” (11€).

Da carta fazem ainda parte escabeches (de frango ou de beringela, 5€, cada) e saladas, como a de polvo (12€). Algumas das iguarias são vegetariana e outras veganas, caso do falafel de tremoço com molho de iogurte e hortelã (5€), a parmegiana (9€) e a sandes de pleurotus fritos, maionese de lima e coentros, e picles caseiros (10€).

Há ainda pizzas artesanais da Millz, que começou a sua actividade neste mesmo espaço. “Houve dois fornecedores do Camones que fizemos questão de manter, as pizzas da Millz e as cervejas Oitava Colina que têm uma ligação emocional com o bairro”, informa Joana. A ementa fecha com duas sobremesas: mousse de chocolate com côco tostado (4€) e cheesecake cozido com caramelo de stout (6€).

Quanto às bebidas, os vinhos são portugueses. “Temos opções boas e acessíveis como queremos que seja tudo aqui. Temos também cocktails e o [que tem o nome de] Café Central, tem como bebida principal a típica amarguinha, leva também vodca e é decorada com grãos de café, para fazer a ligação ao nome”, descreve Victor Ribeiro. A imperial é Sagres e a acompanhá-la não faltarão os tremoços.





Daniel Rocha

“Já no que diz respeito ao café, além do expresso, o mais longe que vamos é ao galão e à meia-de-leite. A ideia é manter a coisa no tradicional, não queremos lattes, mokas, etc….”, sublinha Joana Mortágua.

Por enquanto, o Café Central vai funcionar a partir das 17h, mas o objectivo é abrir mais cedo ao fim-de-semana. “Até para ter actividades de manhã para os miúdos.” Quando isso acontecer, servirão um pequeno-almoço típico português. “Não vai haver ovos Benedict, mas sim torradas, tostas e eventualmente um bolo caseiro”, comentam os sócios.

Ponto assente é a boa vizinhança a qualquer hora do dia, por isso o espaço vai ter um cartaz a pedir para haver atenção ao ruído na rua a partir das 22 horas.

À porta há uma campainha, pensada para quando tiverem noites de fado e que, no interior, pode ser apenas um alerta visual, em vez de ter som. “Quando alguém estiver a cantar fado não pode haver barulho e pessoas a entrar e a sair”, contextualiza Joana Mortágua, que “adora” aquele estilo musical e garante que ainda vai ter uma casa de fados, agora que se estreia na indústria da restauração.

“É uma nova etapa na minha vida e, de nós três, sou a única que me estou a estrear nesta área, o Victor já trabalhou em bares e é programador cultural, a Sam também tem muita experiência”, comenta. Mas a vontade de mexer com o bairro é comum a todos e o entusiasmo de ter em mãos um novo projecto também.