O câncer em cães e gatos tem sido identificado com mais frequência nos consultórios veterinários, inclusive em animais mais jovens. O avanço dos exames, a maior procura por check-ups e a atenção dos tutores ajudam a detectar a doença mais cedo, um fator decisivo para ampliar as possibilidades de tratamento e, em alguns casos, de cura.

No Espírito Santo, especialistas observam que a doença não atinge apenas animais idosos, mas tem se manifestado de forma precoce, exigindo atenção redobrada aos sinais clínicos e mudanças de comportamento que podem passar despercebidos no dia a dia.

De acordo com Bruna Voltolin de Sena, veterinária especializada em oncologia e medicina felina da Oncoduo (Instituto de Oncologia Veterinária), a conscientização sobre o check-up anual é o principal divisor de águas para o sucesso do tratamento.

A gente tem mais possibilidades terapêuticas, sem dúvida, e a maior chance de cura também. Porque, às vezes, é um tumor que tem cura, mas por estar avançado, ele não tem mais cura. A gente perde essa possibilidade.

Bruna Voltolin de Sena, oncologista veterinária

Sinais de alerta e sintomas silenciosos

A oncologista alerta que, diferente do que muitos acreditam, o câncer nem sempre se manifesta como um nódulo visível. Muitos tumores são silenciosos ou “mimetizam” outras patologias comuns.

Um câncer de bexiga, por exemplo, pode ser confundido com uma cistite, enquanto um tumor intranasal apresenta sintomas similares aos de uma gripe, como espirros e secreção.

Os tutores devem ficar atentos a sinais inespecíficos, como:

  • Mudança de comportamento (animal mais isolado ou apático);
  • Alteração no apetite;
  • Vômitos frequentes (especialmente em gatos);
  • Diarreia ou sangue nas fezes;
  • Mudanças na urina (volume, cor ou odor);
  • Nódulos pelo corpo;
  • Feridas que não cicatrizam;
  • Inchaços ou aumento de volume em regiões do corpo;

Para as fêmeas, a recomendação é o autoexame constante das mamas. “Qualquer grãozinho de arroz já é sinal de alerta”, pontua a veterinária.

Já nos machos, os tumores de pele, como o mastocitoma cutâneo, lideram as estatísticas de atendimento.

Bruna Voltolin de Sena, especialista em oncologia veterinária, alerta para sinais silenciosos do câncer em cães e gatos e destaca a importância do diagnóstico precoce. Foto: Acervo Pessoal

Predisposição racial e fatores de risco

A genética desempenha um papel crucial. De acordo com a médica, raças como golden retriever, boxer e bulldogue francês possuem predisposição superior a desenvolver neoplasias.

No caso dos goldens, a especialista recomenda que exames de rastreio, como ultrassonografias de baço, comecem já aos dois ou três anos de idade, muito antes do padrão adotado para outras raças.

Nos felinos, o alerta principal vai para o vírus da FELV (Leucemia Felina), que é altamente oncogênico e pode desencadear linfomas e leucemias em animais muito jovens. A prevenção, neste caso, envolve manter o animal telado e sem acesso à rua.

Outro fator de risco comprovado e muitas vezes ignorado é a exposição solar. Animais de pele clara ou pelagem rala podem desenvolver carcinomas. A especialista alerta que o uso de protetor solar pet em áreas como nariz e abdômen é uma medida preventiva eficaz e necessária.

Tipos de câncer mais comuns em pets

A incidência varia conforme a espécie, idade e até características genéticas.

  • Gatos idosos: linfoma intestinal;
  • Gatos jovens: tumores associados ao vírus da leucemia felina (FELV);
  • Cadelas: tumor de mama (um dos mais frequentes);
  • Cães machos: tumores de pele, como o mastocitoma.

Castração exige avaliação individualizada

Quando o assunto é prevenção, a castração costuma ser apontada como medida importante, mas, segundo a especialista, o tema exige atenção.

“A castração e o tumor de mama de cadelas, ela só previne até o terceiro cio; depois, ela não tem mais função de prevenir”, explica.

A médica veterinária destaca que a decisão deve considerar fatores como raça, porte e momento ideal do procedimento.

Segundo ela, estudos recentes apontam que, em alguns casos, a castração precoce pode aumentar o risco de desenvolvimento de outros tumores, além de estar associada a possíveis alterações articulares.

Entre as raças que exigem atenção está o golden retriever, que pode demandar uma avaliação ainda mais criteriosa antes da indicação do procedimento.

A orientação, portanto, é evitar decisões generalizadas e buscar avaliação veterinária individualizada, levando em conta as características de cada animal.

Tratamentos e a realidade no Espírito Santo

Embora o Estado possua limitações tecnológicas em comparação a grandes centros como São Paulo, a medicina veterinária capixaba oferece alternativas de cuidado, tais como:

  1. Cirurgia: o “carro-chefe” para tumores operáveis;
  2. Quimioterapia: essencial para casos de linfomas e leucemias;
  3. Eletroquimioterapia: técnica que utiliza estímulos elétricos para potencializar a morte de células malignas, muito utilizada em tumores locais.

A oncologista reforça que, na medicina veterinária, o foco principal é a qualidade de vida.

“O oncologista está ali para melhorar a qualidade de vida e indicar o tratamento que faça sentido para o pet e para a família”, afirma a especialista, desmistificando o medo que muitos tutores têm de procurar o especialista e enfrentar o tratamento.

A especialista explica que, no passado, muitos animais chegavam às clínicas já em estágio avançado da doença. Hoje, a realidade começa a mudar.

“Os tutores estão mais atentos e não esperam o animal passar mal para procurar atendimento. Isso permite detectar o câncer mais cedo”, destaca.

A recomendação final para garantir a saúde do animal é manter visitas regulares ao veterinário: uma vez por ano para animais jovens (até 6 anos) e a cada seis meses para pets seniores.

O diagnóstico precoce continua sendo a ferramenta mais poderosa para prolongar a vida dos companheiros de quatro patas.

*Texto sob a supervisão da editora Erika Santos