O irmão diz-se descrente das ajudas, mas, ainda assim, foi à “conversa aberta” promovida pela CML a 19 de março. “Eram bué senhoras, assim como vocês, e dois polícias, mas daqueles com a farda verde. Um deles disse-me: ‘Mostra-me lá o que tens na bolsa’”, recapitula, indignado. “Eles pensam que as pessoas vêm para aqui drogar-se”, continua ela. “Antes vinham para aí dar no balão, faziam barulho, mas agora não”, assegura.
“As pessoas que moram aqui respeitam cada um o seu espaço. Ninguém vai fazer barulho para aqui ou para ali. Cada um no seu canto, dizemos bom dia, boa tarde, é bué tranquilo”, corrobora o namorado da jovem, que encontramos num outro dia, pela manhã. Também ele vem de um passado difícil, para simplificar o que é complexo. Aquilo de que fugiu em casa da mãe, ainda menor, voltou a encontrar na do avô, que não designa por esse nome. “O pai da minha mãe namora com uma pessoa… Nem é pessoa, é uma queimada que dá na pedra. Saí de casa por causa disso. Partia a casa toda”, diz-nos o rapaz de 18 anos, enquanto brinca com um isqueiro. Já tinha dormido em vários sítios quando encontrou poiso na escola. “Descobri isto porque ia tomar banho [ao balneário], apanhei o autocarro e vi: ‘Olha esta cena buéda grande.’ E vim cá ver.”
“Já estive aqui, já bazei, já voltei de novo. Já tive bué spots nesta escola. Mas sempre que arranjava sítio melhor, mudava, spots de outras pessoas.” Há meia dúzia de meses que está num espaço com a namorada e o irmão dela. Usa uma cortina para dividir os dois supostos quartos. “Cozinho aí, vou ao Google, vejo como se faz”, explica. Fala com alguma família, pouca. “Falo com a minha tia, mando-lhe vídeos a fazer comida. A minha avó também sabe que eu estou aqui… Às vezes custa, olhas para o fogão e pensas: onde é que está a minha avó nestas alturas?”
“Tenho cadeado, corrente e o cão, e o cão morde”. Di-lo como quem enumera garantias, como se cada palavra acrescentasse mais um fecho à porta. Assegura que não há problemas, que ali está tudo controlado. “Só à noite é que é um bocadinho estranho. Bué barulho. Juro que à noite esta escola é bué estranha. Tranco-me em casa de uma maneira…” A casa é “dele” — é ele quem fecha, quem verifica e, quem decide, dos três, não nos deixar entrar. Falamos nos corredores da escola sobre o elefante na sala. “Nunca disseram que isto ia ser fechado e que as pessoas iam ter de sair. Disseram só que um dos barracões ia ser para uma festa”, começa por dizer. “Passado uns tempos, começaram aí uns rumores que era para sair daqui. Depois tivemos a confirmação quando apareceu aí a polícia a dizer isso.”
No final de março, estavam cerca de 25 pessoas a viver permanentemente na Escola Afonso Domingues, pelos relatos ouvidos pelo Observador junto de diversas fontes no local. “Só bazaram agora por causa destes placards. Ainda há duas semanas estávamos todos aqui”, diz o jovem.