Em outubro do ano passado, a ArtExtasia anunciou aos seus alunos o lançamento de um novo site, o Tantra Revelations, um serviço de streaming para maiores de 18 anos com o custo de 21 euros por mês. O catálogo disponível nesta plataforma inclui várias fotografias e filmes eróticos e pornográficos.

Ângela, Rita e Luísa não se conhecem, mas todas decidiram contactar o Observador após a publicação do podcast “Os Segredos da Seita do Yoga”. Dizem querer contar a sua história — e não são as únicas. Ângela admite que se sente “mal, culpada, por trair a confiança de algumas pessoas que partilharam dores muito pessoais e íntimas”. Mas, por outro lado, pensa que foi “por tanta gente ter ficado calada” que o movimento de Gregorian Bivolaru “cresceu e continua a crescer”.

Como é que a escola de yoga e tantra Natha e a academia de arte erótica ArtExtasia se cruzam? Uma pesquisa rápida no site da Natha não remete, em momento algum, para o braço artístico da organização. E vice-versa. Não parece haver eventos conjuntos e nem membros comuns, mas os testemunhos recolhidos pelo Observador mostram o oposto.

“Dizem que a ArtExtasia não é da Natha, mas é. Tanto que tínhamos de ter obrigatoriamente pessoas da ArtExtasia nos festivais de tantra que a Natha organizava”, conta Luísa, que frequentou a academia de artes eróticas até por volta de 2019. E garante que “a maioria das pessoas da ArtExtasia pertenciam também à Natha”.

Rita também comprova a ligação entre as duas organizações. “Trabalham em conjunto, a ArtExtasia tem os mesmos princípios da Natha”, sendo que “o yoga e o tantra são sempre as bases”. Um dos aspetos comuns entre a Natha e a ArtExtasia é a necessidade de cumprirem “rituais de iniciação” secretos, diz. E conta que havia um grande “secretismo sobre coisas que não podíamos dizer” a ninguém. “Às vezes achava aquilo ridículo, eram coisas que não me pareciam nada de mais, porque é que tinha de ser um segredo? Às vezes era uma dança que fazíamos, simplesmente.”

O autor do livro “O Universo das Seitas Destrutivas”, António Madaleno, explicou no podcast “Os Segredos da Seita do Yoga” que se trata de uma técnica propositada, com o objetivo de, a pouco e pouco, ir normalizando os segredos e os juramentos. “As pessoas em baixo, que estão a cumprir as regras, o rebanho, digamos assim, acredita que está a fazer algo de bom. E cada secção do grupo tem a informação estritamente necessária que deve saber para fazer o seu trabalho”, aponta António Madaleno.

A isso juntam-se os rituais de iniciação, que são apresentados como uma forma de “integrar alguém no grupo”. “Muitas vezes esses rituais são tão humilhantes que a pessoa tem de abdicar de si mesma para os pôr em prática”.

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Rita conta que na ArtExtasia “também havia iniciações só com mulheres, em que a mais velha partilhava ensinamentos mais eróticos, por exemplo sobre como ter o êxtase máximo ou sentir um orgasmo no corpo todo”. Esteve na academia de artes eróticas entre 2021 e 2024 e recorda que, na época, tinha dificuldades em assumir compromissos. O responsável pela ArtExtasia em Portugal, com quem tinha aulas, dizia-lhe “que tinha de fazer yoga todos os dias porque fazer yoga é bom”, mas Rita não cumpria. “Ele [o responsável] convenceu-me a ir para a Natha porque teria de assumir um compromisso porque havia aulas semanais. Sugeriam que fôssemos ter aulas lá porque a prática era mais frequente.”

Foi uma questão de tempo até ceder e se inscrever na Natha, a escola de yoga do movimento que Bivolaru fundou — informação que Rita, na altura, ainda desconhecia. “Quando entrei, para mim, aquilo era só uma escola de yoga. Mas depois começaram as mesmas iniciações e percebi que ali também havia grupos de mulheres e festas e salas onde não podíamos entrar”, lembra.

Miranda Grace, que contou a sua história no podcast “Os Segredos da Seita do Yoga”, diz que, tal como acontece na escola de yoga, também na ArtExtasia as mulheres são incentivadas a ser o mais femininas possível. A inglesa, que chegou a ser capa de um dos festivais organizados pela ArtExtasia em Lisboa, contou que, ao longo dos anos que passou no movimento, se viu frequentemente forçada a estar em situações  fora da sua zona de conforto. Um exemplo: o dia em que teve de subir a um palco para dançar, apenas “com um top tipo sutiã e uma saia transparente com cuecas por baixo”.

O Observador questionou a Natha sobre a sua alegada ligação à ArtExtasia aquando da realização do Podcast Plus. Em resposta, esta escola de yoga e tantra garantiu que “não tem qualquer ligação com a ArtExtasia”. “A Natha é uma associação sem fins lucrativos completamente independente, sem prejuízo de eventualmente haver membros comuns”, lê-se na resposta enviada por email e, mais tarde, publicada no site da própria Natha.

O homem que incentivou Rita a juntar-se à Natha de Lisboa e que dava a cara pela academia ArtExtasia na capital portuguesa é Pedro Vieira. Apresenta-se como ator e surge não apenas em vários vídeos publicitários nas redes sociais da ArtExtasia, mas também em alguns dos filmes que este ramo artístico do movimento de Bivolaru produz. Um exemplo é o filme “Hope St No. 6”, de 2017, em que também participa a portuguesa Marina Costa — e que tem realização da argentina Aghora Vidya, fundadora e líder deste movimento internacional.

Oito anos depois, foi justamente Pedro Vieira quem orientou a palestra gratuita “Arte Tântrica de Viver”, a que o Observador assistiu em setembro de 2025, e que surge descrita no último episódio do Podcast Plus “Os Segredos da Seita do Yoga”.

Alto, de cabelos compridos, já meio grisalhos, Pedro Vieira continua a ser uma das figuras centrais da ArtExtasia em Portugal. Em e-mails trocados com o Observador, em abril deste ano, assina como “presidente da Direção” — mas declina responder às perguntas enviadas pelo jornal.