Habituados a encontrar diversos tipos de abutres nos centros de alimentação de aves necrófagas (CAAN) que monitorizam regularmente, os técnicos da Reserva da Faia Brava tiveram uma enorme surpresa quando detectaram naquele espaço uma águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti). “Tanto quanto sei, é caso único nesta zona”, diz João Carvalho, coordenador da Biodiversidade da reserva.

A ave, “um indivíduo imaturo”, sublinha João Carvalho, foi apanhada nas imagens das câmaras de armadilhagem fotográfica do CAAN situado em Escalhão, em pleno Parque Natural do Douro Internacional. Um espaço já fora da área da reserva mas que é gerido e monitorizado por ela. A sua presença fez abrir sorrisos nos responsáveis da Faia Brava e a esperança de que possa ser um sinal de que a águia-imperial se venha a instalar neste território.

A espécie, outrora presente entre o Algarve e a Beira Interior, chegou a ser declarada extinta no país, no final dos anos 1970, início dos anos 1980. Contudo, desde 2003 que voltou a nidificar em território nacional, embora em pequenos núcleos e em áreas muito restritas, que se cingirão, neste momento, ao Parque Natural do Tejo Internacional e à zona de Mértola e Castro Verde.




Apesar da baixa qualidade da imagem, é bem visível a águia-imperial-ibérica
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A Lista Vermelha das Aves de 2022 identifica-a como estando Criticamente em Perigo, situação que não se alterou em relação à avaliação feita em 2005, quando tinha o mesmo estatuto, embora a evolução da espécie seja apresentada como positiva. A estimativa para o número de casais nidificantes é 17. Em Espanha, onde João Carvalho diz que tem sido feito “um programa de recuperação extraordinário, com o número de casais a ultrapassar os 800”, a classificação de 2021 era Em Perigo.

Percebe-se, por isso, que a presença de uma destas aves numa zona próxima da Faia Brava tenha sido recebida com um entusiasmo particular. “Pode ser um primeiro passo para as vir a ter no território do Côa”, diz João Carvalho.

O trabalho, garante, está a ser feito nesse sentido. Além de necessitar de uma zona de “refúgio e tranquilidade”, há duas condições essenciais para que a espécie se possa instalar num território – a presença de presas, em concreto o coelho, e um habitat adequado, que congregue zonas de montado com áreas de pastagens e cereais.




A águia-imperial-ibérica avistada era um indivíduo imaturo, ou seja, ainda jovem
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Na Faia Brava, sublinha o biólogo, estão a ser feitos “esforços no sentido de assegurar a população de coelhos”, o que é mais um dado que cria expectativas para a presença mais assídua da águia-imperial-ibérica.

A espécie, refere João Carvalho, pode percorrer enormes distâncias, em busca de alimento, mas não é incomum que, havendo disponibilidade em “restaurantes de abutres”, como chama ironicamente aos CAAN, aproveite também para se alimentar ali, como terá acontecido agora.

Nas imagens captadas vê-se a águia-imperial-ibérica junto a uma gralha (Corvus corone), no espaço que é regularmente frequentado por três espécies emblemáticas: o grifo (Gyps fulvus), o abutre-preto (Aegypius monachus) e o abutre-do-egipto (Neophron percnopterus). Tanto o abutre-preto como o abutre-do-egipto são espécies com estatuto de conservação Em Perigo.




O campo de alimentação onde a águia-imperial-ibérica foi vista, aqui cheio de grifos, abutres-pretos e abutres-do-egipto
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A biodiversidade na área da reserva privada tem revelado várias surpresas, como a presença do gato-bravo (Felis silvestris), espécie classificada como Vulnerável no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, em 2005. Depois de ter andado desaparecido da Faia Brava durante alguns anos, parece ter voltado em definitivo. É, como diz o biólogo, outra “presença ilustre” da reserva, que anda por ali, pelo menos, “desde 2021”.

Se a águia-imperial-ibérica poderá tornar-se uma presença habitual desta região, ainda é uma incógnita. Mas, para já, a sua breve passagem por ali serviu, pelo menos, para alimentar a esperança de que um dia isso possa acontecer.