Governos europeus receiam que Vladimir Putin veja os próximos um ou dois anos como uma “janela de oportunidade” para testar o compromisso do Ocidente com a NATO, numa altura em que Donald Trump continua na Casa Branca e a União Europeia ainda não reforçou plenamente a sua capacidade militar.

A preocupação é partilhada por responsáveis de defesa e decisores políticos europeus, embora a hipótese de uma ofensiva terrestre direta contra um país da NATO seja considerada improvável, indicou o jornal ‘POLITICO’.

O receio principal não é uma invasão convencional em larga escala, mas uma operação limitada, ambígua ou híbrida, desenhada para semear divisão dentro da Aliança Atlântica. A dúvida que Moscovo poderia tentar explorar é simples: uma provocação russa seria suficientemente grave para acionar o Artigo 5 da NATO, que considera um ataque contra um aliado como um ataque contra todos?

“Algo pode acontecer muito em breve — há uma janela de oportunidade russa”, afirmou Mika Aaltola, eurodeputado finlandês do centro-direita e membro da comissão dos Negócios Estrangeiros do Parlamento Europeu, citado pelo ‘POLITICO’. “Os Estados Unidos estão a retirar-se da Europa, as relações transatlânticas estão em ruínas e a UE ainda não está totalmente pronta para assumir as responsabilidades sozinha.”

A preocupação ganhou força depois de os Estados Unidos terem anunciado a retirada de cerca de 5.000 militares da Alemanha, decisão que gerou alarme em vários setores políticos e militares. A ‘Reuters’ noticiou que Trump já tinha colocado em revisão a presença americana na Alemanha, num contexto de tensão com aliados europeus e críticas à resposta da NATO à crise no Irão.

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Não uma invasão clássica, mas uma provocação calculada

Responsáveis europeus e diplomatas da NATO consideram pouco provável que Putin lance uma ofensiva terrestre direta contra um Estado-membro da Aliança, sobretudo porque a Rússia continua fortemente comprometida militarmente na Ucrânia. Mas isso não elimina outros riscos.

Segundo o ‘POLITICO’, o cenário mais provável seria uma ação dirigida e limitada: uma operação com drones, uma manobra no Mar Báltico, um incidente no Ártico, uma provocação contra pequenas ilhas ou uma ação envolvendo a chamada frota sombra russa.

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A vantagem deste tipo de operação, do ponto de vista de Moscovo, estaria precisamente na ambiguidade. Um ataque com drones, por exemplo, não exige necessariamente o envio de tropas nem a travessia clara de uma fronteira. Isso poderia dificultar uma resposta unânime da NATO e abrir espaço para discussões sobre proporcionalidade, atribuição de responsabilidade e enquadramento no Artigo 5.

Gabrielius Landsbergis, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros da Lituânia, afirmou que Putin pode tentar “escalar horizontalmente contra outro vizinho” para evitar uma negociação humilhante com a Ucrânia. A ideia é que a Rússia procure uma saída não através da paz, mas através da expansão da pressão para outros teatros.

Trump e a fragilidade transatlântica entram nas contas

A possível leitura russa da situação passa também pela política americana. Trump tem criticado repetidamente a NATO e já classificou a aliança como um “tigre de papel”. Para vários responsáveis europeus, a postura da Casa Branca pode incentivar Moscovo a testar até que ponto Washington estaria disposto a responder a uma provocação russa.

Donald Tusk, primeiro-ministro polaco, afirmou no sábado que “a maior ameaça à comunidade transatlântica” é a “desintegração em curso” da própria aliança. O alerta surge num momento em que Washington reduz presença militar na Alemanha e ameaça movimentos semelhantes noutros países europeus.

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A decisão americana de retirar tropas da Alemanha, noticiada também pelo ‘Washington Post’, deverá envolver cerca de 5.000 militares e aumentar a preocupação com a capacidade de dissuasão europeia perante a Rússia.

Para um alto responsável europeu da defesa citado pelo POLITICO, há risco de uma deterioração ainda maior da posição americana em relação à NATO, sobretudo se a política interna nos Estados Unidos levar Trump a endurecer o discurso contra a Europa antes das eleições presidenciais de 2028.

Europa ainda precisa de anos para estar pronta

Desde a invasão russa da Ucrânia, em 2022, os países europeus aumentaram de forma significativa os gastos com defesa. Mas o impacto real desse investimento demorará anos a sentir-se no terreno.

O roteiro europeu de prontidão de defesa aponta para 2030 como horizonte para que a UE esteja em condições de dissuadir de forma credível adversários e responder a uma agressão. Até lá, muitos responsáveis consideram que existe um período vulnerável.

“Pode ser uma pequena coisa psicológica que nos assuste, se Putin sentir que esse tipo de escalada nos torna mais fracos, nos faz sentir ameaçados e reduz o apoio à Ucrânia”, afirmou Ville Niinistö, eurodeputado finlandês e antigo ministro.

Aaltola resume o risco de forma ainda mais direta: a guerra na Ucrânia está a desgastar recursos russos, mas isso pode tornar o Kremlin mais perigoso, não menos. “Escalar o conflito para outros teatros poderia dar à Rússia uma carta para jogar”, afirmou.

Bálticos dividem leituras sobre ameaça imediata

Nem todos os responsáveis europeus avaliam o risco da mesma forma. Políticos da Finlândia e da Lituânia têm defendido que a Europa deve acelerar urgentemente a defesa antimíssil e a prontidão militar, sobretudo num contexto de atrasos nas entregas americanas de armamento devido à guerra no Irão.

Já na Estónia e em setores da própria NATO, a leitura é mais cautelosa. O receio é que o alarmismo alimente precisamente a estratégia de Putin, ao amplificar o medo e a sensação de vulnerabilidade.

O presidente estónio, Alar Karis, disse ao ‘POLITICO’ que a Rússia está “muito ocupada na Ucrânia” e que não acredita que tenha capacidade suficiente para lançar uma guerra contra os países bálticos. A avaliação é partilhada por um diplomata sénior da NATO e por vários responsáveis europeus da defesa.
“Considero altamente improvável”, afirmou um diplomata da NATO, acrescentando que a tendência suicida de Putin “tem limites”, sobretudo quando não há ganho imediato evidente.

Ainda assim, mesmo os mais cautelosos admitem que a Europa não pode descartar nenhum cenário. Como afirmou Karis, “ninguém estava à espera da guerra na Ucrânia”. Por isso, concluiu, a Estónia mantém-se “alerta”, “pronta” e de “olhos abertos”.

O perigo da falsa sensação de segurança

Para os responsáveis que defendem uma postura mais dura, minimizar a ameaça pode ser tão perigoso como exagerá-la. Aaltola alerta que uma falsa sensação de segurança em democracias pode atrasar decisões essenciais de investimento militar.

“Precisamos de alocar recursos, e se houver uma falsa sensação de segurança, os recursos não são alocados à defesa”, afirmou.

A questão central, para a Europa, é preparar-se para uma ameaça que pode não chegar sob a forma clássica de tanques a atravessar fronteiras. Pode vir como sabotagem, drones, operações marítimas, pressão no Ártico, ações da frota sombra ou incidentes desenhados para dividir aliados.

A Rússia não é omnipotente, como sublinhou Ville Niinistö. Mas, para vários responsáveis europeus, a combinação entre desgaste militar, isolamento político e oportunidade estratégica torna o momento perigoso.

A pergunta que percorre as capitais europeias é menos se Putin tem força para invadir a NATO, e mais se acredita que pode testá-la sem pagar um preço demasiado alto.