Os pinheiros derrubados pela tempestade Kristin na Marinha Grande vão gerar cerca de quatro milhões de novas plantas, depois de as pinhas terem sido apanhadas do chão para recolher as sementes, informaram ontem os promotores da ação.
A tempestade Kristin afetou a região de Leiria no final de janeiro, causando danos avultados no património florestal da região, e os pinheiros bravos caídos na zona da Marinha Grande foram a fonte para a recolha de 10 toneladas de pinhas, que vão permitir obter 300 quilogramas de sementes e produzir quatro milhões de plantas de novas plantas, explicou o Centro PINUS – Associação para a Valorização da Floresta de Pinho, promotor da ação.
O Centro Pinus esclareceu à agência Lusa que a recolha das pinhas foi feita entre 21 de março e 24 de abril, aproveitando uma “oportunidade invulgar” criada pelo mau tempo: “A possibilidade de recolher pinhas diretamente do solo, permitindo acelerar a recolha de semente de pinheiro-bravo num contexto de escassez”.
Uma equipa do Centro PINUS fez a recolha das 10 toneladas de pinha, em “estreita colaboração com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF)”, contou a mesma fonte.
“Em condições normais, a colheita de pinhas é realizada diretamente na copa de árvores em pé, um processo exigente, oneroso e limitado no tempo. O mau tempo criou condições excecionais que permitem recolher pinhas a partir do solo, aumentando significativamente a eficiência desta operação, e permitindo fazer face à escassez atual de semente de pinheiro-bravo”, justificou.
Com as 10 toneladas de pinhas recolhidas, vai-se obter “um rendimento estimado de cerca de 300 quilogramas de sementes, suficientes para produzir aproximadamente 4,08 milhões de plantas, com potencial para arborizar – ou rearborizar – cerca de 3.264 hectares de pinhal”, quantificou o Centro PINUS.
Os valores alcançados com esta operação equivalem “à média anual de produção de semente certificada das últimas quatro campanhas”, destacou.
Este trabalho permite “aumentar a disponibilidade de semente para futuras ações de arborização” e “salvaguardar o património genético de um dos pinhais mais emblemáticos do país”, como o de Leiria, argumentou a associação sem fins lucrativos composta por integrantes da fileira do pinho.
“Num contexto de resposta a um evento extremo, esta colaboração evidencia como diferentes entidades podem contribuir, de forma complementar, para transformar uma situação adversa numa oportunidade concreta de recuperar a floresta”, considerou.
A tempestade Kristin foi a primeira de três depressões que afetaram Portugal continental no espaço de semanas, entre janeiro e março.
Pelo menos 19 pessoas morreram em Portugal entre o final de janeiro e o início de março na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que fizeram também várias centenas de feridos, desalojados e deslocados. Mais de metades das mortes foram registadas em trabalhos de recuperação.
Os temporais, que atingiram o território continental durante cerca de três semanas, sobretudo nas regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo, provocaram a destruição total ou parcial de milhares de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias, com prejuízos superiores a cinco mil milhões de euros.
O Governo recebeu entretanto cerca de 35.900 candidaturas para apoios à reconstrução de habitações e a Estrutura de Missão designada para a recuperação estimou entre 35 mil e 40 mil o número de empresas com danos nas zonas mais atingidas. Três meses após o início das tempestades, cerca de 20 mil clientes continuam sem serviços fixos de comunicações.