Os riscos em torno de um aumento da inflação e de um abrandamento do crescimento económico “intensificaram-se” nas últimas semanas, mas o impacto da guerra no Médio Oriente terá para a economia global mantém-se, para já, incerto, dependendo da duração do conflito e da crise energética que dele está a resultar. O Banco Central Europeu (BCE) decidiu, por isso, voltar a aguardar por sinais mais claros quanto aos efeitos económicos destes eventos e manter as taxas de juro inalteradas em 2%.

No final da reunião do conselho de governadores, realizada nesta quinta-feira, os responsáveis da autoridade monetária divulgaram a decisão que já era esperada pela maioria dos analistas: a taxa de juro de depósito do BCE, que serve como principal referência para os custos de financiamento na zona euro, vai continuar nos 2%, valor em que se mantém desde Junho do ano passado.

A justificar a decisão, esclarece o BCE em comunicado, está a incerteza em torno dos próximos tempos. “Embora a informação recebida esteja a ser consistente com a avaliação feita anteriormente pelo conselho de governadores quanto às perspectivas de inflação, os riscos ascendentes para a inflação e riscos negativos para o crescimento intensificaram-se. O conselho de governadores está comprometido em definir uma política monetária para garantir que a inflação estabiliza na meta de 2% a médio prazo”, começa por referir o banco central.

Contudo, reforça, o desfecho da actual crise é incerto. “A guerra no Médio Oriente levou a uma subida acentuada dos preços da energia, impulsionando a inflação e pressionando a confiança económica. As consequências da guerra para a inflação e actividade económica de médio prazo vão depender da intensidade e duração do choque nos preços da energia e da escala dos seus efeitos indirectos. Quanto mais tempo durar a guerra e os preços da energia se mantiverem elevados, mais forte é o provável impacto sobre a inflação e a economia”, aponta o comunicado.

O BCE sublinha, ainda assim, que está “bem posicionado para navegar a actual incerteza”, lembrando que a zona euro enfrenta este período de subida significativa dos preços da energia com uma inflação a rondar os 2% e a economia a demonstrar “resiliência” nos últimos trimestres. Assim, o banco central mantém as previsões para a inflação de longo prazo, embora as expectativas para a inflação no curto prazo tenham “aumentado significativamente”.

A instituição liderada por Christine Lagarde termina salientando que irá “monitorizar de perto a situação” e adoptar uma postura de decisão “reunião a reunião”, de forma a implementar a política monetária mais adequada. “As suas decisões relativas às taxas de juro serão baseadas na sua avaliação quanto às perspectivas da inflação e aos riscos relacionados com este indicador”, conclui, ressalvando que não se compromete com qualquer rumo de política monetária.

A decisão agora anunciada pelo BCE está em linha com a posição que tem sido assumida por outros bancos centrais, como a Reserva Federal norte-americana ou o Banco de Inglaterra, que também aguardam por mais desenvolvimentos da guerra no Médio Oriente. A explicar o compasso de espera está o facto de esta guerra poder obrigar a acções de política monetária opostas, dependendo do cenário que dela resulte: por um lado, a crise energética poderá levar a uma nova escalada da inflação, o que conduziria os bancos centrais a aumentarem as taxas de juro para fazer abrandar o consumo e o investimento; por outro, a travagem da actividade económica que também poderá ser suscitada pela guerra, que, tradicionalmente, faria com que os bancos centrais descessem as taxas de juro, de forma a evitar uma recessão.