Circula no Instagram um vídeo em que um homem relata a suposta história de uma mulher com câncer no endométrio, tecido que reveste internamente o útero. De acordo com a narrativa, a doença já estava em estágio de metástase – quando as células cancerígenas se desprendem do tumor principal e se espalham para outras partes do corpo. Segundo o narrador, a mulher teria se curado após consumir ivermectina, fenbendazol e vitamina D. É falso. O protocolo não é eficaz.

Por WhatsApp, leitores sugeriram que o conteúdo fosse analisado. Confira a seguir o trabalho de verificação da Lupa​: 

“Uma paciente de 67 anos que descobriu um câncer de endométrio, […] [Ela] começou a tomar ivermectina, fenbendazol e vitamina D […] Gente, começou a ver regressão da tumoração. Ela fez uma ressonância final do ano passado, em que viu que reduziu o tumor. Ela foi para a cirurgia e conseguiu tirar o útero comprometido dela. E aí ela repetiu a ressonância agora em fevereiro e não viram mais lesão nenhuma”

Legenda do post que circula no Instagram

O protocolo citado não é eficaz. O Ministério da Saúde negou, em nota enviada à Lupa, que o consumo dos itens mencionados possa ser utilizado como tratamento para metástase. “Não há protocolos aprovados pelo Ministério da Saúde ou pela Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde) para o uso de ivermectina, fenbendazol e vitamina D para o tratamento da metástase do câncer do endométrio”, informou.

A pasta também ressaltou que “o abandono de terapias validadas por métodos sem comprovação científica representa um risco grave à sobrevida do paciente, atrasando intervenções que realmente possuem potencial de controle da doença”. 

No Sistema Único de Saúde (SUS), o tratamento da doença segue diretrizes baseadas em evidências científicas, que priorizam quimioterapias combinadas e, em casos específicos, a imunoterapia, conforme destacou a pasta. “Substâncias sem registro para fins oncológicos  não compõem a linha de cuidado oficial e não possuem eficácia comprovada para deter a progressão metastática”. 

Vale destacar que a ivermectina e o fenbendazol são medicamentos antiparasitários, ou seja, utilizados como vermífugos na medicina humana e veterinária, respectivamente. Em 2023, a ivermectina já foi citada falsamente como tratamento ou cura para a Covid-19 e também para o câncer

O fenbendazol tem uso proibido em humanos, sendo indicado apenas para tratamento de verminoses em animais.A automedicação pode causar efeitos adversos e interferir em terapias oncológicas. No fim do ano passado, o Ministério da Saúde já havia alertado sobre o chamado “protocolo Joe Tippens”, que também citava a substância como suposta cura para o câncer – uma narrativa sem qualquer embasamento científico.

Já a vitamina D é um nutriente e não tem capacidade de curar um câncer. A vitamina ajuda na na saúde óssea, no crescimento e desenvolvimento da musculatura. O consumo do nutriente também já apareceu em outras desinformações que alegavam cura para dengue e aumento da testosterona.

Especialista alerta para o risco

Em entrevista à Lupa, a cirurgiã oncológica Viviane Rezende de Oliveira, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), explicou que o tratamento do câncer de endométrio, incluindo casos com metástase, é individualizado e baseado em evidências científicas robustas. 

“O tratamento pode incluir cirurgia, radioterapia, quimioterapia, imunoterapia e terapias-alvo, conforme o perfil molecular do tumor, o que tem permitido avanços importantes e melhores perspectivas de controle e cura da doença. Os medicamentos citados, vitamina D, ivermectina e fenbendazol, não fazem parte de nenhuma dessas estratégias terapêuticas reconhecidas”, afirmou.

Oliveira também destacou que essas substâncias não fazem parte de diretrizes clínicas internacionais, nem nacionais e não são recomendadas por órgãos reguladores como o Food and Drug Administration (FDA) ou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “Além disso, não estão contempladas em protocolos de referência como os do National Comprehensive Cancer Network (NCCN) ou de sociedades europeias e brasileiras de Oncologia. Portanto, seu uso, para a referida questão, não é respaldado pela medicina baseada em evidências”, explica a vice-presidente da SBCO.

Ao analisar estudos internacionais, a Lupa identificou pesquisas que não recomendam a ivermectina no tratamento de cânceres ginecológicos. Outro estudo aponta que o fenbendazol pode causar picos de inflamação no organismo humano. Há poucos estudos sobre a influência da Vitamina D no tratamento do câncer. Parte da literatura sugere que o nutriente pode atuar na inibição da multiplicação desordenada de células tumorais, no entanto, ainda são necessárias mais pesquisas para comprovar sua eficácia nesse contexto. 

Falsas curas para o câncer

A Lupa já verificou, anteriormente, posts que promoviam falsas curas e prevenções para o câncer. Em 2025, grupos no Telegram vendiam dióxido de cloro e afirmavam, sem provas e respaldo científico. No mesmo ano, um vídeo circulou nas redes alegando que o melhor remédio natural para evitar câncer na tireoide. O que também é falso.

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