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A reunião desta semana dos pesos pesados das finanças deixou uma coisa clara: a guerra no Irão colocou o mundo num novo rumo energético. Mas qual é esse rumo é motivo de forte discórdia: as nações dividem-se entre redobrar a aposta nos combustíveis fósseis ou acelerar as renováveis.
As reuniões de primavera do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, que tiveram lugar em Washington, esta semana, foram dominadas pelo impacto da guerra no Irão nos mercados da energia e na economia global.
Segundo Fatih Birol, diretor da Agência Internacional de Energia, o conflito em curso e consequente estrangulamento do fornecimento de petróleo proveniente do Médio Oriente vão redesenhar o mapa energético global. “Não vamos voltar ao ponto onde estávamos”, alertou Birol.
Mas não há propriamente consenso em relação ao rumo a seguir, nota o Politico.
Muitos dos países mais severamente afetados pela guerra dizem reconhecer os benefícios de uma transição mais rápida para as energias renováveis, de modo a evitar futuros choques relacionados com perturbações no abastecimento de petróleo.
Outros mantêm-se otimistas em relação aos combustíveis fósseis, incluindo os Estados Unidos, cujo secretário do Tesouro, Scott Bessent, aplaudiu o aumento da produção americana de petróleo e gás e apelou a menos políticas climáticas.
Responsáveis dos EUA e de outros países falaram vagamente sobre a diversificação das fontes de energia como consequência provável do encerramento do Estreito de Ormuz pelo Irão, por onde passa 1/5 do petróleo mundial e um terço dos fertilizantes.
Para alguns, isso significava desviar rotas marítimas do Golfo Pérsico. Para outros, significava encontrar petróleo e gás fora do Médio Oriente. Ou explorar reservas locais de carvão. Ou talvez reativar centrais nucleares desativadas.
Em muitos casos, significa expandir as energias renováveis para reduzir a dependência de outras nações num mundo cada vez mais fraturado e volátil.
“A história mostra-nos que uma crise desta magnitude é também um catalisador“, disse Masato Kanda, presidente do Banco Asiático de Desenvolvimento, numa sessão no Council on Foreign Relations, na quarta-feira.
Estas reflexões surge num contexto de previsões económicas sombrias. O FMI projeta um crescimento mais lento e uma inflação mais elevada, mesmo que a guerra chegue a uma conclusão relativamente rápida — um desfecho que é altamente incerto.
Os impactos serão sentidos de forma desigual, com os países de baixo rendimento e dependentes de importações a suportar grande parte do peso. Num cenário severo, em que as perturbações no abastecimento energético se prolonguem até ao próximo ano, o crescimento global poderá cair para apenas 2%, indicou o FMI.
É uma mensagem que ecoou pelos corredores das reuniões desta semana. A forma como o mapa energético mundial será redesenhado terá implicações profundas na oferta e na procura e no modo como as novas infraestruturas, tanto de combustíveis fósseis como de energia limpa, serão financiadas, diz o Politico.
Países dependentes de importações, como o Paquistão e a Tailândia, aproveitaram o momento para sublinhar o seu desejo de uma transição mais rápida para as renováveis.
O boom da energia solar em telhados no Paquistão, desencadeado em parte pelas subidas do preço do gás natural em 2022, ajudou a amortecer o impacto do atual choque de abastecimento.
“Estávamos no caminho certo”, disse Muhammad Aurangzeb, ministro das Finanças do país, num painel do FMI esta semana. “Mas é evidente que sentimos que o percurso precisa de ser acelerado“.
O ministro das Finanças da Tailândia, Ekniti Nitithanprapas, fez eco desse sentimento, apontando para os custos crescentes das importações de petróleo e gás. “Por causa do preço mais elevado agora, somos forçados a transformar-nos“.
Os apelos à diversificação têm recebido apoio do Banco Mundial e do FMI, que estão a instar os países a darem prioridade aos recursos internos, em vez de pagarem barris de petróleo cada vez mais caros e denominados em dólares.
“Frequentemente, isso significa renováveis, pelo que é provável que assistamos a um forte impulso nessa direção”, disse Pierre-Olivier Gourinchas, economista-chefe do FMI.
Para os produtores de petróleo do Médio Oriente, a transição parece menos iminente, mesmo quando se debatem com a necessidade de reparar instalações danificadas no conflito ou de retomar a produção após paralisações prolongadas.
“As pessoas querem afastar-se do petróleo e do gás há muitos anos. Não o conseguiram. Portanto, vai levar muito mais tempo“, disse ao Politico o ministro das Finanças do Qatar, Ali bin Ahmed Al Kuwari. “É tão difícil nesta fase, realmente, ter um substituto para as energias”.
A necessidade persistente de combustíveis fósseis é algo com que o presidente Donald Trump conta, enquanto a sua administração se posiciona como fornecedora fiável de petróleo, gás e carvão no contexto do conflito em curso.
Por agora, os envios de crude americano aumentaram à medida que os países se precipitam para garantir abastecimento, mas isso traz também efeitos colaterais, como a subida dos preços da gasolina.
Independentemente do que cada nação considere como solução, o refrão desta semana foi que ninguém está imune à perturbação causada pela guerra.
“Os países produtores de petróleo podem ver a conversão dos preços mais altos do petróleo em receitas mais elevadas. Isso é totalmente diferente dos países importadores de petróleo, mas também não é uma via de sentido único”, disse Adebayo Olawale Edun, ministro das Finanças da Nigéria e presidente do G24, um grupo de países em desenvolvimento.
“Os preços do gás, dos fertilizantes e dos alimentos… em ambos os lados, esta crise está a afetar os países“, salientou Edun.
John Kerry, antigo secretário de Estado dos EUA, há muito defende que são necessárias fontes de energia mais limpas para enfrentar a subida das temperaturas. Agora, a guerra poderá conduzir a esse resultado, diz Kerry.
“As maiores mudanças na energia a nível global ocorreram quando houve as maiores perturbações”, salientou o antigo secretário de Estado, que apontou o exemplo da aposta de França na energia nuclear após o embargo petrolífero árabe de 1973 e as medidas de energia limpa adotadas pela UE após a invasão da Ucrânia pela Rússia.
“É realmente preciso controlar as nossas fontes de energia”, disse Kerry. “Acredito que um desses momentos de transformação está aqui, agora”.