
Já foi provado que funciona — pelo menos, com tomate cherry.
Parapeitos, bancos, estátuas, automóveis, passeios e, no pior dos cenários, no nosso cabelo. Os excrementos das pombas estão por todo o lado nas zonas urbanas.
Muita gente não gosta delas — até lhes chamam “ratos com asas” num tom depreciativo. Outras alimentam bandos e fazem-nos ir ficando.
Segundo especialistas, o problema não está na existência dos pombos em si, mas na sua concentração desmesurada: não se deve “criminalizar” estas aves, sublinha Xabier Cabodevilla, investigador da Universidade do País Basco, ao El Confidencial.
Embora o perigo sanitário não seja considerado extremo, há riscos. As fezes de pombos podem conter bactérias causadoras de problemas gastrointestinais, como Campylobacter, Listeria, Salmonella ou Yersinia, além de fungos e parasitas. Crianças, pessoas imunodeprimidas ou quem tenha contacto direto com excrementos em parques e ruas são grupos particularmente vulneráveis.
Há também um problema material. Ao contrário dos mamíferos, as aves não eliminam urina e fezes separadamente. Tudo sai pela cloaca, numa mistura que contém ureia e compostos ácidos, visíveis na parte branca das dejeções. Essa acidez torna os excrementos altamente corrosivos, capazes de danificar a pintura de automóveis e degradar pedra, metal e elementos do património histórico.
De cocó a algo útil
Perante tanta matéria orgânica perdida pelas ruas, seria tentador imaginar uma utilização útil: transformar os excrementos em fertilizante.
Afinal, as fezes de aves são usadas há séculos na agricultura. O exemplo mais conhecido é o guano, acumulado por aves marinhas em ilhas e zonas costeiras, rico em azoto, fósforo e potássio. A sua importância chegou a ser estratégica ao ponto de estar ligada à Guerra do Pacífico, no século XIX, envolvendo Chile, Bolívia e Peru.
Mas o excremento de pombo, é outra história. Em teoria, a sua composição poderia torná-la útil como adubo. Mas na prática, há obstáculos difíceis de ultrapassar.
O grande problema está na recolha. Nas ruas, as fezes misturam-se com pó, pedras, sujidade, resíduos urbanos e contaminantes. Esse material deixa de ser apenas matéria orgânica e passa a integrar um “cocktail” difícil de controlar.
Para a compostagem ser viável, seria necessário concentrar grandes quantidades de resíduos num local controlado — precisamente o tipo de concentração de pombos que as cidades devem evitar. A situação é diferente em pombais ou explorações avícolas, onde os excrementos de aves, como galinhas, estão centralizados e “puros”.
A utilização caseira também não é recomendada. Aplicar diretamente fezes de pombo em vasos ou jardins pode representar um risco tanto para as plantas como para as pessoas, alertam os especialistas.
Ainda assim, a ideia já foi testada em França. Em 2012, em Paris, o designer Jean-Sébastien Poncet propôs a criação de pombais urbanos de terracota para recolher excrementos e transformá-los em adubo, num projeto artístico chamado Guano de Paris.
Anos mais tarde, investigadores franceses comprovaram em ensaio científico que este cocó pode ter potencial fertilizante. Num estudo publicado em 2023, plantas de tomate cherry cultivadas num terraço em Ivry-sur-Seine, perto de Paris, cresceram mais depressa e floriram mais quando receberam excrementos de pombo diluídos em água. A diferença esteve no tratamento: o guano foi esterilizado a 121 graus Celsius e sob pressão durante 20 minutos, para eliminar potenciais patógenos.