Para além dos seguranças fardados, que estão ao serviço de alguns dos restaurantes e bares, há outros homens parados ou a caminhar de um lado para o outro. Sem copos na mão, distinguem-se por carregarem uma pequena mala que, na maioria dos casos, está repleta de drogas e dinheiro. Na Rua Nova do Carvalho, a abordagem de venda de drogas na noite desta sexta-feira é mais discreta. Os traficantes estão presentes em maior quantidade na Rua dos Remolares e na travessa da Ribeira Nova, que são menos iluminadas e não têm a presença dos seguranças privados. Parados em pé enquanto esperam a passagem dos turistas, alguns dos traficantes conversam entre si, em português, e atiram piropos a mulheres desacompanhadas.

rua Nova do Carvalho, Lisboa, Portugal

Em 2011, a via foi fechada aos carros e pintada de cor de rosa

A um dos turistas que ali passa e demonstra interesse, um dos traficantes oferece “amostras” daquilo que vende. “Tenho tudo o que tu quiseres. MD[MA], ecstasy, ‘ganza’, coca…”. A presença de pessoas ao redor não intimida o interlocutor, pelo que é possível vê-lo e ouvi-lo ao tentar vender uma saqueta recheada com o que diz ser cocaína, ao custo de 60 euros por grama. O homem, que não deve ter mais de 30 anos, despeja uma pequena quantidade de pó branco na mão do turista — que diz não acreditar na veracidade da substância oferecida — para que este avalie a “qualidade do produto”. Há cerca de duas horas, mantém-se parado a menos de 100 metros dali um carro da Polícia Municipal, com as luzes apagadas e nenhum agente de segurança dentro ou fora do veículo. Numa tentativa de concluir a venda, o homem chama colegas para trazerem ainda mais opções de drogas ao turista.

As confusões e infrações nesta rua não são inéditas. Uma grande pancadaria entre marinheiros ingleses e norte-americanos foi repelida pela PSP em 1989, o que tornou os encontros dos “homens do mar” com as “mulheres da terra” cada vez menos frequentes. As casas de alterne continuavam a existir, operando ilegalmente disfarçadas de pensões que ficavam sobre os bares da rua. Este e tantos outros factos da história da Rua Nova do Carvalho foram reunidos no livro Cais do Sodré — Das tavernas de marinheiros à revolução Jamaica e Tokyo (editora Tinta da China), lançado em janeiro deste ano. Contar toda a história do cais “desde a Idade Média” foi a missão de João Macdonald, Guiomar Belo Marques, Luís Carlos Amaro e Carlos Machete Ramadinha. Os autores organizaram toda a complexa linha do tempo deste ícone lisboeta através de pesquisas em arquivos, fotos e depoimentos realizados durante quase dois anos.