Sobreviver a um enfarte do miocárdio não significa o fim do perigo. A ciência estima que 20% dos doentes sofre um novo evento logo no primeiro ano, mesmo com terapêutica. A janela crítica exige vigilância
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Receber alta depois de um enfarte do miocárdio traz, para muitos, uma sensação de alívio. Quase como um regresso à vida normal. Mas a verdade, aquela que os números teimam em lembrar, é que o coração continua frágil e o perigo espreita. Estima-se que uma em cada cinco pessoas venha a sofrer um novo evento cardiovascular – outro enfarte, um acidente vascular cerebral, angina instável ou a necessidade de revascularização – ainda no primeiro ano pós-enfarte. E o mais desconcertante é que isto acontece mesmo quando o doente cumpre direitinho a terapêutica recomendada.
Os especialistas chamam a isto risco residual. Um nome quase técnico para uma realidade teimosa: apesar de se controlarem fatores como o colesterol LDL (o tal “mau”), os mecanismos inflamatórios e a aterosclerose permanecem activos, silenciosos, progressivos. E muitas vezes subestimados. O Prof. João Morais, cardiologista com reconhecimento dentro e fora de portas, é taxativo: “Sobreviver a um enfarte é apenas o primeiro capítulo da história. O risco de incapacidade e de morte continua real, mesmo quando todos os parâmetros parecem controlados.” E remata: “Quanto mais cedo intervirmos, melhor será o prognóstico.” Não é conversa de alarmista. É o estado da arte.
Há doentes particularmente vulneráveis, como os que têm diabetes ou insuficiência renal. Mas nem só eles. Mesmo quem não apresenta essas comorbilidades enfrenta um risco significativo de morbilidade e morte, com impacto pesado na qualidade de vida. O que nos traz a um ensaio clínico que mudou algumas convicções: o REDUCE-IT. Mais de oito mil doentes com doença cardiovascular estabelecida ou diabetes, todos a tomar estatinas e com o LDL controlado, receberam 4 gramas diárias de eicosapente de etilo – uma forma purificada de ácido gordo ómega-3. Resultado: redução de 25% nos eventos cardiovasculares major face ao placebo. Traduzindo em números práticos: é preciso tratar apenas 21 doentes para evitar um evento. Um dos melhores resultados já vistos em terapêutica adjuvante às estatinas.
E não é só uma questão de vidas poupadas ou de sofrimento evitado. A coisa também tem peso económico. Menos enfartes significam menos intervenções coronárias percutâneas, menos cirurgias de revascularização, menos internamentos repetidos, menos incapacidade prolongada. O Sistema Nacional de Saúde agradece, claro, mas os primeiros a ganhar são os próprios doentes e as suas famílias.
A evidência, aliás, tem vindo a acumular-se: doentes com enfarte prévio ou síndromes coronárias agudas recentes – justamente aqueles que saem do hospital a pensar que o pior já passou – beneficiam de forma consistente com esta abordagem. O enfarte não acaba na porta da unidade de cardiologia. Os primeiros meses são críticos. Agir cedo, de forma dirigida, pode evitar sequelas e salvar vidas.
O Prof. João Morais deixa ainda um recado que não é só para os médicos: “Para o sucesso de qualquer tratamento, é fundamental que o doente assuma também o seu papel. Implica cumprir rigorosamente a medicação prescrita e adotar um estilo de vida saudável. Deixar o tabaco, comer equilibrado, mexer-se, controlar a tensão e a glicose.” E acrescenta, com um tom que quase parece paternal mas é só realista: “A gestão do medo da recorrência e a redução do risco de novos eventos dependem muito das escolhas que se fazem dia após dia.”
Portanto, fica o aviso: a alta hospitalar não é um ponto final. É, isso sim, um ponto e vírgula. Sobreviver é só o primeiro passo. O resto é uma missão contínua. Proteger o coração exige vigilância, acompanhamento regular, adesão à terapêutica e uma conversa franca entre cardiologistas e médicos de família. O risco residual não desaparece por milagre. Mas pode ser enfrentado.
Referências bibliográficas:
Silva V, Vilela EM, Campos L, Miranda F, Torres S, João A, et al. Suboptimal control of cardiovascular risk factors in myocardial infarction survivors in a cardiac rehabilitation program. Rev Port Cardiol. 2021;40(12):911-920.
Bhatt DL, Steg PG, Miller M, et al. Cardiovascular risk reduction with icosapent ethyl for hypertriglyceridemia. N Engl J Med. 2019;380(1):11-22.
Nicholls SJ, Lincoff AM. Icosapent ethyl following acute coronary syndrome: the REDUCE-IT trial. Eur Heart J. 2024;45(13):1173-1176.
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