O escritor Benjamin Moser diz que se mudar para um país desconhecido é como passar a viver em um mundo invertido.

“No começo, você não sabe para onde olhar. Não sabe onde está nem o que está olhando. Não sabe nem por onde começar”, ele escreve na introdução de “O Mundo de Ponta-cabeça” (Companhia das Letras), publicado em inglês em 2023 e agora lançado no Brasil.

Quando tinha 25 anos, Moser deixou Nova York e foi morar na Holanda. Para lidar com a condição de estrangeiro, começou a olhar para a pintura da Idade de Ouro do país —percorrendo galerias e museus, se deparou com obras de Rembrandt, Vermeer e outros grandes pintores do século 17.

A curiosidade com esses artistas virou obsessão e, duas décadas depois, deu origem ao livro, que explora a vida e a obra de quase 20 deles, mas, sobretudo, a sua experiência de descobrir esses artistas e entender melhor o mundo invertido em que estava vivendo.

Neste episódio, o escritor fala sobre as circunstâncias históricas do período em que os pintores viveram e defende que é impossível separar a obra e a vida de um artista.

Moser, conhecido pelas biografias de Clarice Lispector e Susan Sontag, diz que tanto a trajetória das duas escritoras quanto a dos mestres holandeses lembra que nenhum artista sabe o destino que vai ter —um talento extraordinário não é suficiente para prosperar, e as chances de fracassar ou terminar a vida na miséria são enormes.

Ninguém sabe o destino que vai ter, e todo o mundo está tentando com uma grande chance de fracasso. Eu apostava em mim mesmo durante três horas por semana e, no resto da semana, estava completamente sem rumo. Então, me grudei a esses artistas holandeses. O que me interessava era o drama pessoal dessa gente. Todo tiveram, e o artista menor não teve menos drama na vida que o Vermeer. Todo o mundo passa por essas dúvidas e essas tormentas e muitos fracassam

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O podcast entrevista, a cada duas semanas, autores de livros de não ficção e intelectuais para discutir suas obras e seus temas de pesquisa.

Já participaram do Ilustríssima Conversa João Paulo Charleaux, jornalista que examina a história do direito de guerra, Rita Carelli, que conta a história de um missionário assassinado na amazônia e do povo indígena enawenê-nawê, Uirá Machado, biógrafo do enxadrista Mequinho, Vladimir Safatle, filósofo que analisa a emergência do fascismo no mundo contemporâneo, Elvia Bezerra, pesquisadora da obra de Manuel Bandeira, Leonardo Avritzer, para quem Bolsonaro tentou dar um golpe de Estado no fim do seu mandato, o arquiteto Gabriel Weber, autor de livro sobre a chamada linha do inferno do Rio de Janeiro, Rosane Borges, que discutiu como mulheres negras enfrentam o imaginário racista, a chef Bel Coelho, autora de obra sobre a cultura alimentar da amazônia, o sociólogo Reginaldo Prandi, pesquisador das religiões afro-brasileiras, entre outros convidados.

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