A Galp Energia tem vindo a reforçar os stocks de armazenamento e a antecipar as compras de jet fuel, num cenário de escassez do combustível para a aviação devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz. Sinalizando que não há “razões para alarme”, o co-CEO (presidente executivo) da Galp diz ao Observador que já existem sinais de redução da procura de combustível da aviação na Europa.
Esses sinais ainda não se sentem em Portugal, mas João Diogo Marques da Silva antecipa uma correção no consumo de combustíveis rodoviários depois “da corrida às bombas” que se verificou no mês março quando os clientes anteciparam abastecimentos para mitigar o impacto das fortes subidas e também devido ao receio da falta de produto.
Ao contrário de outros combustíveis, como a gasolina e o gasóleo, para os quais a produção da Galp é “basicamente equilibrada”, no jet fuel, a “produção é curta. “Produzimos cerca de 80% do jet que vendemos e abastecemos cerca de 80% do jet em Portugal”, afirma o co-presidente executivo da Galp. João Diogo Marques da Silva indica que a “Galp precisa de importar jet de forma consistente entre 15% e 25% das necessidades do país”.
Face às preocupações relativas ao abastecimento deste produto à Europa, a Galp tem procurado aumentar os inventários de jet para minimizar a exposição no curto prazo. “O jet importa-se um mês e meio antes dele ser necessário. Temos antecipado as compras de jet e de crude”, refere. O co-CEO da Galp reafirma uma mensagem de tranquilidade: “Em Portugal, não vemos razões para alarme. Temos jet para abastecer o mercado para o próximo mês e meio a dois meses.”
O Governo já manifestou publicamente que não antecipa problemas no abastecimento pelo menos até meados de agosto.
As importações de jet vêm da Ásia, sobretudo do Extremo Oriente, e a Galp tem uma “exposição muito limitada” ao Médio Oriente, já que o petróleo e o gás natural têm origem na Bacia do Atlântico, em particular no Brasil, África Ocidental e Mediterrâneo.
Segundo o gestor da Galp, já se sente uma redução da procura nos mercados internacionais pelo jet da aviação, em resultado do cancelamento de voos por parte de várias companhias aéreas europeias. Mas em Portugal, “ainda não tivemos impacto”.
Em declarações feitas no dia em que Galp apresentou os resultados do primeiro trimestre, João Diogo Marques da Silva antecipa uma correção no consumo de combustíveis depois de ter havido um crescimento no mês de março, apesar da forte subida dos preços. “No gasóleo e na gasolina presenciámos uma antecipação do consumo no final de março que vai-se neutralizar ao longo do mês de abril. As pessoas pensam que os preços vão aumentar, receiam que os produtos acabem. Há uma corrida às redes, estações de serviço.”
A Galp reforçou os stocks para responder a essa procura. A rede não teve praticamente roturas e avançou com uma promoção ao nível dos preços para reforçar a competitividade da oferta de combustíveis rodoviárias. “Temos hoje a campanha mais competitiva no mercado que praticamente faz offset (compensação) da subida de preços.”
João Diogo Marques da Silva reconhece que existem diferenças entre o mercado espanhol e português que explicam porque é que os consumos do outro lado da fronteira não tiveram a mesma oscilação. “O mercado espanhol ajusta preços diariamente. O mercado português ajusta preços semanalmente. Tipicamente, as pessoas [em Portugal] esperam pelo final da semana. Há uma dinâmica muito transparente sobre a forma como o preço é construído e as pessoas sabem automaticamente à sexta-feira qual será a variação que vamos ter na semana seguinte. E é esse dia que as pessoas podem tomar a decisão de abastecimento. Em Espanha é diferente. A decisão é tomada diariamente”.
O co-CEO da Galp desvaloriza o efeito de uma maior redução de impostos sobre os combustíveis praticada em Espanha no comportamento dos consumidores. Mas reconhece que essa “diferença fiscal significativa tem impacto junto à fronteira. O que acontece nestas alturas é que a corda de abastecimento junto à fronteira alarga-se.” Ou seja, há mais portugueses a fazerem distâncias maiores para irem abastecer a Espanha.
Ao contrário de Espanha que baixou o imposto petrolífero até ao limite permitido pela UE e que aplicou taxa de IVA mais baixa nos combustíveis, em Portugal a intervenção fiscal limitou-se a anular os ganhos que o Estado teria nos impostos com a subida dos preços e o Governo já começou a corrigir o desconto (aumentando o imposto).
A Galp reafirma o objetivo de fechar um acordo até ao final do primeiro semestre para uma parceria com a espanhola Moeve nos negócios da distribuição ibérica e industrial. A operação dará origem a duas novas empresas com os ativos destas áreas. Na empresa industrial, onde será integrada a refinaria de Sines, os acionistas da Galp terão uma participação minoritária.
Não obstante a crescente preocupação com os temas do abastecimento energético e da natureza estratégica da única refinaria portuguesa, Maria João Carioca, co-CEO da Galp, defende que o negócio em cima da mesa “tem muitos ângulos positivos e neste contexto esses ângulos estão a ser mais valorizados. Se alguma coisa, sentimos que a operação vem em muito bom tempo e é muito positiva”.
Longe de tirar força ao negócio da fusão, a atual crise internacional no setor dos combustíveis “pode resultar num reforço significativo da solidez e da consistência estratégica desses ativos”. Quer do lado da Galp e dos seus acionistas, quer do lado da Moeve e dos seus acionistas, “há um entendimento a longo prazo de que a parceria vai permitir que cada um destes ativos no retalho e industrial possa fazer o seu caminho de transição de uma forma mais otimizada e consistente com o que a Europa tem vindo a discutir para o que é a sua visão para este tipo de plataforma”.
A um dia de se assinalar um ano após o apagão de 28 de abril, o Observador questionou os dois gestores da Galp sobre se a empresa estava a ponderar pedir uma indemnização. A maior empresa ibérica do setor, a Repsol, anunciou a intenção de reclamar 125 milhões de euros pelos danos sofridos nas instalações industriais.
Sinalizando que a “Galp defende sempre os seus interesses”, os dois gestores optaram por não comentar essa possibilidade. “Estamos sempre muito mais empenhados em garantir que se alguma vez se voltar a repetir temos os canais abertos e as soluções para que quaisquer impactos possam ser os mínimos possíveis”, afirmou Maria João Carioca destacando o “caminho construtivo”, mas sem esclarecer se a Galp poderia avançar com algum pedido de compensação por danos na área industrial e de distribuição em Portugal e Espanha.