Em 1968, nas Olimpíadas da Cidade do México, o queniano Kip Keino ganhou os 1.500 metros com uma vantagem sobre o segundo classificado que não tinha precedente moderno. Os especialistas atribuíram ao treino em altitude a vantagem técnica. O que não perceberam na altura foi que estavam a assistir ao início de uma dominância que ainda não encontrou travagem. Os corredores do Quénia e da Etiópia somam hoje setenta por cento dos cem melhores tempos de maratona de sempre. Eliud Kipchoge é o único ser humano a ter corrido a distância em menos de duas horas, feito conseguido em 2019. A questão de porquê não tem uma resposta simples, o que a torna fascinante.

A primeira hipótese formulada foi a genética. A ideia de que existiria uma vantagem evolutiva específica capaz de explicar a dominância. Décadas de investigação chegaram a uma conclusão que contraria o senso comum: não existe uma característica genética única que explique o sucesso. O que existe é uma convergência de fatores que criam condições de desenvolvimento atlético que o resto do mundo não replica facilmente.

O queniano Eliud Kipchoge corta a meta na Maratona de Berlim

O queniano Eliud Kipchoge corta a meta na Maratona de Berlim
Créditos: Tobias SCHWARZ / AFP

A altitude é o primeiro fator. A grande maioria dos corredores de elite do Quénia vive e treina no Vale do Rift, entre 2.100 e 2.700 metros. Iten, a cidade que os corredores chamam “a casa dos campeões”, fica a 2.400 metros acima do nível do mar. A Etiópia de elite treina em Adis Abeba e nas redondezas de Entoto. A exposição a estas altitudes desde o nascimento produz adaptações fisiológicas profundas: maior concentração de hemoglobina, maior densidade de capilares musculares e maior eficiência metabólica. Algumas destas adaptações ocorrem durante o desenvolvimento e não são replicáveis em adulto.

A morfologia corporal é o segundo fator. Os corredores de elite do leste africano têm pernas mais longas em relação ao tronco, o que reduz o custo energético de cada passada. Estudos demonstraram que a eficiência biomecânica dos corredores quenianos permite manter a velocidade a um custo metabólico menor. Esta característica é influenciada pelo facto de muitas crianças percorrerem longas distâncias a pé para chegar à escola durante os anos de maior plasticidade fisiológica.

Iten, Quénia

Iten, Quénia
Créditos: edskoch | Wikimedia Commons

A motivação socioeconómica é o fator que a investigação ocidental subestimou durante décadas. No Quénia e na Etiópia, um maratonista de elite pode transformar a situação financeira da sua família. Ganhar uma grande prova internacional é equivalente a ganhar uma lotaria. O grau de compromisso com o treino que essa perspetiva gera não tem paralelo no contexto ocidental.

Iten produz regularmente campeões mundiais. A concentração de talento criou um efeito de rede onde os atletas mais promissores encontram os melhores treinadores e parceiros de treino. A presença de ídolos funciona como prova de possibilidade. A resposta à questão não é estritamente genética. É a união entre a altitude, a morfologia e uma motivação que o Ocidente raramente consegue produzir com a mesma intensidade.