As imagens de videovigilância mostram como, na véspera do crime, Carlos Castro e Renato Seabra chegaram desavindos ao Hotel Intercontinental, às primeiras horas da madrugada, e como permaneciam zangados quando desceram para tomar o pequeno-almoço na manhã seguinte. Os emails enviados pela agência de viagens em Portugal para o Hotel Intercontinental comprovam como escassas horas antes do crime o cronista social antecipou a viagem de regresso a Lisboa. E as declarações feitas à polícia pela funcionária que, nessa tarde, às 13h48, foi ao quarto 3416 levar os novos bilhetes de avião, revelam que o jovem aspirante a modelo estava ciente de que Castro estava furioso com ele e queria voltar mais cedo para casa — mas não só.

Quando cruzadas com as imagens das câmaras de videovigilância do hotel e com os registos do telemóvel de Vanda Pires, as declarações dessa funcionária também evidenciam que, apesar de o telemóvel da vítima estar a receber uma chamada no preciso instante em que ela bateu à porta, de dentro do quarto não saiu qualquer ruído. O que significa que o telemóvel de Carlos Castro, para onde Vanda Pires tentou ligar 33 vezes na tarde do crime, já tinha sido colocado no silêncio. Já as fotografias tiradas pela polícia na cena do crime mostram que o telefone do quarto, para onde a amiga do cronista social também tentou ligar — 19 vezes, sempre através da receção do hotel —, foi por sua vez retirado do gancho.

Para a acusação, estas foram apenas mais duas evidências de que Renato Seabra sabia exatamente o que estava a fazer quando matou Carlos Castro e que, por isso mesmo, não deveria ser considerado inimputável. “Isto é ter consciência do que está a acontecer. É estar presente e responder. Não é algo que ele faria se estivesse no meio de um delírio”, defendeu a procuradora Maxine Rosenthal nas suas alegações finais. “Se ele estava tão tresloucado porque é que, durante o crime, retirou o telefone do auscultador, fechou as cortinas do quarto, roubou dinheiro à vítima e à saída colocou o sinal de ‘Não Incomodar’ na porta do quarto?”

A investigação policial recuperou um grande volume de provas materiais da cena do crime, incluindo as várias armas usadas para agredir e mutilar Carlos Castro e inúmeros vestígios de sangue (dele e de Renato Seabra), bem como vários conjuntos de impressões digitais (dos dois também).

Tudo isso foi documentado e faz parte do processo judicial. Mas, em julgamento, a questão que se colocou foi apenas esta: “No momento do crime, Renato Seabra era ou não capaz de distinguir o certo do errado?”.