A menção a “ataque terrorista” não é inocente por parte do chefe de Estado russo. Entre os agentes do FSB, há um evento que marcou negativamente o desempenho do seu trabalho: o ataque terrorista do autoproclamado Estado Islâmico à sala de espetáculos Crocus, em março de 2024, que fez mais de cem vítimas mortais. “Especialmente para o Segundo Serviço, responsável pelo contraterrorismo, foi um episódio profundamente vergonhoso“, recorda Maria Kolomychenko. “Falharam em prevenir o maior ataque terrorista em duas décadas [na Rússia], apesar dos avisos norte-americanos.”
A especialista destaca que o FSB foi alvo de “críticas sem precedentes”, que se intensificaram quando, em meados de 2025, foi divulgado que os perpetradores do ataque o planearam através do Telegram — uma rede social fácil de monitorizar. Após esta humilhação, o ramo das secretas pretendeu evitar repetir que episódios idênticos ocorram. “Os criminosos também ouvem e veem tudo”, argumentou o Presidente russo na declaração ao país a 23 de abril, em que também explicou que não estão a ser revelados mais detalhes porque isso poderia “dificultar o trabalho operacional” das autoridades.
As consequências das medidas causaram um impacto direto na taxa de aprovação do Presidente russo. Antes da invasão em grande escala da Ucrânia, Vladimir Putin já beneficiava de uma popularidade geralmente elevada, ainda que oscilante. Após o conflito na Ucrânia, o índice de aprovação disparou e estabilizou-se durante vários momentos na casa dos 80%. A tendência manteve-se ao longo de quatro anos — até que os bloqueios às VPNs e de vários sites se intensificaram desde março.
É certo que os estudos de opinião — sobretudo os encomendados ou divulgados por organismos estatais — devem ser lidos com cautela, como explica ao Observador o professor de Ciência Política na Universidade de San Diego, Mikhail Alexseev. A queda de popularidade é, assim sendo, “notável”, uma vez que as empresas de sondagens “têm sofrido uma forte pressão do Kremlin há anos para manipular os dados a favor de Vladimir Putin”.
Para além disso, em contexto de guerra e de repressão crescente, muitos russos preferem não se comprometer e respondem de forma evasiva às empresas de sondagens ou simplesmente recusam participar. Depois da invasão da Ucrânia, o regime adotou medidas cada vez mais restritivas e a maioria da população manteve‑se apática, sempre com medo de criticar abertamente a atuação do chefe de Estado.
???? Putin’s approval rating has been falling for the sixth week in a row.
According to the All-Russian Center for the Study of Public Opinion, his rating fell by another 1.8% in the week from April 6 to 12, to 72%. Since the beginning of March, Putin’s overall trust has fallen by… pic.twitter.com/aVsMiiBReb
— MAKS 25 ???????????? (@Maks_NAFO_FELLA) April 17, 2026
Essa aparente apatia está gradualmente a desvanecer-se e os números das sondagens já o demonstram. Desde meados de fevereiro, a taxa de aprovação de Vladimir Putin diminuiu 7,3 pontos percentuais, ao passo que o índice de confiança no Presidente recuou 6,5 pontos percentuais. Atualmente, mesmo tendo em conta as reservas que este tipo de sondagens estatais acarretam, 65,6% dizem aprovar a atuação do chefe de Estado, enquanto o nível de confiança no chefe de Estado é de 71%.
Mikhail Alexseev dá também um exemplo de como mesmo os apoiantes mais ferrenhos de Vladimir Putin o estão a criticar. O especialista recorda o caso de Ilya Remeslo, um blogger pró-Kremlin que durante anos foi um “crítico feroz dos oponentes de Putin”: “Em meados de março, atacou Putin e chamou-lhe um criminoso de guerra e ladrão”. O influencer queixou-se dos “bloqueios na internet promovidos pelo Governo russo”, assim como da “guerra fracassada” na Ucrânia. A consequência? Foi internado numa clínica psiquiátrica, tendo tido alta um mês depois.
Tudo isto permite inferir que a popularidade de Vladimir Putin já teve melhores dias. Para já, o regime parece não estar preocupado. As restrições à internet, a campanha contra as VPNs e os bloqueios deverão continuar. Porém, estes fatores estão longe de ser os únicos a explicar porque é que cada vez mais russos se permitem manifestar algum descontentamento às empresas de sondagens. O aumento do custo de vida e a sensação de uma guerra sem fim na Ucrânia são igualmente importantes.
A guerra no Irão parecia ser um oásis para a economia russa. A campanha militar na Ucrânia já dura há quatro anos e não tem fim à vista: os custos continuam elevados e grande parte das receitas públicas são canalizadas para o esforço de guerra. A possibilidade de a Rússia encher os cofres com dinheiro proveniente da venda de petróleo e de gás natural (cujos preços dispararam) aparentava ser a solução ideal para a economia de um país cada vez mais frágil. Os Estados Unidos suspenderam ainda temporariamente algumas sanções que aplicaram ao setor petrolífero russo. Mas terá sido apenas fogo de vista: estes ganhos não chegam para inverter a trajetória de estagnação.
Segundo dados adiantados pela Reuters, a economia russa contraiu 0,3% no primeiro trimestre de 2026 — a primeira queda trimestral desde o início de 2023. O país beneficiou de preços elevados do petróleo, mas isso não foi suficiente para garantir crescimento económico. Em meados de abril, durante uma reunião com os seus conselheiros económicos no Kremlin, o Presidente russo reconheceu mesmo que os “indicadores macroeconómicos estão aquém das expectativas”.