Brasil

Benício Xavier, de seis anos, que deu entrada no hospital com sintomas de laringite, morreu, no dia 22 de novembro, na cidade brasileira de Manaus, depois de ter sido injetada com adrenalina, tratamento apenas indicado para casos graves.

Caso Benício: investigação revela que médica vendia maquilhagem enquanto criança estava em estado grave

Reprodução/Redes sociais

A criança deu entrada no Hospital Santa Júlia pelo próprio pé, apresentando sintomas compatíveis com laringite, tosse seca e febre. A avaliação inicial apontava para um quadro clínico ligeiro.

No entanto, durante o atendimento, a médica responsável, Juliana Brasil, prescreveu adrenalina administrada por via intravenosa, quando o protocolo indicava que o fármaco deveria ser aplicado por inalação.

Mensagens tramam médica

Quase seis meses após o caso, as autoridades revelaram novos contornos da investigação. Segundo o inquérito, no momento em que a criança recebia tratamento de emergência, a médica encontrava-se a trocar mensagens no telemóvel relacionadas com a venda de produtos cosméticos.

A investigação aponta ainda para uma tentativa de afastamento de responsabilidades. Em tribunal, a médica apresentou um vídeo alegando que o sistema informático do hospital teria alterado automaticamente a via de administração do medicamento. Contudo, uma perícia técnica afastou qualquer falha no sistema.

WhatsApp sempre aberto

De acordo com o relatório policial, enquanto Benício se encontrava na chamada “sala vermelha”, destinada a doentes em estado crítico, a médica acompanhava a evolução do quadro clínico, mas mantinha simultaneamente conversas no WhatsApp com clientes.

Nessas mensagens, discutia preços, descontos e formas de pagamento de produtos de beleza, recebia comprovativos de pagamento e respondia com emojis. Noutra conversa, enviava a chave Pix (sistema de pagamentos instantâneos semelhante ao MBWay em Portugal) após ser chamada de “lindona” por uma cliente.

Tentou ‘maquilhar’ o caso

Os investigadores terão também encontrado indícios de que a médica tentou sustentar a sua versão dos factos, chegando a apresentar um vídeo em que, segundo ela, o sistema eletrónico do hospital teria alterado automaticamente a forma de administração do medicamento.

Juliana Brasil foi formalmente acusada de homicídio doloso com dolo eventual, isto é, quando se assume o risco de provocar a morte, bem como de fraude processual e falsidade ideológica. As autoridades apuraram ainda que se apresentava como pediatra, apesar de não possuir especialização na área.

Família promete não desistir

No passado dia 1 de dezembro, a família de Benício, que promete não desistir até que haja consequências para os envolvidos, manifestaram-se em frente ao Hospital Santa Júlia e exigiram justiça pela morte da criança.

No Facebook, o pai da vítima recordou o filho como uma criança “compreensiva, carinhosa, atenciosa, obediente, resiliente, esperta, amiga, e acima de tudo, sem nenhuma maldade com o próximo”.

Bruno Mello de Freitas garantiu também que a “luta” pelo filho “será incansável”. “Não mediremos esforços”, acrescenta.