A BMW surpreendeu no Salão Automóvel de Pequim deste ano com um conceito que transforma o capô num ecrã animado. Depois de anos de testes, a tecnologia E Ink começa finalmente a ganhar forma para produção em série.
Quem acompanha a BMW há alguns anos sabe que a marca alemã tem estado a explorar uma ideia que parece saída de um filme de ficção científica: carros que mudam de cor.
A aventura começou em 2022, no Consumer Electronics Show, com o BMW iX Flow, um SUV elétrico coberto de uma película com milhões de microcápsulas que respondiam a sinais elétricos, alternando entre branco e preto.
Na altura, o resultado era visualmente apelativo, mas tecnicamente rudimentar. Dois tons, dezenas de segmentos visíveis, complexidade de fabrico elevada. Era mais uma montra do que um produto.
Entretanto, a BMW apresentou o i5 Flow Nostokana, com cores e padrões mais elaborados, conforme recordado pelo Autoblog, e, depois, o i Vision Dee, um conceito que estreou em Las Vegas com 240 segmentos de E Ink em cores variadas, dando ao carro uma aparência quase digital.
Apesar da clara ambição, a viabilidade industrial continuava a precisar de dar provas.
BMW focou-se no capô do iX3
Agora, com o iX3 Flow Edition apresentado no Salão Automóvel de Pequim 2026, a abordagem mudou radicalmente. Em vez de tentar cobrir o carro inteiro, a BMW focou-se num único painel: o capô.
A grande novidade técnica do iX3 Flow Edition não é apenas estética, mas estrutural. Em vez de colar uma película de E Ink por cima do painel, a BMW integrou o sistema eletroforético diretamente na estrutura do capô, melhorando a durabilidade, simplificando o fabrico e aproximando a tecnologia das exigências de produção em série.
O sistema oferece oito animações pré-configuradas, selecionáveis com o toque de um botão. No Salão Automóvel de Pequim, a BMW usou uma das animações para mostrar uma imagem pixelizada do horizonte de Xangai, um gesto simbólico para o mercado local, mas também uma prova de que a precisão da tecnologia aumentou consideravelmente.
Ainda que a paleta continue limitada a tons de cinzento, a capacidade de animação em tempo real é uma novidade significativa.
Num comunicado, a BMW descreve o veículo como uma demonstração da “prontidão da tecnologia para a produção em série”.
Quais os benefícios práticos deste espetáculo visual?
Além da componente visual, a tecnologia pode trazer vantagens concretas no dia a dia.
Uma superfície mais clara em dias de sol intenso reflete mais luz solar, reduzindo a temperatura no interior do habitáculo e, consequentemente, a carga sobre o ar condicionado.
No sentido inverso, uma superfície mais escura em dias frios absorve mais calor, reduzindo o esforço dos sistemas de climatização.
Apesar de modestos, são ganhos de eficiência reais, que ganham particular relevância num veículo elétrico.
O novo BMW Série 7, o novo BMW iX3 e o novo BMW i3. Crédito: BMW
Entretanto, o iX3 Flow Edition foi apresentado numa versão que não é comercializada na China, sugerindo que a BMW poderá levar este conceito a outros salões pelo mundo fora, incluindo nos Estados Unidos e na Europa.
A concorrência não dorme
A BMW não está sozinha nesta corrida. Desde a estreia do iX Flow, a Porsche registou várias patentes relacionadas com a mudança de cor em elementos da carroçaria.
Por sua vez, a Ferrari implementou o E Ink no Luce EV, apenas no porta-chaves, para já, que serve de chave de arranque.
Esta adoção, ainda que lenta especialmente pela sua complexidade técnica, mostra que a tecnologia interessa às melhores marcas do mundo.


