ESA Science Office

Ilustração artística da missão Rapid Apophis da ESA para a segurança espacial (Ramses).
A missão Ramses ao asteroide Apophis deverá ser lançada em 2028. Será a pedra angular de um programa de defesa planetária da ESA, concebido para proteger o nosso planeta do risco de colisão com objetos próximos da Terra.
Começou a contagem decrescente para o lançamento, no início de 2028, da nova missão científica da Agência Espacial Europeia (ESA), Ramses.
O objetivo do projeto, conduzido pela ESA em colaboração com a agência espacial japonesa JAXA, é estudar um dos acontecimentos astronómicos mais aguardados da próxima década: a passagem extremamente próxima do asteroide Apophis pela Terra, na sexta-feira, 13 de abril de 2029.
Nesse dia, o “Asteroide do Caos” passará pelo nosso planeta a uma distância mínima de apenas 31.600 km, inferior à altitude dos satélites de telecomunicações em órbita geoestacionária, situada aproximadamente nos 36.000 km.
Este encontro sem precedentes não passará despercebido. O Apophis será visível a olho nu em grande parte da Europa e de África, permitindo a mais de dois mil milhões de pessoas observá-lo, desde que o céu noturno esteja limpo, nota a CNRS.
Além de espetacular, “esta passagem pela Terra é também uma experiência natural crucial, que ajudará a melhorar as defesas do nosso planeta contra asteroides que possam vir a atingi-lo”, explica Patrick Michel, astrofísico no laboratório JL Lagrange, em Nice, e investigador principal da nova missão.
Uma primeira missão
Durante muito tempo confinadas ao domínio da ficção científica, as medidas preventivas contra o risco de colisão entre o nosso planeta e um asteroide tornaram-se agora realidade.
A ESA está a desenvolver desde 2019 o seu Programa de Segurança Espacial, parte do qual é dedicada à previsão e prevenção de impactos de asteroides. O objetivo é monitorizar e estudar corpos potencialmente perigosos e conceber estratégias capazes de afastar essas ameaças.
O programa já conta com uma primeira missão: a Hera. Lançada em 2024, servirá como teste à escala real da deflexão do asteroide Dimorphos, situado a cerca de 11 milhões de quilómetros da Terra, provocada pelo impacto da nave DART, da NASA. Ramses é a segunda missão do programa.
Além da Ramses, também a missão OSIRIS, da NASA, marcou encontro com o Apophis. A sonda OSIRIS-Rex, que foi visitar o asteroide Bennu, não perdeu tempo, e já está a caminho do Asteroide do Caos — agora com o nome de OSIRIS-APEX.
Um asteroide do tamanho da Torre Eiffel
O Apophis é um objeto próximo da Terra, um asteroide cuja órbita em torno do Sol cruza ocasionalmente a órbita terrestre.
“Objetos deste tipo podem, potencialmente, colidir com o nosso planeta”, afirma Benoit Carry, astrónomo assistente e especialista em asteroides no Observatoire de la Côte d’Azur, também em Nice.
Outra característica distintiva do Apophis é o facto de ser um asteroide relativamente grande. Tem cerca de 330 metros de diâmetro, equivalente à altura da Torre Eiffel, e uma massa estimada entre 40 e 50 milhões de toneladas.
“A aproximação de um corpo tão grande ao nosso planeta é um acontecimento raro, que só ocorre uma vez a cada poucos milhares de anos”, sublinha o astrónomo. Além disso, o Apophis desloca-se a uma velocidade muito elevada: cerca de 12 km por segundo.
Se um objeto deste tipo atingisse a Terra, “formaria uma cratera oito a dez vezes maior do que o seu próprio tamanho, ou seja, com cerca de 2,5 km de diâmetro”, explica Carry.
“Seria suficiente para causar uma grande catástrofe se atingisse uma zona urbana, ou um tsunami devastador se caísse no oceano. Isto sem contar com a enorme quantidade de poeiras que seria projetada para a atmosfera e provocaria um arrefecimento do clima”.
Segundo Michel, “os danos teriam a escala de um país inteiro”.
“Uma oportunidade científica única”
Pouco depois de o Apophis ter sido descoberto, em 2004, por investigadores da Universidade do Havai, nos EUA, especializados no estudo de asteroides, os astrónomos calcularam que havia uma probabilidade de 1 em 37, ou 2,7%, de o asteroide atingir a Terra em 2029.
Foi “a maior probabilidade de colisão alguma vez estimada para um asteroide”, afirma Carry, razão pela qual recebeu o nome de Apophis, o deus egípcio do caos e da destruição.
Felizmente, nas semanas seguintes, observações e cálculos mais precisos afastaram qualquer risco de colisão do asteroide, não apenas em 2029, mas também durante pelo menos mais um século.
Assim, se a passagem muito próxima de Apophis pela Terra em 2029 já não representa perigo, por que razão estudá-lo?
“Porque nos oferece uma oportunidade científica única para compreender melhor as propriedades físicas do asteroide (a sua massa, densidade, porosidade, estrutura interna, entre outras) e a forma como estas evoluem em resultado da atração gravitacional da Terra”, explica Michel.
Na verdade, os investigadores esperam que, quando os dois corpos estiverem muito próximos, as forças de maré provocadas pela gravidade terrestre estiquem e comprimam o Apophis.
Isto poderá desencadear deslizamentos na superfície do asteroide, ou até vibrações internas. Além disso, a sua órbita e o seu período de rotação deverão sofrer ligeiras alterações.
“Além de melhorar a nossa compreensão dos asteroides, o estudo das propriedades e do comportamento de Apophis no ponto de maior aproximação à Terra poderá também ajudar a definir as melhores estratégias para neutralizar estes objetos potencialmente perigosos”, acrescenta Michel.
“Por exemplo, medir a sua resposta a forças externas, neste caso representadas pelas forças de maré da Terra,— e determinar o seu grau de porosidade, ou seja, perceber se o seu interior contém muito espaço vazio ou não, ajudará a calcular a força necessária para atingir um corpo semelhante e desviá-lo eficazmente da trajetória da Terra”.
Na prática, a missão assentará numa nave espacial com 2 metros de largura, cujo desenho será inspirado no da sonda Hera.
“Tal como a Hera, a Ramses será composta por uma nave principal e 2 satélites miniaturizados cubesat, cada um com 12 quilos, um dos quais será colocado perto de Apophis, enquanto o outro aterrará no asteroide”, explica Michel.
Para atingir os seus objetivos, a Ramses transportará vários instrumentos. Um deles é uma câmara hiperespectral, capaz de captar imagens utilizando um grande número de bandas espectrais adjacentes, o que permitirá determinar a composição química do asteroide.
Também um espectrómetro de plasma analisará o ambiente de partículas carregadas em torno do asteroide, associado à sua passagem pela magnetosfera terrestre, a região do espaço sob influência do campo magnético do nosso planeta.
O cubesat concebido para ser colocado perto de Apophis transportará um detetor e analisador de poeiras capaz de determinar a sua composição química, bem como um radar de baixa frequência, que sondará o interior do asteroide.
Já o cubesat destinado a aterrar no asteroide será equipado com um gravímetro, para medir o seu campo gravitacional, e com um sismógrafo, para analisar a propagação de ondas sísmicas e revelar a estrutura interna deste corpo celeste.
A missão DART, da NASA, já demonstrou que é possível desviar um asteroide numa potencial rota de colisão com a Terra. A Ramses, da ESA, vai agora tentar determinar se, e de que forma, poderíamos fazê-lo com um monumental corpo celeste, como é o caso do “Asteroide do Caos”.