Foto: Hay Ramos/Divulgação

Colin HayCantor e líder do Men At Work

No agridoce documentário Colin Hay: Waiting for my Real Life (2015), o líder do Men At Work, Colin Hay, é tratado com grande deferência por Hugh Jackman, Guy Pearce e Mick Fleetwood, entre outros artistas de destaque, enquanto destrincha sua carreira de altos e baixos.

“Os anos 80 começaram com o Men At Work”, diz determinado entrevistado durante a projeção – numa afirmação muito pertinente, afinal, os dois primeiros álbuns do conjunto australiano, Business as Usual (1981) e Cargo (1983), encapsularam com precisão o brilho daquela década, apresentando um pop rock acessível, mas sofisticado, com elementos de new wave e reggae.

Além disso, a banda de Hay – um escocês que emigrou para a Austrália quando criança – conseguiu superar o “preconceito” dos britânicos e provar seu valor para além da Oceania, como também fizeram AC/DC, INXS e Nick Cave and the Bad Seeds.

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O problema foi que os sucessos Down Under, Who Can It Be Now, Overkill e It’s A Mistake tocaram tanto nas rádios e na MTV que houve uma “saturação” de Men At Work, conforme Colin relata no filme. Com isso, além de desavenças internas, a banda implodiu, lançando seu terceiro e derradeiro LP, Two Hearts, em 1985.

Depois, Hay experimentou o fracasso de sua carreira solo, lutou contra o alcoolismo e precisou lidar com um processo por plágio envolvendo Down Under. Em 2010, a Justiça da Austrália decidiu que uma pequena parte do riff de flauta executado por Greg Hamm na faixa lembrava a antiga canção Kookaburra Sits in the Old Gum Tree. Como resultado, os reclamantes receberam 5% dos royalties do hit.

Nem por isso, o cantor deixou de esbanjar um sorriso no rosto. Sujeito bem humorado e gentil, é tão admirado em seu ramo que foi convidado para integrar a prestigiada All-Starr Band de Ringo Starr, lendário baterista dos Beatles, com quem ele toca regularmente desde 2018.

Prestes a iniciar uma extensa turnê pelo Brasil, com parada em São Paulo no dia 6 de maio, à frente de uma reformulada e rejuvenescida formação do Men At Work, o músico de 72 anos conversou com o Estadão por videoconferência.

Leia abaixo a entrevista completa.

O grupo Men At Work emplacou hits como ‘Down Under’ e ‘Overkill’, mas ficou ‘saturado’ nos anos 80 Foto: Reprodução de clipe/Men At Work

Como ser uma banda da Austrália ajudou ou não ajudou o Men At Work no início de carreira?

Depende da perspectiva que você adota ao analisar isso. Se você olhar, por exemplo, do ponto de vista de alguém na Inglaterra, como uma rádio inglesa, não era necessariamente algo positivo ser uma banda australiana, porque havia um certo preconceito. Era como se alguém das colônias [britânicas] estivesse voltando e tentando fazer sucesso. Eles nos viam como cidadãos de segunda classe. Mas, se você olhar do ponto de vista dos Estados Unidos, ou até mesmo do Brasil, havia um certo nível de curiosidade sobre a banda, justamente porque éramos da Austrália. As pessoas não sabiam muito bem o que era a Austrália, onde ficava ou quem eram as pessoas de lá. Então acho que, no fim das contas, isso provavelmente foi algo positivo.

Quando pensamos nas bandas australianas mais emblemáticas do rock, pensamos em Men at Work, AC/DC, INXS e Nick Cave and the Bad Seeds. Pode haver um conceito musical que as una, ou uma ideia em comum, ou elas são completamente diferentes?

Elas são muito diferentes musicalmente. Mas uma coisa que acredito que as conecta é o fato de que nós éramos naquela época muito distantes do resto do mundo. Então, havia uma espécie de atitude de ‘esponja’: você absorvia coisas do resto do mundo porque queria descobrir mais sobre música. Você ouvia música da Grã-Bretanha, dos EUA, de várias partes do mundo. E o que tendia a acontecer era que, justamente por estarmos tão distantes, a música que surgia das bandas australianas acabava tendo uma personalidade própria, que de certa forma era moldada pela geografia de onde estávamos.

O que há de tão especial nos anos 1980 que ainda ressoa tão fortemente com as pessoas hoje?

Eu realmente não penso na música em termos de décadas. Penso que existem diferentes ondas musicais. Para mim, os anos 1960 foram o período mais incrível da música porque tudo estava sendo descoberto. Nos anos 1970, a Califórnia parecia ser o lugar onde a música estava mais empolgante. E então, surgiu todo o movimento punk na Inglaterra. Depois tivemos a cena de Seattle. Quando penso nos anos 1980, sempre penso em Michael Jackson. Lembro que nossa banda esteve em primeiro lugar por quatro meses antes de Thriller chegar e simplesmente nos derrubar do número um. Acho que também há uma questão geracional. As pessoas que estão na faixa dos 40 ou 50 anos hoje olham para os anos 1980 com muito amor e carinho.

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E música moderna, o senhor escuta?

Sempre há música excelente sendo feita. Acho que o que acontece é que há muito mais música sendo produzida hoje em dia. Quando eu estava crescendo, você sabia quando um disco dos Beatles, do Traffic ou do Pink Floyd seria lançado. Você ficava sabendo, esperava por isso, ia comprar e ouvia o disco com atenção. Hoje em dia, há tanta música que tudo gira mais em torno de canções do que de álbuns, e o consumo é bem diferente. Então, é difícil para mim avaliar a música moderna. Se você ouve, por exemplo, uma música do Harry Styles, pode achar que tem um refrão legal, melodias interessantes e tal. Mas aí você se pergunta: será que as pessoas ainda estarão ouvindo isso daqui a 30 ou 40 anos? Talvez sim, talvez não.

A banda australiana Men at Work fez sucesso nos anos 80; na foto, a formação original Foto: MTV/Wikimedia Commons

O senhor já está na All-Starr Band há alguns anos, então preciso que me conte uma história sobre Ringo Starr que nunca contou a ninguém.

Eu ainda não consigo me acostumar que faço parte da banda. Não há nada que eu queira compartilhar que eu já não tenha dividido com as pessoas antes. Mas poder passar tempo com ele é incrível. Eu cresci com um pôster dos Beatles na parede. E aí no show eu toco algo como Who Can It Be Now e, depois que terminamos, o Ringo olha para mim e diz: ‘queria ter escrito essa’.

Há planos para a All-Starr Band voltar à América do Sul ou o Ringo só quer se apresentar nos EUA?

Eu realmente não sei. Acho que ele certamente tocaria em outras partes do mundo. Posso dizer que ir à América do Sul não está fora de questão. Mas os EUA são um lugar fácil para fazer turnês. Ele tem 85 anos, então a ideia de ficar em um avião por 8 ou 12 horas não é algo que ele curta muito hoje em dia.

Men At Work – Ao Vivo

  • Quando: 6 de maio de 2026
  • Onde: Vibra São Paulo (Av. das Nações Unidas, 17.955)
  • Ingressos: ticketmaster.com
  • Preços: R$ 250 a R$ 450
  • Shows em outras cidades: Recife (8/5), Belo Horizonte (10/5), Curitiba (12/5), Porto Alegre (14/5) e Rio de Janeiro (16/5)