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Naquela quinta‑feira acordei duas vezes. Uma em casa, no carro, no trânsito, no barulho permanente da cidade. Outra debaixo de um tecto de folhas verdes, com a batida constante de água a correr interrompida por pássaros a chilrear, naquele silêncio carregado de sons que só a natureza consegue oferecer, perto da nascente do rio Leça, em Santo Tirso. Durante horas percorremos vários pontos de passagem destas águas que ao longo de décadas foram sinónimo de poluição extrema. O final desta viagem não foi feliz. Mas o destino do Leça ainda pode ser.
A esmagadora maioria das pessoas que conhece o rio Leça pensa num rio sujo, malcheiroso, doente, moribundo. Um rio a evitar. Mas o princípio do Leça — a apenas 20 minutos do Porto — mostra uma face escondida, inesperada, de uma beleza natural que contraria esse imaginário colectivo.
Percorremos o Leça como quem visita um corpo que envelhece e adoece, da nascente até à foz. Um rio único: foi considerado um dos mais poluídos da Europa; é hoje o único em Portugal gerido por uma associação intermunicipal; e é também o primeiro e único a ser monitorizado com sondas de qualidade da água da nascente ao mar.
São quase 50 quilómetros de percurso ao longo de quatro municípios — Santo Tirso, Valongo, Maia e Matosinhos —, atravessando uma bacia hidrográfica onde vive perto de meio milhão de pessoas.
A poucos quilómetros da nascente, o Leça esconde uma parte ainda pouco afectada pela poluição
Manuel Roberto
O projecto que uniu autarcas numa gestão integrada nasceu há menos de meia dúzia de anos, com uma herança pesada e um grito de socorro. Chama‑se Corredor do Rio Leça e é coordenado pelo engenheiro do ambiente Artur Branco, que já parece irremediavelmente preso a estas águas e garante que fará tudo para devolver saúde ao Leça. Hoje, admite, ainda não tem.
Onde tudo começa
A nascente do Leça não tem cerimónia nem monumentalidade. Não está assinalada por placas nem celebrada como destino turístico. Surge discreta, transparente, infiltrando‑se entre raízes e pedras antes de ganhar coragem para ser rio. O som do trabalho humano — carros, máquinas, buzinas — fica para trás numa fronteira invisível.
Fotografia histórica do Rio Leça em Santo Triso, sem data
Em Pereiras, Santo Tirso, a cerca de sete quilómetros da nascente no Monte Córdova, a água corre clara e gelada sobre um leito de pedra onde se movem pequenos peixes e alfaiates. Aqui conhecemos Ivo Ribeiro, 32 anos, guarda‑rios — uma profissão que oficialmente não existe, mas que aqui, no Leça, ganhou corpo, utilidade e urgência.
“Monitorizamos 44 quilómetros. A pé, de bicicleta, de drone. Vamos atrás de descargas. Procuramos tudo o que esteja a contaminar o rio.” Ivo conhece o Leça desde a infância. “Os meus avós nadavam aqui. Na minha família aprendia‑se a nadar aqui. As pessoas faziam rio. O meu tio‑avô morreu aqui afogado.”
Hoje, Ivo e mais três guarda‑rios tentam que o Leça não seja apenas um rio que foi, mas um rio que ainda pode voltar a ser. “Faço vigilância, monitorização, sigo descargas, procuro o que está mal para ser corrigido”, explica, enquanto varre as margens com o olhar.
O que o rio ganha — e o que perde — pelo caminho
O Leça nasce cristalino. O biólogo Adriano Bordalo e Sá, que há décadas se dedica a estas e outras águas, responde com um aviso a esta sensação arrebatadora: “É normal ficar encantado. Essa zona tem menos pressão agrícola e urbana. Mas isso não significa de maneira nenhuma que não existam problemas, quer na água, quer no sedimento.”
O guarda-rios Ivo Ribeiro percorre as margens do Leça todos os dias
Manuel Roberto
À medida que atravessa cidades, o Leça recebe tudo o que a bacia hidrográfica lhe oferece — e muito do que não devia oferecer: águas pluviais e residuais contaminadas, resíduos industriais, lixo doméstico, pneus, colchões, plásticos, até trotinetes eléctricas e frigoríficos. E tudo o que a chuva arrasta de quilómetros de estradas e pontes.
“O Leça nasce malfadado”, sentencia Bordalo e Sá. “Logo a seguir à nascente começa a ser rodeado por habitações. E os problemas de qualidade, nomeadamente de contaminação fecal, agudizam‑se”. Nas zonas agrícolas, o rio sofre novas feridas: “A água é retirada para rega e devolvida impregnada de fertilizantes, adubos e chorume”. Mais a jusante, a pressão urbana engole‑o quase por completo.
“Um rio é a soma de tudo o que acontece à volta dele”, resume Artur Branco. “Não há uma causa única, não há um culpado único. Durante décadas, um território inteiro usou o rio como sarjeta.”
Bordalo e Sá concorda — e amplia: “Temos de olhar para a bacia hidrográfica inteira. Não é só o curso principal, é toda a área drenante: campos, vacarias, cidades, floresta, habitações.”
Apesar disso, começamos num dos troços mais preservados, caminhamos numa margem acidentada, entre escadas que inventamos nas pedras e terreno ainda lamacento das chuvas em direcção às quedas de Fervença.
Artur Branco, engenheiro do ambinente que coordena o projecto Corredor Verde do Leça
Manuel Roberto
Artur Branco aponta intervenções de engenharia natural, anfiteatros que substituem muros de betão por taludes vivos, consolidados com raízes, pedra local e vegetação nativa. “As pessoas têm de gostar do rio para o defender. Têm de criar memórias boas com ele. Se for apenas um sítio sujo que evitam, nunca o vão proteger.”
Não se pode apagar a história no leito
No meio do nada, num trilho improvisado que está em terreno privado (como a maioria das terras que acompanham o rio), mas onde o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas autoriza a caça, encontramos cinco rapazes e dois cães em sentido contrário. Talvez por surpresa ou timidez, esquivam-se de nós, mas não fogem à comparação que desde o início queríamos evitar: “É como se estivéssemos no Gerês, mas mais perto do Porto.”
Estamos na parte esquecida do Leça, seguimos caminho e eles também. Artur Branco fala-nos da engenharia natural que, passo a passo, está a introduzir para mudar as margens. “O rio deixou de ser tratado como um canal de transporte de água. Começa a ser tratado como um habitat, que precisa de espaço, sombra, alimento, permeabilidade.”
Em Santo Tirso, perto da nascente, a vida selvagem tem liberdade longe das ameaças nas cidades
Manuel Roberto
Sérgio Costa, engenheiro do ambiente responsável pela candidatura a um projecto europeu que pode dar um importante impulso ao projecto do Leça
Manuel Roberto
Ao lado de Artur, Sérgio Costa, também engenheiro do ambiente responsável pela candidatura a um projecto europeu que pode dar novo fôlego (e muitos milhões) a esta causa e que será entregue até Setembro, complementa: “Queremos devolver-lhe características naturais sem ignorar que ele está profundamente marcado pela presença humana. Não podemos libertar tudo. Não podemos apagar séculos de história e de uso económico. O desafio é conciliar ecologia, sociedade e economia.”
Aqui, a água é transparente. As margens são ocupadas por amieiros, freixos, carvalhos e alguns eucaliptos de grande porte. As nossas vozes são apenas interrompidas por pássaros (ou seremos nós que os interrompemos a eles?). Mas este é apenas o início. “Vamos ver o rio a adoecer ao longo do caminho”, avisa Artur, no regresso ao carro para continuarmos viagem. E assim é.
É como um corpo humano a envelhecer, constatamos. Sérgio Costa concorda e alinha na metáfora: “Nasce puro, forte, leve. E depois vai ganhando problemas, peso, cicatrizes. O que tentamos fazer agora é perceber onde podemos intervir: que cirurgia faz sentido, onde basta fisioterapia, onde só precisamos de vigiar.”
Um corpo que envelhece e muda
Descemos território, em Alfena vemos um Leça menos virgem, menos intocado que se tornou paciente e laboratório. Artur Branco lembra que há dez estações fixas e sondas móveis que recolhem dados em tempo real sobre condutividade, salinidade, turbidez e temperatura ao longo de todo o rio. Mas Bordalo e Sá alerta: “É preciso complementar esta monitorização com sistemas que permitam detectar descargas poluentes e agir de imediato.”
Os números explicam a gravidade. “Na foz do Leça, na última época balnear, registaram‑se valores de E. coli (Escherichia coli) 20, 30 ou mesmo 50 vezes acima do recomendado”, diz.
O projecto Corredor Verde do rio Leça une quatro municípios do distrito do Porto
Manuel Roberto
Um dos objectivos é fazer com que a população regresse ao rio
Manuel Roberto
Num açude antigo, agora adaptado com uma rampa ecológica para remover uma barreira aos peixes, o rio esforça-se por recuperar conectividade. “Não destruímos património”, explica Artur Branco. “Adaptamos.” A vida passa — discreta, mas passa.
Ivo, o guarda-rios, lembra uma espuma detectada ali perto recentemente. Seguiram-lhe o rasto, encontraram descargas vindas de uma fábrica de metais. “Reportamos, o município actua, a fiscalização entra”, resume. Hoje, grandes indústrias são fáceis de detectar — o problema central tornou-se outro: o lixo anónimo, difuso, espalhado por toda a bacia hidrográfica.
“O rio está melhor, não está bom, mas está bem melhor”, resume Luísa Salgueiro, presidente da Câmara de Matosinhos e, este ano, da Associação de Municípios do Rio Leça. A associação, criada há cinco anos, tem presidência rotativa e reúne quatro municípios “em torno de um objectivo comum: a recuperação do Leça”.
A autarca socialista licenciada em Direito e pós-graduada em Direito do Ambiente, identifica o principal problema: o saneamento. “Grande parte do trabalho tem decorrido nas margens do rio e no próprio leito, com a criação de corredores ribeirinhos, zonas de fruição e vias de mobilidade suave, mas a reabilitação das ETAR é central para que o rio deixe de ser poluído.”
Da nascente até à foz, o rio adoece acumulando poluição
Manuel Roberto
Em Leça do Balio, entre descragas de esgotos e plásticos presos nas margens, ainda há sinais de vida
Manuel Roberto
Durante décadas, o rio Leça foi usado como sarjeta — ainda há um longo caminho para o recuperar
Manuel Roberto
Recusa, no entanto, triunfalismos: “O Leça é ainda um doente em recuperação.” As descargas clandestinas continuam a surgir, sobretudo após chuvas intensas. “A nossa missão é identificá‑las e eliminá‑las.”
O reconhecimento institucional chegou cedo, lembra. A associação recebeu distinções e o Leça foi apresentado como referência nacional no programa ProRios pela ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho.
O futuro, diz Luísa Salgueiro, passará pela modernização das estações de tratamento e também pelo PEGA — o Plano Específico de Gestão das Águas, o primeiro do género no país. O objectivo é ambicioso: organizar durante dez a 12 anos uma intervenção integrada, avaliada em dezenas de milhões de euros, que permita recuperar o rio em profundidade e não apenas em remendos.
A doença das águas residuais
Em Leça do Balio, o rio mudou definitivamente a aparência. É outro Leça, o que todos (re)conhecem. As águas ficam mais baças, o caudal engrossa, o lixo já se acumula nas margens como cicatrizes: plásticos, pneus, sacos presos às árvores como bandeiras da decadência. “Tudo isto vai parar ao mar, se não ficar preso aqui”, diz Ivo.
Israel Pontes, presidente da associação Vamos salvar o nosso rio Leça, é a voz mais crítica. Engenheiro civil, empresário, caçador, candidato pelo Chega à presidência da Câmara de Matosinhos nas eleições de 2021, Israel invoca acima de tudo a sua preocupação como cidadão, pai de dois filhos e residente em Leça de Balio, numa casa onde às vezes não se pode sequer abrir janelas ou pôr roupa a secar por causa do cheio nauseabundo do Leça.
Na bacia hidrográfica do Leça vive perto de meio milhão de pessoas
Manuel Roberto
Artur Branco: “Um rio é a soma de tudo o que acontece à volta dele”
Manuel Roberto
Denuncia atrasos, interesses escondidos e falta de ambição. Aponta o dedo às ETAR e às descargas nocturnas que ninguém vê e chama ao Corredor do Leça “um placebo”. Garante que com metade dos mais de quatro milhões de euros que o projecto do Corredor do rio Leça recebeu e investiu “teria feito o dobro”. Converge, no entanto, num ponto essencial: sem saneamento eficaz, o Leça não recupera.
As três principais ETAR — Parada, Ermesinde e Ponte de Moreira — estão finalmente em modernização profunda. “É um trabalho invisível, mas determinante”, diz Artur Branco. Bordalo e Sá alerta para os bypasses em dias de chuva intensa, que continuam a lançar esgotos directamente no rio com consequências que se acumulam e perduram.
Na Lionesa, quase na fronteira entre a Maia e Matosinhos, as margens requalificadas mostram potencial, com caminhos pedonais, vegetação a recuperar, enrocamentos a 45 graus que garantem segurança e habitat, mas também expõem resíduos enterrados durante décadas.
“Aqui ele já levou com duas ETAR em cima”, diz Artur. Por essas e outras, há ainda muitos dias em que o mau cheiro das águas denuncia descargas acidentais ou intrusões de águas residuais em sistemas pluviais.
Décadas de descuido à tona
O projecto do Corredor retirou 250 toneladas de lixo no primeiro ciclo de intervenções. Plantou 51 mil árvores e arbustos. Requalificou dez quilómetros com engenharia natural, devolveu espaço ao rio. “Mas não podemos limpar eternamente um rio que outros continuam a sujar”, sublinha. “Cada gota de óleo, cada desgaste de pneu, cada plástico que alguém deita ao chão, cai aqui.”
Vemos o que os técnicos chamam de “passivo ambiental” — resíduos antigos enterrados nas margens, descobertos quando se abriu o agora popular percurso pedonal à beira-rio. Do leito vêm à tona caixas de manteiga dos anos de 1970 e 80, plásticos compactados, pedaços de tijolo e entulho de obras, de décadas de descuido. “Fazia-se assim: deitava-se para a zona mais baixa. E a zona mais baixa é sempre o rio”, lamenta Ivo.
O projecto do Corredor do Leça retirou 250 toneladas de lixo no primeiro ciclo de intervenções
Manuel Roberto
Qualquer cidadão pode ser guarda-rios e denunciar descragas ou outros focos de poluição
Manuel Roberto
Aqui a voz de Bordalo e Sá volta a escarafunchar na ferida: “O que vemos preso na vegetação é apenas uma parte. O que chega ao mar não vemos.”
A corrente carrega microplásticos — partículas invisíveis que resultam do desgaste de pneus, do esfarelar dos resíduos, da erosão de tudo o que a urbanização despeja. No entanto, apesar de tudo, ainda há vida. O rio move-se mais pesado, mais lentamente, mas há patos que passam entre os ramos das árvores. É hora de almoço e há muita gente no corredor que acompanha o Leça.
A transformação social é tão importante quanto a técnica. “Somos todos guarda-rios”, diz um dos slogans do projecto do Corredor do Leça. O apelo é claro: denunciar, proteger, não deixar resíduos. “A primeira limpeza é evitar que o lixo chegue ao rio”, abrevia Artur Branco.
A educação ambiental também é central. Daí o Pacto Leça 2030: empresas, juntas de freguesia, associações, grupos informais e pessoas individuais vão comprometer-se a fazer uma acção por ano — plantar, limpar, monitorizar — e voltar ao mesmo sítio nos anos seguintes. Para verem o que resultou. E o que morreu. E o que falta fazer. “Chega de voluntariado para a fotografia”, diz Artur. “Queremos voluntariado para a transformação.”
O Plano Específico de Gestão das Águas (PEGA) permitirá concorrer a um projecto europeu de entre 20 a 30 milhões de euros, para investir durante dez a 12 anos. Uma década de trabalho contínuo para rejuvenescer o rio doente que já se conseguiu começar a tratar.
O corredor junto ao rio Leça vai crescendo junto à margem e tem cada vez mais visitantes
Manuel Roberto
A gestão da água tem de ser técnica, mas também política. Adriano Bordalo e Sá é intransigente sobre o papel da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), que lhe parece ausente neste caudal de problemas por resolver: “A APA tem competências gigantescas, mas não tem meios humanos nem materiais para as cumprir. Portugal deixou de ter um Instituto da Água. Isso está errado.”
A foz: um fim sem glória
Junto ao Porto de Leixões, o rio encontra o mar sem grande espectáculo. É mais uma fusão inevitável do que uma celebração. A água não é cristalina. A paisagem não é idílica. O rio parece velho, mas não vencido.
As margens são estreitas, o rio já não tem espaço para respirar, não há lugar para o estuário ocupado pelo terminal. A água chega turva, mas chega viva. Para um rio tão castigado, isso já é uma vitória.
Sobre esta zona, Bordalo e Sá também é directo: “A foz do Leça está dentro do porto. O rio chega fortemente contaminado. Não é aceitável que continue a descarregar assim para o mar.” E sobre a recuperação possível, é contido: “Há troços que melhoraram, mas ainda há muito trabalho a fazer.”
Ao longo do dia, ao longo do rio, percebemos que há problemas profundos, estruturais, históricos. Mas também há vontade, há técnica, há ciência, há gente — sobretudo isso — que não desiste.
Lavadeiras no Rio Leça, Matosinhos, na década 1940
Andrelino Fernandes
Saída Ponte de Pedra, em Leça, na actual Rua Pinto de Araújo
“Daqui a dez anos vamos ver uma grande diferença”, promete Artur, que trabalha no Leça desde 2008. “Eu gostava de ver o final feliz deste rio. E tenho esperança.”
Perguntámos a Bordalo e Sá se também acredita num final feliz para o rio Leça. Depois de uma pausa, veio a resposta ponderada: “Se houver vontade política, sim. Mas a vontade política esbarra no dinheiro e nas prioridades. Não posso garantir um final feliz. Mas é possível.”
O biólogo deixa a maior responsabilidade entregue: “Está nas mãos dos cidadãos pressionar e exigir. Individualmente não muda nada. Colectivamente, muda.” O problema, diz, é que “nós barafustamos muito”, mas não nos unimos numa força de pressão eficaz.
Luísa Salgueiro será a voz mais confiante neste arriscado exercício de adivinhar o futuro. “A geração dos meus pais fazia passeios de barco a remo ao domingo no Leça; eu vi o rio mudar de cor de dia para dia; espero que a geração da minha filha volte a usufruir de um Leça limpo”. Que mergulhe no Leça? “Isso já depende de cada um. As águas são frias, mas sim, em condições de ter água que cumpra os parâmetros da qualidade para que isso seja possível”, admite.
Artur Branco: “Eu gostava de ver o final feliz deste rio. E tenho esperança”
Manuel Roberto
A expectativa é que, com a reabilitação das ETAR e a eliminação progressiva dessas ligações ilegais, o rio cumpra os parâmetros de qualidade no próximo ciclo autárquico. “No próximo mandato autárquico, o Leça já vai estar um rio limpo”, insiste, esclarecendo que “limpo não é sem nenhuma ligação clandestina, mas a cumprir os indicadores de qualidade”. O caminho ainda é longo, admite, mas mantém a convicção. “Sou optimista: acho que se pode sempre conseguir.”
Apesar de tudo, e independentemente de um calendário político, também ficamos a acreditar num futuro melhor para o Leça. Depois de um dia inteiro a seguir o rio, da nascente cristalina à foz agonizante, passando pelas margens urbanas doentes carregadas de resíduos, sobra a certeza que este rio ainda está vivo. Frágil, doente em muitos troços, mas vivo.
E um rio vivo pode sempre mudar. Se o deixarmos, se o quisermos. Se o ajudarmos. Se formos todos guarda-rios.