Afinal de contas, nestes tempos de narrativas deterministas, limitadas às vulgaridades do politicamente correto, procurando a consagração dos sempre disponíveis moralismos televisivos, quem se lembraria de adaptar A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro? Quem arriscaria revisitar esse texto de 1914, enredado nas atribulações de um amor infinitamente ambíguo, exuberante e suicidário? Mais ainda: quem ousaria pôr em cena uma sexualidade alheia ao moralismo das fronteiras de género em que o nosso pobre século XXI se debate, para mais celebrando a figura de uma mulher que, decididamente, pertence a uma galeria ancestral de figuração (e celebração) do feminino?
Pois bem, Cunha Telles fez tudo isso. Não para satisfazer a moda da provocação (que, em muitos casos, passou a ser sinónimo do mais medíocre conformismo político), muito menos à procura de qualquer atualização “temática” de Mário de Sá-Carneiro. Antes porque as aventuras e desventuras de Lúcio (Ângelo Rodrigues), Ricardo (Romeu Costa) e Marta (Joana Barradas) preservam, muito para lá do tempo em que foram escritas, um gosto de romance, ou melhor, um impulso romanesco.