Já a minha ligação à área das cefaleias surgiu no início do internato em neurologia, ao identificar uma necessidade: havia poucos médicos a dedicarem-se às dores de cabeça, e era importante que alguém jovem se interessasse e estudasse a área. Fiz num internato em Inglaterra, onde trabalhei durante um ano com o professor Nat Blau que era, na época, um dos grandes especialistas em cefaleias, o que reforçou o meu interesse.
Quando regressei a Portugal, ainda mantive um tempo o trabalho de investigação em neurociências cognitivas e da linguagem, mas, nas últimas décadas, tenho-me dedicado sobretudo à clínica e à investigação em cefaleias.
Desde 2022, tenho também a honra de ser diretora do Centro de Estudos Egas Moniz, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, uma unidade académica e científica dedicada à neurologia e psiquiatria, que continua o legado do professor António Egas Moniz — o único prémio Nobel da Medicina português, um médico e investigador brilhante que marcou profundamente a história da medicina em Portugal e que, além disso, era uma personagem fascinante.
Uma das dores de cabeça mais incapacitantes e, nas formas crónicas, mais difíceis de tratar, é a cefaleia em salvas, que resulta da ativação periódica e simultânea de duas partes do cérebro, o hipotálamo e o tronco cerebral. Os surtos estão relacionados com os ritmos circadianos e com o número de horas de luz por dia, por isso são mais frequentes nas mudanças de estação. Estas dores obedecem ao calendário e ao relógio: aparecem todos os anos na mesma altura e, ao longo dos dias, às mesmas horas.
Lembro-me de uma paciente que tinha diariamente uma dor insuportável durante a madrugada e, um dia, foi para o serviço de urgência umas horas antes e disse: “Agora estou bem, mas às duas da manhã vou ter uma dor de cabeça que me deixa desesperada e quero estar no hospital para me tratarem quando a tiver.” E teve, precisamente às duas da manhã.
É uma dor terrível, súbita, muito intensa. Os doentes ficam completamente desesperados e enlouquecidos, tomam toda a medicação que tiverem à mão, às vezes em doses absolutamente contraindicadas. As pessoas só querem que aquilo pare. Ao contrário das enxaquecas — em que as pessoas só querem ficar deitadas e quietas — nas crises de cefaleias em salvas os pacientes ficam muito agitados, não conseguem estar parados, como se quisessem fugir da dor.
É uma dor de tal forma violenta que, na cultura popular, é conhecida como “cefaleia suicida”, o que reflete o sofrimento e o desespero das pessoas e tem um fundo de verdade: os estudos mostram que há mesmo um risco maior de ideação e tentativa de suicídio, bem como de morte por essa causa entre estes pacientes.