Um pouco de stress nunca fez mal a ninguém, certo? Bom, depende.
Em doses bem controladas, doseadas qb, o stress ajuda-nos a manter a atenção e o foco, mantém-nos longe de situações de perigo, permite-nos identificar potenciais riscos e até dá um empurrão ao sistema imunitário. As descargas neuroquímicas no nosso cérebro, que nos fazem dar um salto quando apanhamos um susto ou fugir perante uma ameaça, são importantes para o dia a dia e ajudaram-nos a sobreviver ao longo dos últimos trezentos mil anos (enquanto Homo sapiens, porque se formos a outros hominídeos a história começa lá mais atrás).
Só que, algures ao longo do processo, o stress deixou de ser útil para fugirmos de tribos inimigas ou para escaparmos das garras de alguma fera e passou a ser encarado como um passaporte útil e natural para viajar no dia a dia do mundo moderno. E a reação natural do organismo à pressão e desafios quotidianos passou a ser um fardo pesado que carregamos a toda a hora.
O stress prolongado pode afetar a nossa saúde física e mental, aumentando os risco de depressão, burnout, ansiedade, enxaquecas ou hipertensão. As respostas de cada um dependem da personalidade, genética e ambiente cultural e social, mas os desafios da vida moderna tornam a gestão dessas reações bem mais difíceis de operacionalizar.
“Cuidar de um familiar doente durante anos a fio, com um grau de exigência emocional e de desgaste acentuado, passar por um período de desemprego prolongado ou viver numa zona ativa de conflito de guerra” são situações que podem potenciar o stress crónico – o tal que se instala para lá do “alarme de incêndio” do stress agudo. As palavras são de Patrícia Monteiro, investigadora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, que coordena um grupo de trabalho que está a procurar marcadores genéticos que “aumentam a predisposição ou protejam de perturbações neuropsiquiátricas ou mentais”, para assim encontrar respostas sobre stress crónico.
Há quatro anos, o investigador Paulo Pinheiro, da Universidade de Coimbra, dizia-nos que “o aumento prolongado das hormonas de stress tem um impacto a nível dos receptores neuronais, da própria morfologia e funcionamento dos neurónios e de como comunicam uns com os outros.”
Um pouco por todo o mundo, cientistas como Patrícia e Paulo trabalham para aumentar o conhecimento em torno do stress e a forma de o controlar. E se é certo que casamentos, divórcios, mudanças de casa ou de emprego, reformas, excesso de trabalho, conflitos na escola e no escritório, dificuldades financeiras, diagnósticos assustadores ou relações tóxicas são fatores que podem potenciar grandes níveis de stress, é também certo que a saúde mental é, ao mesmo tempo, causa e consequência de tudo isto.
Medicação, psicoterapia, boas noites de sono, auto-cuidado, exercício físico e boa alimentação podem ser aliados para lidar com o stress. Mas nenhum será muito eficaz enquanto não pararmos para reconhecer que precisamos urgentemente de ajuda para não deixarmos que o stress controle a nossa vida. Antes que seja tarde.
Entretanto, estes foram os trabalhos que publicámos no último mês no Mental, a secção do Observador totalmente dedicada à saúde mental: