NOVA YORK — Autoridades de saúde dos Estados Unidos impediram a publicação de um estudo que avalia a eficácia da vacina contra covid-19 na prevenção de hospitalizações pela doença.
Um porta-voz do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA confirmou na quarta-feira, 22, a decisão de interromper a publicação, citando uma disputa sobre a metodologia do estudo.
O artigo científico seria publicado no Morbidity and Mortality Weekly Report (MMWR), a principal publicação dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC).
Novo estudo concluiu que a vacina contra covid-19 reduziu pela metade as visitas ao pronto-socorro e as hospitalizações entre adultos saudáveis. Foto: Stockbusters/Adobe Stock
Uma das maneiras pelas quais os cientistas têm estudado a eficácia das vacinas contra covid-19 é focando em pessoas doentes que foram internadas em hospitais ou procuraram atendimento em prontos-socorros. Os pesquisadores verificam se os pacientes foram vacinados e, em seguida, calculam a probabilidade de um teste positivo para covid-19 entre os vacinados em comparação com os não vacinados.
Artigos que utilizam essa metodologia foram publicados — após revisão por especialistas na área — em diversos periódicos conceituados, incluindo Pediatrics e New England Journal of Medicine.
Seguindo a mesma abordagem, o novo estudo concluiu que a vacina reduziu pela metade as visitas ao pronto-socorro e as hospitalizações entre adultos saudáveis no último inverno, de acordo com o The Washington Post, que noticiou o cancelamento em primeira mão.
Autoridades do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) não explicaram exatamente por que a metodologia era problemática nesse caso, mas argumentaram que infecções prévias, comportamento e diferenças entre quem busca atendimento médico poderiam afetar os resultados.
A comunidade científica em geral não compartilha dessas preocupações e muitos pesquisadores já utilizaram essa abordagem, segundo Fiona Havers, médica de Atlanta que já trabalhou no CDC. A metodologia foi desenvolvida para lidar com as diferenças relacionadas a quem busca atendimento médico, e infecções prévias não devem ser um grande problema, visto que muitos americanos já foram infectados pelo coronavírus, afirma ela.
Nenhum estudo é perfeito, mas as autoridades do HHS não propuseram uma alternativa “que seja realista e ética para obter estimativas em tempo real da eficácia das vacinas a cada ano”, avalia Fiona, que já liderou uma equipe de vigilância da rede hospitalar do CDC focada na covid-19 e em outras infecções por vírus respiratórios.
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Durante o primeiro mandato do presidente Donald Trump, defensores da saúde pública temiam que pessoas nomeadas politicamente estivessem tentando controlar o que era publicado no MMWR.
Essas preocupações ressurgiram no ano passado, quando Trump retornou ao cargo e a publicação do MMWR foi temporariamente suspensa. O periódico retornou, mas permanece com uma versão mais enxuta do que antes.
“Os profissionais de saúde dependem do MMWR para obter informações oportunas, objetivas e baseadas em fatos sobre a saúde pública do país”, diz o senador americano Dick Durbin, um democrata de Illinois que expressou preocupação quando as comunicações do CDC foram interrompidas no ano passado.
“Calar cientistas e médicos sobre como evitar que americanos sejam hospitalizados pode ter consequências fatais. O CDC deve abandonar os planos de impor uma censura política a essa pesquisa crucial”, defende Durbin em um comunicado divulgado na quarta-feira, 22.
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